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A produção independente e a rede pública de rádio e TV (2)

CARLOS LOPES

A rede privada de rádio e televisão não toca e não mostra a produção de qualidade das gravadoras independentes porque está manietada pelo jabá pago pelas multinacionais para que toquem apenas os seus fonogramas.

E a rede pública não toca, porque depois de haver sido esmagada pelos anos de neoliberalismo sobreviveu pouca vida inteligente no setor.

Diretores e programadores do que sobrou da estrutura pública de radiodifusão não têm a menor noção do que são as gravadoras independentes e do que é a sua produção musical. Não conhecem seus catálogos. Não acompanham seus trabalhos.

Como é uma produção que via de regra não aparece na mídia é necessário fazer um pouquinho de esforço para chegar até ela, a fim de poder levá-la ao público e receber o salário merecidamente – já que ele é pago nada mais nada menos do que por esse público a quem está sendo sonegado o que há de melhor na música brasileira.

Citemos algumas dessas gravadoras independentes, através de uma rápida pesquisa na internet.

Comecemos pela mais antiga, a “Kuarup”, fundada em 1977, por Marcos Aratanha. Tem 187 títulos lançados, entre os quais se encontram Elomar, Geraldo Azevedo, Xangai, Vital Farias, Renato Teixeira, Almir Sater, Rolando Boldrin, Chico Lobo, Sivuca, Cartola, Arthur Moreira Lima.

Se nenhum desses artistas grava hoje em multinacional, por terem sido discriminados em função da qualidade de seu trabalho, que passou a ser bom demais para o padrão que os monopólios pretendem impor ao país, por que razão e em nome do que uma rádio pública quando se digna a tocar algum deles vai buscar um fonograma antigo, da época em que eles ainda gravavam nas multis?

O resultado da preguiça, física e mental, é que a rádio pública paga a parcela do direito de execução pública que que cabe à gravadora não para a Kuarup que está mantendo viva a obra do artista, mas para a multinacional que o descartou, e na maioria dos casos tirou inclusive o seu disco do catálogo.

Será a “Kuarup” uma exceção?

A “Biscoito Fino”, fundada em 1999,  por Olívia Hime e Kati de Almeida Braga, tem 197 cds no seu catálogo. Lá se encontram: Chico Buarque, Paulinho da Viola, Alceu Valença, Dori Caymmi, Guinga, Jards Macalé, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Miúcha, Toquinho, Elba Ramalho, Olívia Hime, Yamandú Costa.

A “CPC-UMES”, criada em 1998 e dirigida pelo maestro Marcus Vinicius, tem 103 lançamentos, entre eles, Quinteto Violado, Nei Lopes, Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila, Délcio Carvalho, Tom da Terra, Teca Calazans, Quinteto em Branco e Preto, Papete, Osvaldinho da Cuíca, Inezita Barroso, Dona Inah, Comadre Florzinha, Céline Imbert, Sonya, A Barca.

A “Rob Digital”, fundada em 1998, tem 94 títulos em catálogo. Lá estão Monarco, Elton Medeiros, Paulo Moura, Moraes Moreira, Rildo Hora, Turíbio Santos, Fátima Guedes, Nelson Sargento, Dorina.

A “Albatroz Discos”, de Roberto Menescal, tem 78 títulos lançados. Consultando o catálogo encontramos: Os Cariocas, Wanda Sá, Roberto Menescal, Marcos Valle, Lenny Andrade, Peri Ribeiro, Danilo Caymmi, Oswaldo Montenegro, Selma Reis, Cauby Peixoto.

A “Dabliú”, fundada em 1995 pelo compositor Costa Neto, lançou 93 cds: Celso Viáfora, Márcia Salomon, Eduardo Gudin, Paulinho Tapajós, Zé Luiz Mazziotti, Demônios da Garoa, Vicente Barreto, Moacyr Luz.

A “Dubas”, do compositor Ronaldo Bastos, tem 80 cds: Marcos Valle, Jorge Ben, Milton Nascimento, Edu Lobo, Elis Regina, Sílvia Telles, Tavinho Moura, Tenório Jr, Alaíde Costa, Tito Madi, Lô Borges.

A “Lua Music” tem 132 títulos lançados, entre eles, Aldir Blanc, Cláudio Nucci, Virginia Rosa, Filó Machado, Guilherme de Brito, Baden Powell, Nelson Ângelo.

A paranaense “Revivendo”, em atividade desde 1987, mantém vivo o repertório da “época de ouro”, com 149 cds em catálogo. Estão lá Francisco Alves, Carmen Miranda, Mario Reis, Noel Rosa, Sinhô, Luiz Gonzaga, Manezinho Araújo, Edu da Gaita, Jamelão, Trio Nagô.

A “Trama’, com 88 cds, têm em seu cast Tom Zé, Jair Rodrigues, César Camargo Mariano, Caju e Castanha, Nação Zumbi.

A “Jam Records”, de Jane Duboc, registrou em 29 cds a obra de diversos artistas, entre eles estão Beth Carvalho, Cristina Buarque, Tunai, João Nogueira e a própria Jane Duboc.

A “Acari”, criada em 1999 pelos músicos Mauricio Carrilho e Luciana Rabello, é especializada em choro e tem 40 títulos lançados.

A “Maritaca”, de Léa Freire, realizou 30 lançamentos. Entre eles, Theo de Barros, Banda Mantiqueira, Léa Freire, Bocato, Arismar do Espírito Santo, Caito Marcondes.

A “Núcleo Contemporâneo”, criada em 1996 por Benjamin Taubkin, tem 30 cds em catálogo. E lá se encontram Arrigo Barnabé, Benjamin Taubkin, Nana Vasconcelos, Nailor Proveta.

O “Selo Rádio MEC” produziu 24 cds. Wilson Moreira, Sérgio Ricardo, Hermeto Pascoal, Paulo César Feital, Quinteto Villa-Lobos e João Carlos Assis Brasil são alguns dos artistas que têm seu trabalho registrado por essa gravadora.

Fundada em 2003, a “Guanabara Records” lançou 6 cds. Durval Ferreira e Johnny Alf integram o seu catálogo.

Também fundada em 2003, a “Fina Flor”, dirigida por Rui Quaresma, produziu 11 discos, entre os quais os do Quarteto em Cy, Nei Lopes e Carlinhos Vergueiro.

Neste pequeno universo citado, de apenas 17 gravadoras independentes, encontra-se uma produção de 1.371 cds que permanecem miseravelmente ignorados pelos pachorrentos diretores e programadores das estruturas públicas de radiodifusão – com as exceções de praxe que apenas confirmam a regra.

No entanto, elas chegam a 200. Algumas, inclusive bastante crescidinhas, como a “Indie” (Fagner, Zeca Baleiro, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Leci Brandão), a “Cid”, a “Atração” e a “Movieplay”. Há também pequenos selos como o “Luanda”, de Djavan, e “Nascimento”, de Milton Nascimento.

O fato é que quem se dignar a garimpar esses catálogos não terá a menor necessidade de recorrer a um único fonograma sequer das multinacionais para montar uma programação popular e de alta qualidade.

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15/06/2007
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