Patriotismo e heroísmo do capitão Carlos Lamarca
É natural que a
“Veja” não goste de Carlos Lamarca. Primeiro, eles não são brasileiros.
Trata-se de uma revista americana, hoje em sociedade com os racistas
sul-africanos. Segundo, sua função (anti) social é a de adubar a cizânia para
que os brasileiros, desunidos, sejam submetidos por monopólios, cartéis e por
uma potência estrangeira. Terceiro, a existência da grandeza humana é a
motivação maior do repulsivo ódio dos micróbios que escapam das latrinas do
mundo.
“Veja” difamou e
insultou sistematicamente as nossas Forças Armadas nos últimos 20 anos, usando
o fantasma de uma ditadura pela qual certa mídia – que faz jus plenamente ao
qualificativo de golpista – foi a principal responsável. Agora, resolveu
especular com a decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça a
respeito de Lamarca. Esta decisão, diga-se de passagem, foi apenas a de
cumprir a sentença da Justiça que deu a Lamarca o posto de coronel, o que
implica em conceder à sua viúva a mesma pensão auferida pelos coronéis da
reserva – equivalente aos proventos de general-de-brigada.
Nosso maior soldado,
o Marechal Duque de Caxias, artífice da unidade nacional, ao proclamar a paz
com os farroupilhas depois de 10 anos de guerra civil, escreveu as palavras
que sintetizam o espírito de nosso Exército – e de nossa Nação: “Que uma só
vontade nos una. Maldição eterna aos que reviverem nossas dissensões
passadas”.
DITADURA
A vida dos marechais
Juarez Távora, Cordeiro de Farias e Olímpio Falconière, do marechal-do-ar
Eduardo Gomes, do general Estillac Leal, e dos almirantes Augusto do Amaral
Peixoto e Hercolino Cascardo, é inseparável da História do Brasil. Quando
tenentes ou capitães, eles foram punidos por sua luta em prol de um Brasil
independente e justo, condenados por deserção, quando não traição, expulsos
das fileiras militares, e combateram com armas na mão tropas das próprias
Forças Armadas. Depois, foram reintegrados. O mesmo aconteceu com figuras que
não eram revolucionárias, como o futuro general Euclides de Figueiredo; com
comunistas, como Silo Meireles, Agildo Barata e o próprio Luís Carlos Prestes
– reintegrado post-mortem; e até com o primeiro líder e presidente da ARENA,
Filinto Müller.
Quando “Veja” diz
que Lamarca “desertou”, “traiu seus companheiros de farda”, “roubou armas e
munição do quartel onde servia”, “matou inocentes a sangue-frio”, está apenas
repetindo o que os lacaios de todas as tiranias, os vigaristas e os
pervertidos políticos já disseram de Juarez, Cordeiro e outros brasileiros.
Era tão verdade em relação a eles quanto é em relação a Carlos Lamarca.
Em 1964 houve no
Brasil um golpe de Estado. As instituições – a Constituição, o Congresso, a
Justiça, as entidades representativas – foram todas atingidas. Instalou-se uma
ditadura e uma política de favorecimento ao capital externo, especialmente
norte-americano. Diante dessa situação, houve aqueles que se levantaram contra
ela, e aqueles que tentaram modificá-la por dentro do regime. Lamarca,
evidentemente, fez parte da primeira vertente. Personalidades como o general
Andrada Serpa ou o futuro presidente Geisel, fizeram parte da segunda. Essas
duas vertentes, existentes tanto entre os militares quanto entre os civis, ao
fim e ao cabo, confluíram - e isso foi o fim da ditadura.
O que permitiu essa
confluência foi que ambas as vertentes tinham em comum o patriotismo, o
nacionalismo. Portanto, quando a revista dos Civita e do apartheid acusa
Lamarca de estar “a soldo de uma potência estrangeira”, adentramos no terreno
bucéfalo da aberração. É desnecessário mostrar o contrário, até porque todo
mundo sabe que isso é uma idiotice: Lamarca era um homem. Um cidadão de mente
livre, de coragem inaudita, disposto a viver e a morrer pelo seu país e pelo
povo que amava, o que provou, tanto na vida, quanto na morte.
A Abril, que publica
“Veja”, é uma criação do Departamento de Estado e dos monopólios de mídia dos
EUA, para burlar a legislação brasileira que proibia a estrangeiros a
propriedade de veículos de informação. Um dia apareceu por aqui um certo
Victor Civita, ítalo-americano residente em Nova Iorque, com o passaporte
carimbado em Washington. Ao mesmo tempo, aportava em Buenos Aires um certo
César Civita, nas mesmíssimas condições, com os mesmíssimos contratos com
empresas americanas, para editar as mesmas revistas. Um naturalizou-se
brasileiro; o outro, argentino. E assim os monopólios de mídia ianques
infiltraram-se no Brasil e na Argentina.
Porém, “Veja” nunca
fez nenhuma dessas acusações durante a ditadura, nem quando Lamarca morreu e
foi capa da revista. Naquela época, seu editor era Mino Carta. Agora, não há
editor. Há apenas o Bob Civita cuspindo bobagem em cima dos criados. O que
mostra o nível de decadência a que “Veja” chegou. Como seria de esperar, ela
repete a propaganda da Operação Bandeirantes sobre a guerrilha do Vale da
Ribeira. Em especial, no que se refere à execução do tenente PM Alberto Mendes
Júnior.
A dramática execução
do tenente foi fruto de uma situação-limite, das que lamentavelmente ocorrem
em situação de guerra. Ou Lamarca tomava a decisão de matar o tenente ou todo
o seu grupo de combate, que se encontrava sob cerco, cairia dizimado. O
tenente, que se rendera após uma escaramuça, e concordara em seguir com o
grupo como prisioneiro, insistiu e reincidiu em sinalizar a posição dos
guerrilheiros à tropa que os cercava. O capitão teve que executá-lo a
coronhadas, porque nem sequer um tiro podia ser disparado naquela situação.
Não mandou ninguém fazer. Fez ele próprio, assumindo integral responsabilidade
sobre o ato. Se, de fato, houvesse alternativa menos drástica e mais humana,
ele certamente haveria optado por ela.
Mas não havia. E
nenhum militar do Exército brasileiro jamais afirmou, seriamente, que
houvesse, ou que ele, em situação semelhante, preferisse perder a tropa do que
tirar a vida de um adversário.
TORTURA
A matéria de “Veja”
é, além do mais, uma ode à tortura. Assim, diz que é um “absurdo” (sic) um
cidadão ser indenizado porque sua mãe, grávida dele, foi obrigada a ouvir os
gritos do marido, que estava sendo torturado no DOI-CODI do Rio. Afinal, por
que alguém seria afetado apenas porque sua mãe, grávida de sete meses, foi
obrigada a presenciar a tortura do pai? Como poderia uma coisa tão normal
prejudicar o filho que ela trazia no ventre? Para a “Veja”, os fetos – isto é,
os filhos – não são prejudicados pela tortura das mães - e dos pais. Logo, a
tortura deve ser, provavelmente, até benéfica para os filhos, sobretudo os que
estavam na barriga da mãe enquanto ela era submetida a uma indignidade tão
desumana. “Veja” omite que o marido – e pai - torturado era o compositor
Geraldo Azevedo, bom caráter notório, preso e torturado duas vezes apenas por
fazer parte do grupo musical de Geraldo Vandré, com quem havia composto
“Canção da Despedida”. Omite que a mãe, em depressão, não conseguiu nem
amamentar a criança. E omite os laudos médico-psicológicos que mostraram os
danos ao filho.
Quanto a Lamarca,
seu objetivo não era “implantar no Brasil uma ditadura comunista”. Nós aqui
sabemos, melhor que ninguém, quais eram os seus objetivos. A propósito,
“Veja”, que na semana passada se aventurou no marxismo, ainda não aprendeu que
não existe “ditadura comunista”, porque no comunismo não existirá Estado.
Quanto ao socialismo, não havia nenhuma organização, na luta contra a
ditadura, que propusesse a transformação imediata do Brasil em país
socialista. Todas, mesmo as que tinham uma “estratégia socialista”, propunham
alguma fase intermediária, seja lá o nome pelo qual a designavam. Ou seja, o
objetivo era a democracia ainda em marcos anteriores ao socialismo. E foi o
que conquistamos, com a derrubada da ditadura. Pode ser que o regime
resultante agrade a uns e desagrade a outros. Mas o fato é que não há ninguém
são que ache a ditadura melhor do que o regime atual. A luta de Lamarca foi
vitoriosa. O objetivo pelo qual combateu foi alcançado.
CARLOS LOPES