Serra presenteia grileiros do Pontal com as terras da
reforma agrária
Governador de São
Paulo quer entregar 300 mil hectares de
terras públicas a somente 200 latifundiários, legalizando a posse de áreas do
Estado que deveriam ser socializadas na
conflituosa região
O governador José Serra (PSDB) enviou à Assembléia Legislativa de São Paulo um projeto de lei
presenteando os grileiros do Pontal do Paranapanema com terras devolutas, que
deveriam ser utilizadas para fim de reforma agrária na conflituosa região. O
projeto de Serra prevê a “regularização” de 200 fazendas, numa área total de
300 mil hectares, legitimando a posse para quem usurpou o patrimônio alheio.
Com o objetivo de barrar a
criminosa usurpação, que legitima a grilagem de terra em todas as propriedades
fundiárias com mais de 500 hectares, uma onda de ocupações se alastrou pelas
fazendas da região desde a quarta-feira passada. O movimento é organizado pelo
MST (Movimento dos Sem Terra), Movimento dos Agricultores Sem-Terra (MAST),
Movimento do Trabalhador Rural e Sem-Terra do Brasil (Mtrsb), Associação Rural
dos Sem-Terra (ATST) e a União dos Sem-Terra (Uniterra), que exigem urgência
para a retirada do projeto da Assembléia. A operação de resistência ao assalto
às terras devolutas foi chamada de “Operação São João” ou “Inverno Quente”, e
unifica o conjunto dos movimentos sociais, que têm o apoio da CUT (Central
Única dos Trabalhadores) e da CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil)
na luta por justiça no campo.
Localizado no extremo
oeste de São Paulo, o Portal é marcado por anos de confrontos contra o
latifúndio improdutivo e pela posse da terra, em conflagrações que trouxeram
ao conhecimento da sociedade a gravidade da questão agrária no estado mais
rico do país. Recentemente, em fevereiro, houve a ocupação de 24 fazendas no
chamado “Carnaval da ocupação de terra”. “Foi o carnaval da ocupação de terras
improdutivas e de terras devolutas, que pertencem ao governo e estão ocupadas
ilegalmente”, afirmou José Rainha Jr, um dos líderes do MST, lembrando que
“com a unificação dos movimentos sociais que atuam no campo, a mobilização
ganha força para fazer a reforma agrária acontecer de fato”.
Reunidas no dia 20, em
Presidente Venceslau, as lideranças da luta pela terra debateram estratégias
para evitar que o governador José Serra consiga consumar o seu projeto,
mobilizando a sociedade e o parlamento paulista para resistir ao projeto.
Conforme a proposta
apresentada pelo governador tucano, propriedades que compreendem entre
quinhentos e mil hectares - e que encontram-se em litígio, mas que são terras
devolutas, portanto deveriam ser utilizadas para a reforma agrária - não mais
serão socializadas, mas apropriadas legalmente pelos grileiros. Assim, apenas
15% das áreas retornariam ao executivo em troca da regularização dos restantes
85%. Nas propriedades entre mil e dois mil hectares, a “concessão” - isto é, a
devolução ao Estado do que não lhes pertence - deverá ser de 20%, e nas
propriedades acima de dois mil hectares, 25%, ficando os latifundiários com
80% e 75% de suas áreas originais regularizadas pelo Estado, respectivamente.
Um Robin Hood às avessas.
Segundo Lino Macedo,
presidente nacional do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (MAST) e da
diretoria executiva da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB),
“todos os movimentos são contra este Projeto de Lei. Nós estamos montando uma
pauta que será enviada aos órgãos competentes, como a Secretaria da Justiça, o
Ipesp (Instituto de Previdência do Estado de São Paulo) e o governo do
estado”. “Este é um projeto inaceitável, pois acabaria com a possibilidade da
reforma agrária aqui no Pontal”, acrescentou.
No mesmo dia ocorreu uma
reunião com a comissão de seleção para o assentamento de famílias do MAST, em
Presidente Venceslau. Os assentamentos têm prazo de 30 dias para serem
concluídos, mas das 1.000 famílias acampadas, somente 35 foram assentadas.
Em palestra no último
sábado, Serra estampou a essência do seu projeto pró-latifúndio improdutivo:
“a reforma agrária bem-feita envolve um componente econômico insuportável.
Desapropriação, crédito para o agricultor, educação, habitação, estradas e
assistências. É impossível pelo seu custo”.
ADEMAR COQUEIRO