“Brasil deve adotar mecanismos para proteger etanol da desnacionalização”
Em seu artigo, “O etanol e a invasão estrangeira”,
Altamiro Borges, denuncia que “etanol é motivo de gula” de “multinacionais e
especuladores” e, entre outros exemplos, cita a participação do especulador
George Soros na aquisição da Usina Monte Alegre
ALTAMIRO BORGES*
A revista
empresarial Exame, no seu anuário dos agronegócios publicado neste mês,
confirma: o capital estrangeiro está invadindo as terras brasileiras. O etanol
é o motivo desta gula. Apresentado como fonte alternativa de energia, num
mundo em que o combustível fóssil, o petróleo, dá sinais de fadiga e agrava
perigosamente o aquecimento global, este derivado do álcool é a nova
coqueluche das multinacionais e dos especuladores. Já o Brasil, por suas
enormes vantagens comparativas – abundância e qualidade das terras, preço
relativamente baixo das propriedades, mão-de-obra barata e capacidade
tecnológica – surge como uma “janela de oportunidades”, para citar um termo da
moda, para os saqueadores capitalistas.
“Num ritmo febril,
têm sido anunciadas quase a cada semana novas parcerias, operações de compra e
organização de fundos de investimento destinados a colocar dinheiro na
produção de álcool no país. De acordo com a consultoria Datagro, os
estrangeiros investiram 2,2 bilhões de dólares no setor desde 2000”, festeja a
revista. “Da lista das dez maiores empresas do setor no Brasil, quatro já
possuem participação de capital estrangeiro: Cosan, Bonfim, LDC Bioenergia e
Guarani. Uma quinta companhia, a Santa Elisa, fez recentemente parceria com a
americana Global Foods para constituir a Companhia Nacional de Açúcar e
Álcool, cujo plano é investir R$ 2 bilhões na construção de quatro usinas em
Goiás e Minas Gerais”.
“LÍDER DO MERCADO MUNDIAL”
Ainda segundo a
revista empresarial, “é fácil entender o motivo de tanto interesse de grupos
estrangeiros. Maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o Brasil disputa a
liderança do mercado de etanol com os EUA, que faz álcool combustível do
milho. A meta dos americanos, reafirmada pelo presidente George W. Bush
durante recente visita ao Brasil, é reduzir o consumo de combustíveis fósseis
em 20% até 2017. Isso significa que, nos próximos dez anos, somente nos
Estados Unidos a demanda por etanol pode atingir 132 bilhões de litros por
ano. É mais de três vezes a atual produção mundial de etanol”.
Da produção mundial
de 40 bilhões de litros, o Brasil é responsável por uma fatia de cerca de 16
bilhões, mas tem reais possibilidades de aumentar a sua participação. O país é
de longe o fabricante mais eficiente, com um custo de produção de US$ 0,22 por
litro de etanol, diante de 0,30 dos EUA e de 0,53 da União Européia. Além
disso, comemora a revista, “tem área suficiente para multiplicar as plantações
e atender o esperado aumento da demanda. Segundo a Datagro, a quantidade de
cana moída no país deverá aumentar de 473 milhões de toneladas na próxima
safra para 700 milhões em 2014. Isso vai exigir investimentos em 114 novas
usinas – hoje o Brasil tem 357 unidades em operação e outras 43 em
construção”.
A GULA DOS ESPECTADORES
Como um típico
folheto publicitário, a revista da Editora Abril enaltece os especula-dores
que descobriram este filão. “O melhor exemplo é o megainvestidor húngaro
George Soros, dono de uma fortuna estimada em US$ 8,5 bilhões. Ele se tornou
um dos sócios da Adecoagro, que comprou a Usina Monte Alegre, em Minas Gerais,
e está construindo uma nova usina em Mato Grosso do Sul... Outro investidor
que decidiu apostar no etanol brasileiro é o bilionário indiano Vinod Khosla,
um capitalista de risco que fez fortuna nos EUA com suas tacadas certeiras
[inclusive bancando o Google]... Khosla é sócio da Brazil Renewable Energy
Company (Brenco), empresa lançada em março por Henri Phillipe Reichstul,
ex-presidente da Petrobras”. Outro sócio da Brenco é o australiano James
Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial.
Os especuladores,
num mundo dominado pela ditadura do capital financeiro, são os maiores
interessados nesta nova fonte de riqueza – e até se travestem, na maior
caradura, de ecologistas. Entre os fundos de investimentos que já abocanharam
terras brasileiras, a Exame cita a estadu-nidense Kidd&Company, que detém o
controle da usina Coopernavi e participa da empresa Infinity Bio-Energy em
conjunto com a corretora Merrill Lynch. A Infinity já é dona de quatro usinas
no país e, no ano passado, arrecadou US$ 300 milhões nos mercados financeiros
exclusivamente para investir no setor sucroalcooleiro nacional. “Não foi
difícil convencer os estrangeiros a investir no etanol do Brasil, pois eles já
tinham a percepção das vantagens comparativas do país”, explica Sérgio
Thompson Flores, principal executivo da Infinity.
SOROS, GATES E OUTROS “ECOLOGISTAS”
Já a poderosa
Cargill, com faturamento R$ 10,9 bilhões no país e forte domínio no setor dos
transgênicos, adquiriu em junho passado o controle acionário da Cevasa, no
interior paulista. Outro gigante da área, a Bunge, tentou abocanhar a Usina
Vale do Rosário, a terceira maior produtora de açúcar e álcool do país – mas
as negociações empacaram. Já o grupo Pacific Ethanol, que tem como sócio o
bilionário Bill Gates, dono da Microsoft, contratou a consultoria KPMG para
coordenar sua expansão no Brasil. “Há sete anos, eu tinha um único cliente em
operações de fusões e aquisições interessado no etanol brasileiro. Hoje, 80%
de minha carteira é formada por interessados nesse setor”, revela André
Castelo Branco, sócio da KPMG.
Mas não são apenas
as multinacionais estadunidenses que estão de olho nas terras brasileiras. Há
também fortes corporações européias e japonesas. Ainda segundo a revista
Exame, um “investidor de risco”, nome fantasia dado aos especuladores, é o
grupo francês Louis Dreyfus, que já controla as usinas Luciânia, em Minas
Gerais, e Cresciumal e São Carlos, no interior paulista, e que comprou, em
fevereiro último, quatro usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo. Já o
grupo Tereos, também de origem francesa, tem 6,3% de participação na Cosan,
47,5% da Franco Brasileira de Açúcar e 100% da Açúcar Guarani.
“TERRAS E MÃO-DE-OBRA BARATAS”
O anuário dos
agronegócios da revista Exame só corrobora outras informações que tem pipocado
na mídia. A mesma publicação já havia antecipado em abril passado “a nova onda
de investidores estrangeiros em terras brasileiras”. Dava conta que o
fazendeiro australiano Robert Newel tinha investido US$ 4,5 milhões na compra
de 11.350 hectares no município de Rosário, no oeste da Bahia, e que o
multibilionário fundo de pensão da Califórnia (EUA), o Calpers, era dono de
23 mil hectares de terras nos estados do Paraná e de Santa Catarina. “Além do
aceso a terra e mão-de-obra muito mais baratas, venho do continente mais seco
do mundo e posso dizer que Rosário é um verdadeiro paraíso para a
agricultura”, explicou Newel.
Segundo o artigo,
esta seria a segunda onda de investimentos externos no campo brasileiro. “No
primeiro movimento, ocorrido no início desta década, alguns fazendeiros,
sobretudo norte-americanos, começaram a investir no país, atraídos pelo baixo
custo da mão-de-obra e das propriedades. Um hectare de terra nos EUA chega a
custar mais do que o triplo... O novo fluxo de capital estrangeiro alimenta-se
de fenômenos mais recentes [como a produção de combustíveis renováveis]. Além
das vantagens naturais como o clima e abundância de água, o Brasil dispõe hoje
da maior área para incrementar a produção no campo. Estima-se que existam
cerca de 90 milhões de hectares ainda inexplorados e prontos para a atividade
agrícola”.
PROPAGANDA NA INTERNET
A tendência é que a
gula dos investidores estrangeiros aumente muito mais. A advogada Isabel
Franco, do escritório Demarest&Almeida que presta assessoria aos ricaços,
garante: “É dinheiro grosso chegando por ai”. Anderson Galvão, da consultoria
Céle-res, concorda: “Eles estão muito interessados e dinheiro é o que não
falta”. Sua empresa foi contratada por quatro fundos estrangeiros que já
dispõe de cerca de US$ 400 milhões para a aquisição de fazendas no Brasil.
Toda esta euforia decorre da “exuberância irracional” do sistema capitalista.
Enquanto o planeta padece na miséria, os rentistas já investiram nos primeiros
cinco meses do ano 2,18 trilhões de dólares (4,25 trilhões de reais) em
fusões e aquisições de empresas no mundo.
A produção de
etanol no Brasil se torna um negócio altamente lucrativo para estes capitais
especulativos, inclusive para os predatórios fundos private equity,
especializados na compra de propriedades. O boom é tão violento que já existem
sites na internet fazendo propaganda do agronegócios no país. Elas oferecem
pacotes de viagens para os interessados em visitar fazendas no país. O
endereço de um desses serviços, o da consultoria AgBra-zil, contém na primeira
página a mensagem: “Welcome to a world of opportunities” (bem-vindo a um mundo
de oportunidades). Segundo Plilip Warnken, dono da AgBrazil, sediada em
Columbia, no Missouri (EUA), “as oportunidades do agronegócio brasileiro
superam a imaginação”.
NEGÓCIOS DOS RICOS E FAMOSOS
Reportagem do
jornal O Globo, do início de junho, revela que o etanol “entrou na agenda de
negócios dos ricos e famosos”. Figurões do esporte, do mercado financeiro e
até ex-membros do governo já entraram em campo. Entre outros, ela cita dois
ex-presidentes do Banco Central na gestão de FHC, Gustavo Franco e Armínio
Fraga, e dois ex-ministros do governo Lula, Luis Fernando Furlan e Roberto
Rodrigues. Logo que deixou o Ministério da Agricultura, Rodrigues se uniu a
Jeb Bush, irmão do presidente dos EUA, ao presidente do Banco Interamericano
de Desenvolvimento, Alberto Moreno, e ao ex-primeiro-ministro do Japão,
Junichiro Koizumi, para montar uma consultoria com o objetivo de divulgar o
etanol pelo mundo.
A reportagem também
dá destaque ao ex-presidente da Petrobras, Henri Phillipe Reichstul, líder de
um megafundo de investimentos que teria US$ 2 bilhões destinados ao etanol.
Outra figura de peso é o todo-poderoso da Ambev, Jorge Paulo Lemann, segundo
homem mais rico do Brasil. Ainda circulam rumores de que Naji Nahas – símbolo
da especulação nacional – estuda projetos nesta área. “Este é o mercado do
futuro”, afirma o presidente da Ethanol Trading, Roberto Giannetti da Fonseca,
ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) no governo FHC.
O lucro fácil também já atraiu o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity,
que comprou recentemente cem mil hectares da terra no Pará.
EXPLOSÃO DO PREÇO DO HECTARE
Desde a criminosa
onda de privatizações do governo FHC, o país não assistia um volume tão grande
de investimentos estrangeiros diretos. Somente nos três primeiros meses de
2007, o Banco Central registrou o ingresso de US$ 6,5 bilhões – aumento de 66%
em relação ao mesmo período do ano passado. O maior responsável por este
aumento recorde foi o etanol. A gula por terras nativas é tanta que já se
observa uma violenta alta dos preços no campo. “Na corrida para não ficar de
fora desse mercado, quem quiser adquirir uma usina brasileira deve ser dispor
a pagar, hoje, mais que o dobro do valor médio registrado em 2005... Mesmo com
a disparada dos valores, não faltam interessados em abrir o cofre”, aconselha
a Exame.
Reportagem do
jornal O Globo do início de junho atesta que “o crescimento dos projetos
envolvendo o plantio de cana-de-açúcar e a produção do etanol fez explodirem
os preços das terras no país”. Em abril passado, o valor do hectare atingiu o
seu pico histórico. Na Zona da Mata de Alagoas, o preço subiu 84%; em
Araraquara, interior paulista, o hectare se valorizou em 70% e a cana já está
ocupando o espaço antes reservado aos grãos e as pastagens. “Há dois anos
atrás, só se falava em soja. Agora, a vedete é o etanol. Esta inflação está
estritamente ligada ao etanol”, confirma a engenheira agrônoma Jacqueline
Dettman. A cana já ocupa 3,4 milhões de hectares em São Paulo, o equivalente
a 52% do plantio do produto no país.
O REAL PERIGO DA DESNACIONALIZAÇÃO
Na sua obsessão
pelo crescimento, o governo Lula parece não medir as conseqüências da célere
invasão estrangeira. Há várias linhas de crédito, inclusive do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para bancar as poderosas
multinacionais e os barões do agronegócios nativos. Segundo o deputado Luis
Carlos Heinze (PP-RS), presidente da Subcomissão de Política Agrícola da
Câmara, há estudos para repassar verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT),
criado para subsidiar o seguro-desemprego e outros programas sociais, para
refinanciar as dividas dos produtores rurais – calculada em R$ 4 bilhões. O
objetivo seria exatamente o de alavancar a construção de usinas e a produção
do etanol.
Há um certo
consenso de que a produção de biocombustíveis é uma necessidade imperiosa na
atualidade. Diante dos sinais de fadiga do petróleo e dos efeitos destrutivos
deste combustível fóssil, até as entidades ambientalistas menos ortodoxas
concordam que é urgente investir em fontes alternativas de energia. Por outro
lado, o Brasil, por suas inúmeras vantagens comparativas, surge com todas as
condições de explorar de maneira sustentável esta nova matriz energética. Mas
as possibilidades do etanol não devem embriagar os setores mais críticos da
sociedade. Há muitos riscos neste campo. A atual febre do etanol indica que ou
Brasil adota mecanismos para proteger a sua economia ou o processo de
desnacionalização, concentração de terras e precarização do trabalho será
inevitável!
*Altamiro Borges
é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita
Garibaldi)