“Veja” desconversa sobre
insulto de Diego Mainardi à memória do herói Bacuri
Eduardo Collen Leite, que
passaria à História por seu apelido, Bacuri, foi martirizado aos 25 anos, em
São Paulo. Bacuri começou sua militância revolucionária muito jovem. Em agosto
de 1970, dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso no Rio de
Janeiro pelo famigerado delegado Fleury e seu grupo do Esquadrão da Morte.
Levado para uma residência particular, foi torturado barbaramente. O barulho
provocado por seus torturadores fez com que os vizinhos chamassem a polícia, o
que obrigou à mudança do local das torturas.
Durante 109 dias Bacuri foi
torturado por Fleury e seus comparsas do Esquadrão da Morte. Durante todo esse
tempo, recusou-se a prestar qualquer informação aos verdugos que os ajudassem
a sufocar a luta contra a ditadura.
No dia 25 de outubro de
1970, os órgãos de repressão divulgaram uma nota, comunicando a sua fuga. A
nota significava que pretendiam assassiná-lo. Na ocasião, Bacuri, preso no
DEOPS, já não tinha condições de se locomover. Tinha que ser carregado para as
sessões de tortura, tal como testemunharam mais de 50 presos políticos, também
prisioneiros no DEOPS. Em seguida, Bacuri foi separado dos demais presos e seu
nome foi excluído da lista de detidos no DEOPS. Na madrugada de 27 de outubro,
Bacuri foi retirado do DEOPS. Não foi mais visto. Segundo disse um policial
aos presos, foi levado ao sítio de Fleury.
No dia 8 de dezembro, os
órgãos de repressão divulgaram a sua morte num “tiroteio”. Seu corpo foi
entregue à família, com “hematomas, escoriações, cortes profundos,
queimaduras, dentes arrancados, orelhas decepadas e os olhos vazados”, como
testemunhou sua viúva, Denise Crispim.
Foi essa figura histórica e
heróica que Mainardi tentou usar em prol de seus propósitos.
“Veja” alega candidamente
que a comparação feita por seu colunista, ao proclamar-se o “Bacuri do
petismo”, apenas procurava mostrar que assim como a morte de Eduardo Leite foi
vazada antes de sua execução, a sentença que condenou Mainardi por calúnia foi
antecipada pela “Folha Online”.
Diz a “Veja”: “O artigo de
Mainardi contava que parte da imprensa, na ocasião com estreitas ligações com
o regime, soube com antecedência que Bacuri seria assassinado. Mainardi
comparava o caso a uma sentença que o punia antes mesmo de ser apresentada sua
defesa em uma disputa judicial com Franklin Martins, ministro da Secretaria de
Comunicação Social do governo federal (Secom) e ex-militante da organização,
da qual se desligou há 25 anos. O juiz Sergio Wajzenberg condenou-o, em
primeira instância, a indenizar o ministro em 30.000 reais. A sentença, porém,
havia sido antecipada por um jornalista da Folha Online”.
É mais uma de suas
imposturas. Basta comparar com o que diz Mainardi, na mesma coluna citada:
“Contaminado pelo espírito
benevolente do juiz Wajzenberg, prefiro acreditar que em nenhum momento ele
sentiu o peso de julgar um ministro, prefiro acreditar que ele nem considerou
a hipótese de favorecer um membro do governo para obter algum tipo de vantagem
em sua carreira, prefiro acreditar que ele conduziu meu processo com lisura,
prefiro acreditar que ninguém arrancou minhas orelhas e ninguém perfurou
meus olhos”.
Ou seja: Mainardi procurou
valer-se de modo desrespeitoso do sofrimento e sacrifício de um herói da luta
pela democracia, para acusar o juiz, o petismo e a “Folha Online” de haverem
se posto em conluio para cometer contra ele um ato torpe e covarde, como o que
vitimou Bacuri.
Foi só isso o que ele fez.