Carta ao companheiro Bruce
Em 1994, respondendo a
questões remetidas a ele por um comunista russo, Cláudio Campos, secretário
geral do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), que completaria 60 anos
no último dia 5, redigiu uma síntese sobre os problemas da construção do
socialismo, sobre o papel da consciência, da planificação e do mercado nesta
construção e, particularmente, sobre os aspectos cruciais do desenvolvimento
socialista na URSS e a violação de suas leis, com as inevitáveis
conseqüências, a partir da segunda metade dos anos 50.
É esse texto, até agora
inédito, que hoje publicamos. A “Carta ao Companheiro Bruce” é um documento
escrito no estilo cristalino que era característico de Cláudio, onde a força
dos argumentos, o encadeamento lógico, o profundo conhecimento teórico e a
erudição histórica se combinam harmoniosamente, sem que se perca jamais a
clareza, apesar da complexidade das questões abordadas.
Esta carta condensa e
consolida as conclusões de Cláudio, oferecidas ao público em seu livro “A
História Continua”, de 1992. Foi depois de ler a edição russa deste livro que
aquele companheiro enviou a Cláudio uma série de perguntas. Ao respondê-las,
Cláudio não apenas reafirma o que escrevera em “A História Continua”. Ele
aprofunda várias questões essenciais, em particular a questão das cooperativas
agrícolas (kolkhozes), na construção do socialismo na URSS. Em virtude desse
aprofundamento, ele chega a uma síntese mais radical e clara de todo um
conjunto de temas absolutamente imprescindíveis à luta dos povos e nações no
atual momento da História.
Em homenagem ao 60º
aniversário de Cláudio, divulgamos hoje a íntegra desta carta. C.L.
CLÁUDIO CAMPOS
Prezado companheiro Bruce: Peço-lhe desculpas pelo
atraso com que estou respondendo à sua carta. Estivemos travando uma queda de
braço com a direita aqui no Brasil, nos últimos meses, e foi-me impossível
responder antes. Agora a disputa chegou ao seu desfecho: a direita levou a
melhor do ponto de vista formal, aparente, mas do ponto de vista real, de
fundo, nós acumulamos mais do que ela. Foi uma parada muito dura, mas creio
que agora vamos trabalhar em melhores condições, menos tensas, durante algum
tempo. Isso apesar das contradições terem se aprofundado, e muito. Logo, logo,
as coisas vão esquentar.
Agradeço suas palavras a respeito dos textos que escrevi.
Foi com o pensamento voltado para os comunistas de todos os países, em
especial para os comunistas russos, a quem tanto devemos, que tratamos
daqueles temas. Muito nos estimula que você tenha visto neles uma contribuição
válida, útil.
Sobre assuntos correlatos aos dos artigos publicados aí
na URSS, os mais importantes foram esses. Mas, atendendo ao seu pedido, vamos
providenciar uma coletânea dos outros materiais que publicamos sobre o tema
aqui no Brasil, e lhe enviaremos o mais breve possível. Esses textos não foram
publicados de forma avulsa, e sim no HORA DO POVO, ao longo dos últimos 5
anos, e será preciso fazer um levantamento. Há também alguns materiais mais
antigos que acredito que lhe interessarão. É nossa intenção, ainda,
prepararmos, com base no que já foi feito, um texto mais sistemático sobre as
principais questões teóricas e históricas colocadas até aqui pela transição ao
socialismo e ao comunismo. Na verdade, esse é um projeto que temos já há
bastante tempo, para que ele sirva como um dos documentos básicos do nosso
Movimento. Seria uma exposição das conclusões a que chegamos no nosso Comitê
Central sobre o assunto. Nos últimos 20 anos, esse tem sido o principal tema
sobre o qual nos debruçamos, tendo em vista a importância dele para a luta
atual no Brasil e em todo o mundo. Mas, infelizmente, ainda não conseguimos
encontrar um tempo para preparar esse texto mais sistematizado. Temos a
esperança que a realização do nosso IV Congresso, este ano, nos obrigue a
fazê-lo... Mas não é impossível que acabemos tendo que nos contentar, por
enquanto, com algo mais limitado. Em todo caso, assim que ele estiver pronto,
também o remeteremos a você.
Trato agora da questão que você levanta em sua carta. Não
conheço o ensaio do acadêmico Voznezensky citado por você, nem o autor. No
caso concreto da afirmação dele que você transcreveu – “as mercadorias na
sociedade socialista não conhecem conflito entre seu valor e seu valor de uso”
– é difícil saber com certeza e exatidão do que ele estava falando, apenas a
partir da frase tomada isoladamente. Se se empregam os conceitos exatamente no
sentido marxista, e se se refere a uma sociedade plenamente socialista, ou à
“sociedade socialista” em geral, e não a uma determinada sociedade que não é
ainda plenamente socialista – refiro-me ao socialismo, à primeira fase do
comunismo, e não ao que se convencionou chamar de comunismo, isto é, a segunda
fase do comunismo – e aparentemente é a esta “sociedade socialista” em geral,
que já completou a transição ao socialismo, à primeira fase do comunismo, que
Voznezensky se refere, então a afirmação transcrita tem todos os erros de
princípio sobre a economia socialista que temos criticado. Numa sociedade que
já completou sua transição ao socialismo, à primeira fase do comunismo, que
pode com plena razão ser chamada de “sociedade socialista”, não tem sentido
falar em mercado e em valor, não existe mercado e não existe valor. Esta é uma
questão fundamental sobre a qual precisaremos insistir enquanto houver dúvidas
a respeito. Ela tem estado, como é fácil perceber – e não poderia mesmo ser
diferente – na base de todos os insucessos e retrocessos ocorridos e por
ocorrer na construção e desenvolvimento do socialismo. O mercado é uma relação
entre produtores isolados, separados uns dos outros. Não há como haver mercado
se não houver produtores independentes, separados uns dos outros. O socialismo
é uma sociedade de produtores coletivizados, que produzem num processo
verdadeiramente integrado, estabelecido e dirigido coletiva e conscientemente,
segundo um plano. É claro que a participação nessa direção coletiva é tanto
mais geral quanto mais se avança na transição da primeira à segunda fase do
comunismo, mas já não existem produtores isolados, “independentes”, numa
sociedade que completou a transição à primeira – insisto: à primeira – fase do
comunismo, ao socialismo. Logo, não há como haver mercado numa tal sociedade.
Como mencionei nos textos “Retomar o caminho do desenvolvimento socialista” e
“A fantasia reacionária do ‘socialismo de mercado’”, que você conhece, é
exatamente isso que Marx, na “Crítica ao Programa de Gotha”, e Engels, no
final do capítulo “Socialismo”, do “Anti-Duhring”, afirmam com todas as
letras, e é verdade. (Demonstramos também, no segundo texto acima mencionado,
que a pretensão ridícula de que Lenin tenha afirmado o contrário, em seus
magistrais textos sobre a cooperação, não passa de charlatanice barata. Ao
fazê-lo, não estabelecemos nenhum “argumento de autoridade”; pelo contrário,
desmascaramos um falso argumento de autoridade levantado pelos charlatões que
tentaram falsificar o pensamento de Lenin. Temos sustentado a posição marxista
sobre o assunto sobretudo a partir da sua lógica intrínseca e do absurdo e da
incoerência da tese revisionista, embora, é verdade, não dispensemos a
autoridade de quem tem e merece).
Há quem reconheça que não existe lugar para o mercado na
produção socialista, mas que na distribuição sim, existe mercado; que não há
como prescindir dele quando a sociedade entrega a cada trabalhador os bens de
consumo equivalentes ao seu trabalho, que essa é uma relação de mercado. Quem
pensa assim está perdendo de vista o que é o mercado, por um lado, e o que é a
distribuição socialista, por outro. O mercado é uma relação entre
proprietários distintos, separados, mesmo que um deles seja proprietário tão
somente da sua força de trabalho e do salário que recebe por ela. Já na
distribuição socialista os bens que a sociedade entrega a cada trabalhador,
segundo o seu trabalho, são propriedade originariamente coletiva, de toda a
sociedade, e portanto também do trabalhador que vai recebê-los, e não de um
proprietário isolado, separado, do que vai consumi-los. A distribuição
socialista é uma relação, portanto, que nada tem de mercantil.
Afirma-se ainda que o mercado (apesar de, como vimos,
impossível) é necessário no socialismo para aferir se a produção bate com o
que se quer consumir. Trata-se, aqui também, de uma confusão entre
distribuição socialista e mercado. Para que essa “aferição” seja feita não é
necessário mercado algum, basta que a distribuição socialista se complete, se
concretize satisfatoriamente. Se não se completar, é porque está havendo algum
erro na planificação. Mas o erro principal desta tese é não perceber que a
“aferição” entre produção e consumo é uma necessidade fundamental da economia
mercantil, e do capitalismo em particular, porque na economia mercantil cada
produtor isolado produz para o mercado, separado do consumidor, e não tem
garantia de que vai encontrar consumidor para o seu produto. Apenas no mercado
ele terá resposta para essa questão crucial... No socialismo a correspondência
entre produção e consumo não é feita apenas a posteriori e de forma imperfeita
pelo mercado, ela é estabelecida no próprio processo coletivo e consciente de
produção, na planificação da produção, quando se define produzir exatamente
aquilo que a sociedade tem a necessidade de consumir. Isto é, a
correspondência entre produção e consumo é estabelecida de forma direta,
consciente e planificada. (É possível que fosse esta idéia, lançando mão
entretanto de conceitos indevidos e incorretos, que Voznezenky estivesse
querendo afirmar. Volto à questão mais à frente). No socialismo, a
planificação deve ser crescentemente uma responsabilidade de todos, à medida
que vá crescendo a capacidade de todos de participar plenamente dela.
Afirma-se, sem embargo, que os planificadores podem errar, e não estabelecerem
corretamente a relação entre a produção e aquilo que os trabalhadores querem e
podem consumir. É verdade. No entanto, só existe uma solução progressista,
mais avançada, para esse erro: corrigi-lo. O que está perfeitamente dentro das
possibilidades e dos interesses dos planificadores e de todos os
trabalhadores, se são suficientemente conscientes, como devem ser numa
sociedade socialista. Argumentar com o retorno à regulação da economia pelo
mercado, para “corrigir” eventuais erros de boa ou má fé na planificação
socialista, é abdicar da economia superior, conscientemente regulada segundo o
interesse de todos, e argüir com o retorno ao passado, à barbárie, à economia
anárquica, inconsciente, geradora de crises – estas sim inevitáveis – de
concentração crescente da renda, dos monopólios, dos cartéis, do bloqueio à
disseminação do progresso e da tecnologia, do parasitismo, da miséria e da
marginalização crescente das amplas massas, da guerra, da destruição e da
morte. Há algum lugar do mundo em que esta absoluta verdade teórica não tenha
sido confirmada pela prática?
Há, finalmente, quem alegue que o mercado é necessário
para estabelecer mais facilmente quais são os novos produtos que atendem
melhor as preferências dos consumidores. Não há, entretanto, nada que o
mercado possa fazer nessa área que a distribuição socialista não possa fazer
muito melhor, pela mesma razão já exposta mais acima. Mas o principal erro
implícito nesta tese é o de que é o consumo que determina a produção, o
consumo que gera o produto. Na verdade é a produção que determina o consumo.
Os novos produtos são estabelecidos sobretudo a partir das novas
possibilidades da produção, da técnica, são essas novas possibilidades que
determinarão quais novos produtos poderão ser oferecidos aos consumidores.
Não é difícil detectar o sentido geral do que o homem considera ser o
desenvolvimento geral da sua comodidade, o melhor aproveitamento possível da
natureza no seu interesse. “Difícil” é atender a cada uma das múltiplas
expectativas desse desenvolvimento. São as novas descobertas, as novas
possibilidades da produção, que determinam, de forma concreta, quais dessas
vagas expectativas poderão ser atendidas primeiro, e quais terão que esperar.
Vejamos agora a questão do valor. Alguns companheiros têm
dificuldade de aceitar que não existe valor de troca, isto é, valor, no
socialismo, apesar da incisiva afirmação de Marx na “Crítica ao Programa de
Gotha”, e da tão brilhante exposição de Engels no “Anti-Duhring”, porque
confundem troca pelo valor com todo e qualquer intercâmbio econômico pelo
equivalente, isto é, acreditam que dizer que não existe valor no socialismo
significa dizer que os trabalhadores não receberão da sociedade o equivalente
ao que trabalharam, poderão receber mais ou menos do que trabalharam, o que
evidentemente seria um desestímulo à produção e ao desenvolvimento. Mas uma
coisa não tem nada a ver com a outra. Todos sabemos que o lema do socialismo é
“a cada um segundo o seu trabalho”, que a um trabalho maior ou de melhor
qualidade, mais produtivo, deve corresponder uma retribuição maior da
sociedade. Esse princípio tem vigência incomparavelmente maior no socialismo
do que no capitalismo... Uma fábrica que dissemina mais rapidamente as novas
técnicas, uma equipe de operários que trabalha com maior produtividade, um
grupo de cientistas que alcança mais rapidamente descobertas mais
significativas deve, com rigor maior do que ocorre em qualquer empresa ou
conglomerado capitalista, receber uma retribuição maior. Vemos portanto que as
cantilenas de que o socialismo obstruiria o progresso tecnológico porque
desconsideraria o incentivo material não passam de ladainhas baratas, sem
qualquer fundamento. Embora o incentivo material individual ou de grupos não
seja o principal fator impulsionador do desenvolvimento no socialismo, ele é
muito melhor atendido no socialismo do que no capitalismo. Apenas no
comunismo, na segunda fase da sociedade comunista, em que o trabalho se
liberta da dominação da necessidade, para se tornar ele próprio a “primeira
necessidade vital” do homem, é que a distribuição não precisará mais ser feita
segundo o trabalho de cada um, e poderá ser feita segundo as suas
necessidades.
Se o intercâmbio pelo equivalente em trabalho é mantido
na sociedade socialista, e mais do que mantido, é instaurado plenamente apenas
na sociedade socialista, do que falavam Marx, Engels e Lenin quando diziam que
o valor é uma categoria estranha ao socialismo? Eles afirmavam simplesmente, e
é verdade, que no socialismo “o trabalho invertido nos produtos não se
apresenta como valor desses produtos”, “como uma qualidade material por eles
possuída”; que no capitalismo o produtor isolado não tem como saber
diretamente “que parte do trabalho comum (da sociedade) constitui o seu
trabalho individual”, para poder proceder ao intercâmbio pelo equivalente, e
que, portanto, é obrigado a estabelecer isso “através de um rodeio”, através
do mercado, atribuindo um “valor”, “uma qualidade material por eles possuída”,
um fetiche, aos seus produtos. Na sociedade socialista, entretanto, o trabalho
individual de cada produtor faz parte diretamente do trabalho comum da
sociedade, através da produção integrada, planificada, e portanto ele pode
estabelecer também diretamente a que parte do trabalho comum da sociedade
corresponde o seu trabalho individual, ele não tem necessidade de um rodeio
para fazer isso, não tem necessidade do mercado, não precisa atribuir nenhum
fetiche, nenhuma qualidade material por eles possuída, nenhum “valor” aos seus
produtos. Através do plano de produção, é simples e direto determinar o tempo
necessário em média na sociedade para produzir o equivalente ao seu trabalho
individual, e assim determinar a retribuição que lhe cabe. Mas isso não toma a
forma de “valor”, de uma qualidade material possuída pela sua produção. É
simples e diretamente o seu trabalho, a sua contribuição à produção comum.
Como também disse Marx, na “Crítica ao Programa de Gotha”:
“A mesma quantidade de trabalho que deu à sociedade sob uma forma, recebe-a
desta sob uma forma diferente. Aqui impera, evidentemente, o mesmo princípio
que regula o intercâmbio de mercadorias, uma vez que este é um intercâmbio de
equivalentes. Variaram a forma e o conteúdo, porque sob as novas condições
ninguém pode dar senão o seu trabalho, e porque, de outra parte, agora nada
pode passar a ser propriedade do indivíduo, fora dos meios individuais de
consumo”.
Mesmo que já os conheça, recomendo a você, camarada Bruce,
consultar os textos já mencionados de Marx e, principalmente, o de Engels, que
é bem mais extenso e detalhado.
É evidente que a insistência em usar, referindo-se ao
socialismo em geral, ou a uma sociedade que completou a sua transição ao
socialismo, um conceito que não corresponde a essa sociedade, que corresponde
à sociedade mercantil e ao capitalismo, a insistência em chamar de “valor” a
quantidade de trabalho no socialismo, além de um erro teórico grave, expressa
a dificuldade ou a resistência a assumir o caráter coletivo, integrado,
consciente da economia socialista e o apego ao individualismo, o
particularismo, a inconsciência (alienação) e o fetichismo da economia
capitalista. Isto nada tem de surpreendente: nós desenvolvemos a consciência
comunista a partir das mil e uma névoas obscuras e tenebrosas da sociedade
burguesa, que sobrevivem, em parte, até muito depois da edificação do
socialismo. Mas, ou combatemos vigorosamente erros tão graves, tão
fundamentais, ou nos tornaremos incapazes de avançar e então inapelavelmente
retrocederemos, porque, como você sabe, a dialética nos ensina que, parado,
nada fica. Tudo está em movimento; ou vai pra frente, ou vai pra trás...
Muito bem. Se no socialismo não existe nem mercado, nem
valor, porque a sociedade soviética do tempo de Stalin podia dizer que era
socialista, e, ao mesmo tempo, coexistia com as categorias mercado e valor?
Como dissemos em “Retomar o caminho do desenvolvimento socialista”, Stalin, em
seu magistral “Problemas econômicos do socialismo na URSS”, já respondeu
satisfatoriamente a essa questão. Isso ocorria porque na sociedade soviética
da época, embora já predominassem amplamente as relações de produção do
socialismo, não se podia dizer que estas fossem plenamente socialistas.
(Certamente deve haver quem diga que “socialismo pleno” não existe, que o
único socialismo pleno que existe é o comunismo, mas semelhante tolice é
própria apenas de quem não entendeu coisa alguma do comunismo. O comunismo é
um modo de produção claramente definido, e tem duas fases também claramente
distintas uma da outra. Como você não ignora, os trotskystas e aparentados
fazem uma salada dos diabos entre as duas, porque na realidade não sabem nem o
que é socialismo nem o que é comunismo). As relações de produção na URSS, à
época de Stalin, ainda não eram plenamente socialistas porque nem toda
produção pertencia a todo o povo, nem todos os meios de produção pertenciam a
todo o povo, nem toda a produção estava integrada diretamente numa mesma
produção comum, de todo o povo. Os principais meios de produção dos kolkoses,
mas não todos os meios de produção dos kolkoses, e nem os próprios kolkoses
pertenciam a todo o povo soviético. Os kolkoses pertenciam aos kolkosianos, e
a sua produção, uma vez atendidos os encargos que tinham com o Estado, com a
coletividade organizada, pertencia aos kolkosianos. Isso significa que nem
toda a produção era comum, que existiam ainda produtores independentes que
demandavam a existência de um mercado no qual realizar a sua produção. E, se
há mercado, há valor. No entanto, Stalin advertia que se os kolkoses haviam
cumprido um papel fundamental na edificação do socialismo na URSS, se ainda
então eles cumpriam um papel positivo, no entanto ao mesmo tempo começavam a
prejudicar a planificação socialista, começavam a entravar o desenvolvimento
das forças produtivas na URSS, e teriam de ser elevados, a médio prazo, à
propriedade de todo o povo e integrados à produção comum. Stalin indicou
caminhos para proceder essa elevação dos kolkoses à propriedade de todo o
povo. Quando isso ocorresse, então sim se poderia dizer que a sociedade
soviética havia completado inteiramente a transição para o socialismo,
atingido plenamente o socialismo, e iniciado a evolução para a segunda fase do
comunismo, para o comunismo propriamente dito. É importante lembrar que os
kolkoses, as cooperativas, constituem uma fase indispensável na edificação
socialista oriunda da pequena produção, onde é necessário promover o
agrupamento dos pequenos produtores independentes. Em um país capitalista
baseado na grande produção, as cooperativas cumprem um papel secundário, e a
transição plena para as relações de produção socialistas, em que não existem
nem mercado nem valor, pode ser cumprida muito mais direta e rapidamente.
Resta dizer que uma sociedade com uma estrutura social plenamente socialista,
mas que coexistisse internacionalmente com sociedades ainda capitalistas, para
manter com elas intercâmbio econômico, teria evidentemente que fazê-lo também
no plano das relações mercantis e do valor. Mas isso apenas em suas relações
externas, e por motivos inteiramente alheios à sua própria estrutura social.
As relações mercantis com o exterior decorreriam, aqui, exclusivamente da
estrutura social mais atrasada dos países capitalistas com que quisesse
intercambiar.
Tudo o que disse até aqui, camarada Bruce, é para apoiar
a correta tese de Marx, Engels e Lênin, sustentada por todos os marxistas
dignos desse nome, de que o mercado e o valor são categorias estranhas ao
socialismo, de que não existe mercado nem valor numa sociedade plenamente
socialista, e que se a afirmação de Voznezensky, citada por você, se refere a
uma sociedade desse tipo, ou ao socialismo em geral, como quase seguramente é
o caso, ela incorre, por esse motivo, em grave erro de princípio. No entanto,
como afirmei mais acima, é possível que, mesmo incorrendo em tais e cabeludos
erros, Voznezensky estivesse querendo, na afirmação citada, sustentar uma
idéia correta: a de que no socialismo – no socialismo verdadeiro, é lógico –
não existe conflito entre produção e consumo; entre o trabalho realizado, o
produto (e não o “valor”) e o valor de uso (conceito, como você sabe,
completamente distinto de “valor” e que continua existindo no socialismo).
Marx mostra que, no capitalismo, o valor de troca, isto é, o “valor”, é o
objetivo perseguido pelo produtor, que este não está diretamente interessado
no valor de uso dos bens que produz. Por outro lado, o interesse do consumidor
é pelo valor de uso dos produtos. É essa contradição que permite a dissintonia
entre produção e consumo, as crises. O produtor mercantil não tem nenhuma
garantia segura de que vá encontrar consumo para a sua produção. Já no
socialismo a produção é calculada em função das necessidades sociais, e, se as
leis econômicas do socialismo e os princípios da planificação socialista são
atendidos, é possível reduzir ao mínimo aquela dissintonia. Esperemos que o
camarada Voznezensky não estivesse pretendendo dizer que no socialismo não
existe nenhuma possibilidade de conflito entre produção e consumo, mesmo que
os organizadores não observem as leis econômicas do socialismo e a ciência da
planificação. Essa seria uma “tese” absurda, mas seria um absurdo bem ao gosto
dos revisionistas e do seu espontaneísmo, do seu “automatismo”, quando
pretendiam que o socialismo lhes oferecesse garantia de êxito mesmo que eles
desrespeitassem todos e cada um dos seus princípios e de suas leis econômicas.
Um tal “socialismo” ainda não foi inventado... Infelizmente é preciso checar
essa hipótese, pois nos “Problemas econômicos...”, Stalin combate alguns
luminares da época que cometiam absurdos de semelhante calibre.
No entanto, camarada Bruce, estou convicto de que não há
porque nos surpreendermos, nos desestimularmos, hoje, com todos os erros
cabeludos dos acadêmicos daquela época, com toda a formidável confusão de
princípios que o socialismo, o movimento comunista mergulhou cada vez mais a
partir da morte de Stalin. A verdade, camarada, é que o socialismo é algo
profundamente novo do ponto de vista histórico. Apesar de, no nosso ponto de
vista, ele já ter chegado muito perto de virar o jogo e se transformar no pólo
principal, dominante, a nível internacional, o socialismo é, na verdade, uma
plantinha ainda muito tenra em termos históricos. E, apesar disso, quase virou
o jogo! Êta bebê endiabrado, sô! O primeiro grande ascenso mundial da luta
pelo socialismo, a nosso ver, vai até o início da década de 50. Depois nós
começamos a levar pau, começou uma fase mundial de descenso. O que continuou
em ascenso, por mais algum tempo, foi a luta de libertação nacional. Mas a
revolução e o desenvolvimento das relações de produção socialista não,
passamos a recuar. Mas para mim, o mais impressionante de tudo é que já nessa
primeira grande vaga mundial do socialismo quase tenhamos virado o jogo, assim
de primeira! E veja: como é natural, para um sistema social radicalmente novo
e profundamente diferente de todos os anteriores, todas estas questões
fundamentais que estamos discutindo, essenciais para a edificação e o
desenvolvimento do socialismo, eram muito pouco dominadas, pouquíssimo
conhecidas. Repare: quando Lenin morreu, todos os demais dirigentes da sua
época, com exceção de Stalin e dos que o seguiram, perderam o rumo, passaram a
sustentar os maiores absurdos. Então, na verdade só mesmo Stalin, naquela
época, estava dominando as questões fundamentais. E note que mesmo Stalin, no
seu mais avançado e último trabalho teórico mais importante, que é o
“Problemas econômicos do socialismo na URSS”, só chega a uma exposição mais
clara sobre a relação entre o mercado e o socialismo na segunda metade da obra
(!), nas abordagens iniciais essa questão não fica inteiramente nítida. Quando
Stalin morreu, então, foi aquela confusão danada, ninguém mais conseguiu
sustentar essas questões basilares da edificação e do desenvolvimento
socialista. As próprias leis econômicas do socialismo, somente Stalin chegou a
sistematizá-las, e nesse texto, no final da vida. Até então, ninguém ainda as
havia posto no papel! O que tudo isso demonstra? Que o socialismo é um sistema
social consciente, que, ao contrário dos anteriores, só se desenvolve
conscientemente, que a ciência do desenvolvimento socialista não nasceu
pronta, que foi preciso desenvolvê-la, que, até essa época, foram realmente
muito poucos os que dominaram essa ciência, mesmo em suas questões mais
essenciais. Estou convicto, camarada, que contam-se nos dedos os que
efetivamente dominaram essas questões! E, no entanto, essa é uma coisa
absolutamente natural, significa que a consciência verdadeiramente comunista
somente começou a “pipocar” na Humanidade, que foi isso o que foi possível
alcançar, atingir, até então, que por mais que esses poucos tenham se
esforçado – e se esforçaram muito! – para passar aos demais o que sabiam, o
que haviam podido apreender da experiência anterior, da prática e da discussão
teórica, não haviam se desenvolvido ainda condições objetivas e subjetivas no
mundo, na Humanidade, para que esses conhecimentos mais profundos, mais
essenciais, se generalizassem. O que se sabia, de forma mais generalizada,
permitia que se começasse, mas não que se fosse até o fim. E, apesar de serem
tão poucos os que efetivamente dominavam as questões mais essenciais do
socialismo, este quase virou o jogo, no seu primeiro grande ascenso, na sua
primeira grande vaga mundial! Não é impressionante? Veja: agora não serão mais
apenas uns poucos, serão milhares, serão milhões, muito rapidamente, os que
dominarão essas questões essenciais. Nós, eu, você e muitos outros, que
começamos a dominar tais questões, não somos militantes muito diferentes de
milhares de outros que existem pelo mundo afora. Realmente, não somos. Então,
muito em breve serão muitos milhares os que estarão dominando esses pontos
essenciais. Atrás desses milhares virão milhões. Por outro lado, as condições
objetivas para o socialismo estão incomparavelmente mais maduras hoje do que
há 40 anos atrás; o imperialismo, o capitalismo monopolista está
incomparavelmente mais apodrecido, mais prenhe de revolução. Não é difícil
perceber que o descenso, que a maré contra-revolucionária mundial, que chegou
ao seu apogeu com a contra-revolução no Leste Europeu, está agora caminhando
para o seu esgotamento, para o seu fim, que um novo ascenso está em gestação.
Um ascenso, por tudo o que dissemos, muito mais poderoso, muito mais
avassalador, muito mais consciente! Precisa só ter calma, firmeza e
serenidade, aumentarmos a nossa consciência, cumprir bem o nosso papel de
vanguarda. Agora, resistir, depois, avançar e vencer! Tudo isso, camarada
Bruce, é apenas para externar nossa convicção de que não há porque deixarmos,
como diria Stalin, que nossos reveses e limitações passadas nos subam à
cabeça... Sei que você sabe disso, mas creio que é uma idéia que nós todos
precisamos ter bem presente.
Um abraço,
Cláudio
SP, 4.11.94