Altamiro Borges: “Racistas controlam a revista Veja”
O grupo sul-africano Naspers,
que entrou para o controle da Veja há um ano, foi porta-voz do Apartheid
durante toda sua existência. De seus quadros saíram D.F. Malan, que tornou lei
a segregação racial e mais dois chefes do Estado pária: H.F. Verwoerd e P.
Botha
Em matéria intitulada “Racistas
controlam a revista Veja”, o jornalista Altamiro Borges denunciou que o grupo
Naspers, que foi o porta-voz do regime do Apartheid na África do Sul e de
cujos quadros vieram os três primeiros-ministros do regime segregacionista,
comprou 30% do controle acionário da Editora Abril, cuja principal publicação
é a Veja. Altamiro é membro do Comitê Central do PCdoB e editor da revista
Debate Sindical. Seu artigo foi publicado inicialmente no site
www.vermelho.org.br.
A manipulação racista da Veja
foi exposta por ele. Às vésperas das eleições presidenciais desse ano, a
revista Veja – registrou Altamiro – “estampou na capa a foto de uma mulher
negra, título de eleitor na mão e a manchete espalhafatosa: ‘Ela pode decidir
a eleição’. A chamada de capa ainda trazia a maldosa descrição: ‘Nordestina,
27 anos, educação média, R$ 450 por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor
que será o fiel da balança em outubro’. O intuito evidente “era o de estimular
o preconceito de classe contra o presidente Lula, franco favorito nas
pesquisas eleitorais entre a população mais carente”. Como o jornalista
assinalou, “a edição não destoava de tantas outras”, nas quais a Veja tem
assumido “abertamente o papel de palanque da oposição de direita e destila
veneno de nítido conteúdo fascistóide”.
Foi o escritor e editor especial
da revista “Caros Amigos”, Renato Pompeu, quem trouxe novos elementos sobre a
linha editorial racista dessa revista, no artigo “A Abril e o apartheid”,
publicado em agosto de 2006. “O grupo de mídia sul-africano Naspers adquiriu
30% do capital acionário da Editora Abril, que detém 54% do mercado brasileiro
de revistas e 58% das rendas de anúncios em revistas no país. Para tanto,
pagou 422 milhões de dólares”. Como assinalou Pompeu – e destacou Altamiro – a
notícia havia sido publicada nos principais órgãos da mídia, mas não havia
sido dada “a devida atenção ao fato de a Naspers ter sido um dos esteios do
regime do apartheid na África do Sul”.
A Naspers – Nasionale Pers
(Imprensa Nacional) –, criada em 1915, esteve “durante décadas estreitamente
vinculada ao Partido Nacional, a organização partidária das elites africâneres
que legalizou o detestável e criminoso regime do apartheid no pós-Segunda
Guerra Mundial”, afirmou Pompeu. Seu papel no regime segregacionistas foi de
tal monta que, como relatou o escritor, dos seus quadros “saíram os três
primeiros-ministros do apartheid”. O diretor do seu principal jornal, o Die
Burger, D.F. Malan, tornou-se o chefe do governo, de 1948 a 1954, que tornou
lei a segregação racial. “Já os líderes do Partido Nacional H.F. Verwoerd e
P.W. Botha participaram do Conselho de Administração da Naspers”.
No governo de Verwoerd, iniciado
em 1958, ocorreram o massacre de Sharpeville, a proibição do Congresso
Nacional Africano (hoje no poder) e a condenação de Nelson Mandela. Já P. W.
Botha sustentou o apartheid a ferro e fogo, como primeiro-ministro, de 1978 a
1984, e depois foi presidente até 1989. Invadiu Angola e desenvolveu a bomba
atômica em colaboração com Israel. Acabou forçado a libertar Mandela e a
negociar a passagem do poder ao CNA, após uma renhida luta de libertação e do
bloqueio internacional ao apartheid.
A Naspers jamais se retratou de
seus crimes contra o povo sul-africano. O máximo a que se concedeu foi liberar
em setembro de 1997 um pedido de desculpas feito por 127 jornalistas e
ex-jornalistas da Naspers, e endereçado à Comissão da Verdade e da
Reconciliação encabeçada pelo arcebispo Desmond Tutu. Aliás 127 pedidos
individuais. Conforme a Associação Sul-Africana de Imprensa, esses jornalistas
“disseram que estavam apresentando suas declarações como indivíduos e não em
nome da Naspers ou de qualquer uma de suas publicações”.
O negócio entre os Civita e a
Naspers, foi a seguir esquadrinhado por Altamiro Borges. Em 31 de dezembro de
2005 a Editora Abril “tinha uma dívida líquida de aproximadamente US$ 500
milhões, com a família Civita detendo 86,2% das ações e o grupo estadunidense
Capital International, 13,8%”. Todas as ações da Capital foram compradas pela
Naspers por US$ 177 milhões; mais US$ 86 milhões em ações da família Civita e
outros US$ 159 milhões em papéis lançados pela Abril. “Com isso, a Naspers
ficou com 30% do capital”. A maior parte do dinheiro foi para as dívidas.
Mas, como assinalou o
jornalista, tais “relações alienígenas da revista Veja não são recentes nem se
dão apenas com os racistas da África do Sul”. Datam de 1995 os vínculos “com a
Cisneros Group, holding controlada por Gustavo Cisneros, um dos principais
mentores do frustrado golpe midiático contra o presidente Hugo Chávez, em
abril de 2002”, segundo Gustavo Barreto, pesquisador da UFRJ. A Editora Abril
possui ainda relações com “o Banco Safra e o norte-americano JP Morgan”, que
são “detentores das debêntures (títulos da dívida) da Editora Abril e de seu
principal produto jornalístico. Em suma, responsáveis pela reestruturação da
editora que publica a revista com linha editorial fortemente pró-mercado e
anti-movimentos sociais”.
Altamiro também destacou a
função da Veja como “ninho de tucanos”. Emílio Carazzai, por exemplo, hoje
vice-presidente de Finanças do Grupo Abril, “foi presidente da Caixa Econômica
Federal no governo FHC”. Outra “tucana influente” é Claudia Costin, ministra
de FHC responsável pela demissão de servidores públicos, ex-secretária de
Cultura no governo de Geraldo Alckmin e atual vice-presidente da Fundação
Victor Civita. Altamiro também denunciou que a Abril doou nas eleições de 2002
R$ 50,7 mil a dois candidatos do PSDB”. O “vestal da ética”, deputado federal
Alberto Goldman, recebeu R$ 34,9 mil, e o deputado Aloysio Nunes, ex-ministro
de FHC, foi contemplado com R$ 15,8 mil. A empresa dos Civita “também
depositou R$ 303 mil na conta da DNA Propaganda”, de Marcos Valério, “que
inaugurou um ilícito esquema de financiamento eleitoral para Eduardo Azeredo,
ex-presidente do PSDB”. “Estes e outros “segre-dinhos” da Editora Abril ajudam
a entender a linha editorial racista da revista Veja e a sua postura de
opositora radical do governo Lula”, concluiu.
A.P.