Anatel abre setor estratégico aos monopólios estrangeiros
Com aval dado à Telefônica, teles privatizadas
passariam a dominar programação, distribuição e conteúdo da TV brasileira.
Ministro Hélio Costa alerta que decisão da Agência é provisória
O aval da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para a Telefonica operar
TV por assinatura via satélite (DTH) escancarou o setor para o cartel das
teles, formado majoritariamente por empresas estrangeiras, dominar a televisão
em nosso país, inclusive a produção, programação e distribuição de conteúdo.
Em recente entrevista ao programa Canal Livre, o ministro das Comunicações,
Hélio Costa, afirmou que de uma receita bruta anual do setor de R$ 100
bilhões, R$ 90 bilhões são das empresas de telefonia. Ou seja, à Globo,
Record, Bandeirantes e às outras, à TV aberta mais a TV paga, e mais as
rádios, correspondem meros 10% da receita do setor. Logo, serão presa fácil
para as teles, exceto se o Estado impedir que a população fique completamente
à mercê desse cartel.
A situação atual da
TV brasileira já é de monopólio, com todas as suas conseqüências políticas
(tão evidentes na campanha eleitoral), sociais e culturais. No entanto,
existe, no momento, algo pior que o monopólio atual – é ter a TV, e as
telecomunicações em geral, dominada por um monopólio muito mais poderoso e,
ainda por cima, estrangeiro.
Na entrevista, o
ministro manifestou sua discordância em relação à entrada das teles no setor
de TV por assinatura, posição manifestada já desde o ano passado. Após a
autorização da Anatel, Costa disse que foi uma “solução temporária, até que a
gente tenha uma solução definitiva, como a Lei Geral [de Comunicação de Massa]
que vamos fazer”.
MONOPÓLIO
A Associação
Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA) anunciou que recorrerá ao
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) do Ministério da Justiça
para anular a decisão. Para a ABTA, “a conseqüência será transbordar encima da
TV por assinatura todo o monopólio que a empresa tem no mercado de telefonia
fixa”.
A Anatel, uma
invenção tucana supostamente para “regular” as telecomunicações, é um
escritório de advocacia administrativa das teles. Em suma, existe para
bloquear a ação do governo sobre esse setor estratégico. O caso da autorização
da Anatel à Telefonica é típico: aqui, houve uma manipulação, possível devido
à dispersão das regras para as comunicações - Lei Geral de Telecomunicações
(aplicada à teles), Lei do Cabo (TVs fechadas) e a Lei de Radiodifusão e
Direitos Autorais (TVs abertas e rádio). É assim, com seu poder financeiro e
tendo a Anatel por capanga, que as teles avançam no domínio do setor de
telecomunicações.
Em outubro do ano
passado, a mesma Telefonica, oficialmente espanhola mas com grande
participação dos fundos de pensão norte-americanos, comprou da TVA (Grupo
Abril) as operações de Serviço de Distribuição de Sinais Multiponto (MMDS) -
utilização da faixa de microondas - nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro,
Curitiba e Porto Alegre, além de 100% das ações preferenciais e parte das
ações ordinárias das operações a cabo da TVA em São Paulo, Curitiba,
Florianópolis e Foz do Iguaçu.
No mês seguinte, a
Telefonica se “associou” à DTHi (Astralsat), que opera na região de Ribeirão
Preto, para oferecer o chamado serviço “triple play” (TV, internet e
telefonia). Esta parceria foi denunciada pela ABTA por prática de dumping nas
cidades de Sertãozinho, Marília, Valinhos e Jaú, interior do Estado de São
Paulo, onde pacotes básicos estão sendo oferecidos por R$ 39,90, que não
cobrem os custos de operação, quase metade do preço das pequenas operadoras,
como a Big TV.
Registre-se que a
Telefonica, além de controlar o provedor de internet Terra, detém metade da
Vivo, a maior operadora de telefonia celular do país. A outra metade pertence
à Portugal Telecom.
A Telmex, mexicana,
comprou a Embratel, a operadora de telefone celular Claro e 49% da NET -
operadora de TV a cabo associada à Globo -, que engoliu a Vivax, também
operadora de TV por assinatura. Por seu lado, a Brasil Telecom (BrT) -
controlada pelo Citigroup e fundos de pensão -, se associou à Sky, que, após
aquisição da DirecTV, detém mais de 90% do segmento de DTH – a Sky e a DirecTV
pertencem ao magnata Rupert Murdoch, também dono da Fox News.
Já a Telemar (Oi), a
única brasileira desse cartel, também está associada à Sky e aguarda o aval da
Anatel para a compra da TV a cabo WayTV, de Belo Horizonte.
SETOR ESTRATÉGICO
Não se trata,
evidentemente, de uma simples convergência tecnológica (TV, internet e
telefonia), que inclusive deverá se aprofundar quando da implantação da TV
digital. O problema fundamental que se apresenta é o da propriedade, isto é,
quem vai ter o controle de um setor estratégico como o das telecomunicações, o
que demonstra a importância da Lei Geral de Comunicação Eletrônica de Massa -
incluindo radiodifusão (TV aberta e rádio), TV a cabo, MMDS, DTH e telefonia
-, que tenha como dispositivo principal impedir a instituição de monopólio
privado.
Toda essa situação
de quase “terra sem lei” se deve à privatização do Sistema Telebrás,
responsável por 95% das telecomunicações brasileiras até o governo Fernando
Henrique. A aberração é o resultado da passagem da propriedade pública, a
preços ridículos, para a propriedade de monopolistas sobretudo estrangeiros.
Assim se formou o cartel: os monopolistas não tiveram que construir empresas;
simplesmente se apropriaram das empresas públicas que o país construiu desde a
década de 70. Essa é a privatização que Fernando Henrique e acólitos dizem que
foi a “mais bem sucedida”. Como disse o ministro Hélio Costa, “antes da
privatização, bastava ao governo pedir o link de satélite à Embratel. O
governo não tem mais como ter um link imediato. Ou pede para as TVs ou pede
para as companhias telefônicas”.
PRIVATIZAÇÃO
A privatização
realizada em 1998, aliás, vem sendo alardeada pela mídia reacionária como
sendo responsável pelo aumento dos investimentos nas telecomunicações. Não é
verdade. Os R$ 22,042 bilhões arrecadados no leilão são inferiores aos R$ 23,5
bilhões de investimentos feitos pela Telebrás entre janeiro de 1995 e agosto
de 1998, para “expansão e modernização da planta” (V. o Programa de
Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do Sistema Postal –
Paste - editado pelo Ministério das Comunicações no governo tucano).
Porém, mais: entre
1999 e 2006, portanto 7 anos com as companhias já privatizadas, foram
investidos R$ 18 bilhões, financiados pelo Estado, através do BNDES. Ou seja,
nos 3 anos anteriores à privatização (1995-1998) investiu-se mais (R$ 23,5
bilhões) do que nos 7 anos posteriores a ela – e com financiamentos do BNDES,
antes proibidos às empresas públicas de telecomunicações, enquanto os cofres
das empresas privatizadas eram recheados com as tarifas de escorcha sobre os
usuários.
VALDO ALBUQUERQUE