O estado do Civita
Na “Veja”, aquele
insuperável manancial de sabedoria e cultura, o Civita anunciou em editorial
que de agora em diante vai rebelar-se contra o léxico nacional – ou seja,
contra os dicionários da língua portuguesa, que mandam grafar com inicial
maiúscula a palavra “Estado”.
Não sabíamos do apreço que
até agora a “Veja” manifestava pelo léxico. Aliás, nem tínhamos reparado que a
“Veja” era escrita em português. Mas, fora isso, em que língua a palavra
“Estado”, com o sentido de condensação superior das instituições públicas, é
escrita com minúscula? Em francês (“État”), não é. Nem em italiano (“Stato”),
espanhol (“Estado”), alemão (“Staat), romeno (“Stat”), basco (“Estatu”), e nem
mesmo em afrikaaner (“State”), língua daquele pessoal do apartheid que comprou
uma parte do Civita, quer dizer, da Abril. E, também, não em russo e outros
idiomas que usam alfabeto diferente do nosso.
Porém, adiantando-se a
essa pergunta, o Civita assevera que “os franceses, estado-dependentes,
adoradores de seu generoso cofre nacional, escrevem ‘État’”. Por que ele
escolheu os franceses para vituperar, e não, por exemplo, os papuas, os
bósnios ou os lapões, não se sabe. Parece que uma vez um francês lhe chegou
como quem chega do nada e... bom, deixa pra lá.
COFRES
Esse pessoal da Terra é
fogo. Tudo “estado-dependente” e “adorador dos cofres nacionais”. Só o Civita,
esse titã, é independente do Estado e dos cofres públicos. Mas... e aquela
publicidade estatal que abunda na “Veja” e nas outras revistas da Abril? Que
pouca vergonha é essa? Incrível, leitores. Estão tapeando o Civita. Querem
torná-lo Estado-dependente e, ainda por cima, adorador dos cofres públicos. Só
pode ser coisa do Mainardi. Isso é que dá ser tão complacente com os
empregados. Aquele dinheiro entrando há 40 anos, e nem avisaram ao Civita que
ele vinha dos cofres do Estado. Portanto, é necessário devolver imediatamente
o dinheiro da publicidade estatal que entrou na “Veja” e outras publicações
desde a sua fundação - evidentemente, com correção monetária. E, a partir de
agora, não aceitar mais um milímetro de publicidade estatal e nem um centavo
dos cofres nacionais. Não temos nenhuma dúvida de que o Civita, uma vez
alertado por nós, tomará imediatamente as providências nesse sentido.
Entretanto, esses viciados
em Estado, pervertidos que o são, poderiam dar uma interpretação malévola a
esses problemas, poderiam até dizer que estão “adorando os cofres nacionais”
porque o dinheiro é seu, já que pertence à Nação - por isso é que os cofres
são “nacionais”. Como a maldade dessa gente é infinita, poderiam dizer,
também, que o Civita só acha o que acha porque, em vez de, como todo mundo,
botar dinheiro nos cofres do Estado, ele tira. Daí a sua fenomenal
independência do Estado e dos seus cofres.
Mas isso seria,
evidentemente, uma calúnia hedionda. O Civita sempre foi um rebelde. Por isso
resolveu escrever “estado”, tal como “os povos de língua inglesa, [que] não
consideram uma dádiva do estado o direito à boa vida material sem esforço. [E
por isso eles] grafam ‘state’ ”. Muito comovente saber que o Civita é
contra esse negócio de ter “direito à boa vida material sem esforço”. Ficamos
condoídos só de ver o esforço que ele faz na vida. Propomos, portanto, que o
rapaz tenha um refrigério: que doe imediatamente a fortuna que herdou do pai
para as Obras da Irmã Dulce e arrume um emprego como funcionário público.
Assim, poderá, enfim, usufruir do direito à boa vida material sem esforço. E
não precisa nos agradecer. Afinal, o Civita merece, depois de todos esses anos
de árdua faina, carregando nas costas o dinheiro do pai.
Porém, que “povos de
língua inglesa” é que escrevem “state”, ao invés de “State”? Os ingleses é que
não são. A rainha vai virar a fêmea do dragão de São Jorge quando está
naqueles dias se alguém defini-la como “head of state”, ao invés de “head of
State”. Quem são, então, esses “povos de língua inglesa”? Ora, leitor, só
podem ser os americanos do norte.
Os ianques têm uma certa
dificuldade em saber o que é Estado nacional. Até porque o Estado deles, ao
invés de representar a Nação, representa meia dúzia de monopólios. No entanto,
mesmo eles escrevem “Department of State” e, claro, “United States”. Porém,
certamente que a “Veja” passará a escrever “Departamento de estado” e “estados
Unidos”. Eles vão adorar. Podem até aumentar a verba dos Civita, que desde a
década de 50 são uns habitués (êpa! Francês?? Cáspite!) daqueles cofres. São
até capazes de, seguindo Civita, o visionário, começar a escrever “Department
of state” e “United states”.
ENTE
Por último, leitor, uma
revelação fantástica, extraordinária, daquelas de fazer o retrato do pai do
Civita se arrepiar lá na sede da Abril. Pois o seu rebento resolveu fazer uma
profissão de fé no ateísmo (não existe fé de ateu? Existe, leitor incrédulo,
existe). Pois, segundo ele, “com maiúscula, estado simboliza (....) fé cega
e irracional na força superior de um ente capaz de conduzir os destinos de
cada uma das pessoas”. Que ele não goste do Estado – isto é, do Estado
brasileiro -, entende-se. Porém, não se sabia que o herege não acredita que
existe uma “força superior de um ente capaz de conduzir os destinos de cada
uma das pessoas”, ou seja, Deus. Não, leitor, o Civita não está virando
comunista. Não ainda. Por enquanto, o problema é que a única força superior
que ele reconhece é o dinheiro. Quanto ao Estado ou Deus, isso é coisa de
pobre.
CARLOS LOPES