Paraisópolis cria a Escola do Povo na batalha contra o
analfabetismo
Entidades como a CGTB, UMES, CNAB, CMB, ITDP e moradores
se unem determinados a vencer o analfabetismo numa das maiores favelas do
Brasil. Com 80 mil moradores, Paraisópolis tem cerca de 15 mil analfabetos
Moradores da comunidade, comerciantes, empresas e entidades
aceitaram o desafio de enfrentar e erradicar o analfabetismo numa das maiores
favelas do Brasil e a segunda maior de São Paulo: Paraisópolis, onde vivem
cerca de 80 mil habitantes, a maioria abaixo da linha da pobreza, e que
convive com o índice de 15 mil analfabetos ou semi-analfabetos. “Quando a
professora foi na minha casa para me convidar, eu não queria vir, achei que já
tinha passado da idade de aprender coisa nova, que era difícil demais. Mas
está sendo ótimo. Agora que estou conseguindo escrever meu nome, entendi que
nunca é tarde para aprender”, conta a aluna Francisca da Silva Correa, mãe de
quatro filhos, da primeira turma de alunos da Escola do Povo.
Inaugurado este
ano, o projeto Escola do Povo é desenvolvido pela União dos Moradores e do
Comércio de Paraisópolis em parceria com o Programa Brasil Alfabetizado, a
CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil), UMES (União Municipal dos
Estudantes Secundaristas de São Paulo), CNAB (Congresso Nacional
Afro-Brasileiro), CMB (Confederação das Mulheres do Brasil) e ITDP (Instituto
do Trabalho Dante Pellacani). O sucesso do projeto garante também o apoio de
lideranças comerciais e empresariais da região e do jornalista Chico Pinheiro,
escolhido como patrono da Escola do Povo pelo trabalho que desenvolve entre
moradores carentes da região de Paraisópolis.
Por conhecer melhor
a realidade local, a maioria dos 130 professores que atua no projeto também
mora na região de Paraisópolis. “Pra mim essa oportunidade está sendo muito
importante. Levei a vida inteira tentando ajudar as pessoas e essa é uma
maneira que estava faltando para me dedicar ainda mais”, conta Francinilda
Oliveira da Silva, de 54 anos, professora do projeto. Francinilda, que mora no
bairro há 21 anos, disse que mesmo tendo trabalhado 17 anos com alfabetização,
“está sendo uma coisa nova para mim”. “Estou vendo um esforço muito grande dos
alunos. Na minha turma tem uma senhora que, quando chegou aqui, mal conseguia
pegar no lápis, e agora ela já está fazendo a letrinha. Às vezes eles pensam
que é impossível, que são incapazes, e comemoram muito quando estão
conseguindo”, afirma a professora.
Relatando suas
experiências nas primeiras semanas de aula, a aluna Maria dos Prazeres contou:
“Já estudei e parei, né? Mas tem gente que nunca estudou. Tem uma senhora que
está aprendendo agora, e é bastante importante para ela e para cada um de nós.
Eu pretendo continuar até o fim”.
PERSPECTIVA
O presidente da
União dos Moradores, Gilson Rodrigues, explica que “aqui em Paraisópolis
existem diversos programas desenvolvidos pela comunidade que visam melhorar as
condições das pessoas, mas nós vimos que o foco principal do nosso trabalho
deveria ser a educação”. Gilson, que destacou também o apoio dado pela
Associação Panamby e da Associação das Mulheres de Paraisópolis, lembra que
toda a comunidade ganha com o projeto. “É fundamental que as pessoas possam
estudar para ter a perspectiva de ingressar numa universidade e a consciência
do seu papel na sociedade”.
“O Brasil tem 24
milhões de analfabetos, e agora estamos em condições de transformar essa
realidade”, afirmou o presidente da União dos Moradores de Paraisópolis ao
falar das expectativas do programa de alfabetização. “Com o projeto de
crescimento anunciado pelo governo federal, vimos que grande parte dele vai
para a educação, e com o apoio da sociedade poderemos acabar com esse mal que
há tanto tempo persegue o povo brasileiro que é o analfabetismo”.
JÚLIA CRUZ