O “caso Hiss” e o macartismo: o golpismo fascista nos EUA
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Defensor em toda sua
trajetória da política anti-monopolista de Roosevelt, não foi à toa que Alger
Hiss acabou sendo escolhido como alvo pela direita fascista dos EUA, na época
usando escroques do quilate de McCarthy, Nixon e Chambers, pois eram
exatamente as profundas mudanças promovidas por Franklin Delano Roosevelt que ela
queria varrer da História do país
CARLOS LOPES
Em uma das gravações da Casa Branca reveladas após o escândalo de Watergate, Nixon, prestes a ser expelido do cargo, e
querendo paralisar as investigações no Congresso, diz a Kissinger: “[Uma
comissão do Congresso] destrói o caráter de um homem em público, e [em
um] segundo, se um documento é encontrado; você sabe, eles levarão a
julgamento o pobre coitado... Nós fizemos isso com Hiss”.
Na verdade, isso eles não conseguiram fazer. Porém, a
trajetória de Hiss, longe de conceder-lhe imunidade, foi exatamente o que fez
com que fosse a vítima escolhida. Certamente havia Chambers e sua fixação
doentia em destruir Hiss - mas ninguém havia dado a menor atenção às suas
tentativas anteriores. O próprio Adolf Berle Jr., a quem Chambers havia
denunciado Hiss em 1939, e que fez um depoimento pusilânime na comissão de
Nixon, ao ser questionado por Chester Lane, advogado de Hiss, sobre a
contradição entre esse depoimento e suas notas da época, arquivadas no
Departamento de Estado, relatou o encontro do seguinte modo: “Chambers
(....) foi incapaz, ao ser questionado, de sustentar qualquer tópico e, em
geral, tinha a aparência de um maluco [“crackpot”]. Começou a se referir a
várias pessoas, inclusive aos irmãos Hiss [Alger e seu irmão Donald, também
colaborador do governo Roosevelt] como comunistas, mas ao longo da conversa
sua certeza desfaleceu, e admitiu que o que ele realmente queria dizer era
apenas que essas pessoas eram da espécie que geralmente o Partido Comunista
tentava atrair para o ponto de vista comunista”.
Observe o leitor que no relato de Berle não há menção ao
“grupo comunista clandestino” que 9 anos depois Chambers afirmou que
participara, até 1938, juntamente com Hiss. Também não há menção a atividades
de espionagem - que, aliás, Chambers negaria em todos os interrogatórios, de
agosto a novembro de 1948, quando, então, subitamente, apareceu com a
história, explicando que antes havia negado porque queria “proteger” (!!??)
Hiss.
DE MALUCO A ESTRELA DA MÍDIA
Apesar disso, se em 1939 Chambers era apenas um maluco,
em 1948 transformou-se na estrela da mídia e no herói da canalha reacionária.
Em 1939, depois dos fracassos iniciais, não havia condições para o golpe de
Estado. Em 1948, com Roosevelt morto, com um presidente democrata que se
mostrou vacilante desde o primeiro momento, e com o Partido Democrata dividido
entre o Norte e o Sul, as condições eram outras.
A escolha de Alger Hiss como alvo era devida, portanto,
justamente à sua trajetória. Eram as mudanças da época de Roosevelt - e os
homens que as fizeram - que os golpistas pretendiam varrer dos EUA. Nesse
sentido, Hiss, ao contrário das aparências, era o alvo ideal.
Porque Alger Hiss era – e foi até a morte, em 1996, aos
92 anos – um típico homem da época de Roosevelt e adepto de sua política
econômica anti-monopolista, o “New Deal”, com sua vontade de que os EUA, ainda
que um país capitalista, fosse diferente, sua identificação com as camadas
mais desfavorecidas do povo, sua rejeição à política imperialista, sua aversão
à espoliação pelos monopólios financeiros e, porque não dizer também, sua
ingenuidade diante da mídia & dos capangas desses mesmos monopólios.
Era essa época que o fascismo “macartista” queria apagar
da História dos EUA. Para isso, muito mais do que para caçar comunistas - para
não falar em espiões verdadeiros -, McCarthy, Nixon, Chambers e outras figuras
dessa cepa foram usadas pelos monopólios financeiros e açulados por sua mídia.
Nas palavras do próprio Alger Hiss, três décadas depois: “Eu diria que o
New Deal não terminou realmente até que a Guerra Fria começou,
e essa foi uma das funções da Guerra Fria e do macartismo – desacreditar o
New Deal. Nunca tive nenhuma dúvida de que o objetivo do macartismo era atacar
Roosevelt indiretamente. Ele era popular demais, mesmo depois de morto,
para ser atacado diretamente. Se o New Deal podia ser atacado, se Yalta
e suas outras políticas podiam ser atacadas, então isso era um meio de remover
a marca que, com aquelas políticas, Roosevelt havia deixado. Nunca duvidei de
que uma das tarefas do macartismo era diminuir a simpatia por Roosevelt,
a simpatia pelo New Deal, a simpatia pelas Nações Unidas” (entrevista a
Judah e Alice Graubart para o livro “Decade of Destiny”, 1978).
Havia outro fator na escolha de Hiss: contra ele os
inimigos de Roosevelt tinham à disposição um psicopata. Posteriormente esse
fato foi bem estabelecido (V., p, ex., o livro do psicanalista Meyer Zeligs,
“Friendship and fratricide: an analysis of Whittaker Chambers and Alger Hiss”,
1967). Porém, as condições mentais de Chambers já eram bastante claras na
época. A começar pelo nome: sintomaticamente, ele havia fabricado “Whittaker
Chambers” - ou “David Whittaker”, como também se apresentava - a partir do
sobrenome de solteira da mãe, escondendo o nome verdadeiro, Jay Vivian
Chambers.
Durante o julgamento de Hiss, um psiquiatra, Carl Binger,
forneceu um parecer muito preciso sobre sua personalidade – até mesmo em
relação ao seu homossexualismo, comprovado muitos anos depois, com a liberação
de duas declarações de Chambers em poder do FBI, uma delas manuscrita. Se, ou
como, J. Edgard Hoover usou essas declarações, não é sabido. Mas é preciso
destacar (mais ainda porque, na época, Binger foi achincalhado no tribunal e
nos jornais) que o parecer psiquiátrico foi um triunfo profissional, mais
ainda considerando que seu autor não conhecia a horrenda história familiar de
Chambers - filho de pai também homossexual e de uma mãe permanentemente
entregue ao devaneio, a avó psicótica e um irmão suicida.
Não transcreveremos, por motivos óbvios, a íntegra dessas
declarações de Whittaker Chambers ao FBI. Reproduzimos somente o
seguinte trecho: “Eu disse antes que estou destruindo a mim mesmo.
Isto não é por amor à auto-destruição, mas porque somente se nós estamos
conscientemente preparados para destruir a nós próprios, na luta,
podemos combater a coisa, pode a coisa que nós estamos combatendo ser
destruída” (grifos nossos).
ELEIÇÕES
Apesar das concessões feitas pelo sucessor e último
vice-presidente de Roosevelt, Harry Truman, os monopólios
industriais-financeiros não conseguiram retomar o poder durante a sua
presidência. Mas avançaram o suficiente para fazê-lo em seguida. Esses
monopólios, como destacaram Sweezy e Baran, haviam sido derrotados nas
eleições de 1933, com a vitória de Roosevelt. Em meio à profunda crise
iniciada em 1929, seu candidato, o então presidente Herbert Hoover, havia sido
triturado: num eleitorado de menos de 40 milhões de votantes, Roosevelt
conquistou uma diferença de 7 milhões e a maioria absoluta dos votos populares
(57,4%). Ganhou em todos os estados, com exceção de seis - o Maine, a
Pennsylvania e os pequeninos New Hampshire, Vermont, Connecticut e Delaware. A
consequência - pois as eleições para presidente nos EUA são indiretas - foi o
resultado no colégio eleitoral: 59 votos para Hoover e 472 para
Roosevelt.
Por pouco Franklin Delano Roosevelt deixara de ser o
candidato do Partido Democrata: na Convenção de Chicago, após três votações,
não conseguira os dois terços necessários à indicação como candidato, devido à
oposição da ala direita – sobretudo os políticos do sudoeste dos EUA, a que se
somavam a oposição do centro-oeste (região do estratégico estado de Ohio) e a
de setores de seu próprio estado, Nova Iorque, onde entrara em conflito com a
famosa Tammany Hall, como era conhecida, desde o século XIX, a máquina
partidária democrata da maior cidade dos EUA. Somente um acordo com os
democratas do sul, que indicaram John Garner, do Texas, como vice-presidente,
permitiu que Roosevelt fosse o candidato, algo muito semelhante ao que
aconteceria, quase 30 anos depois, na indicação de Kennedy e Johnson.
Mas, depois de 12 anos que mudaram o país, Roosevelt não
conseguira exercer seu quarto mandato, para o qual fora eleito em 1944. O
grande presidente faleceu em abril de 1945. Era o que a reação esperava para
assaltar o poder.
O “caso Alger Hiss” começou, não por acaso, no mesmo ano,
1948, em que, contra todas as expectativas – isto é, contra todas as pesquisas
e contra praticamente toda a mídia, que chegou a noticiar a vitória de seu
adversário – Harry Truman venceu o candidato do Partido Republicano, Thomas
Dewey. Não é possível saber, evidentemente, se a histeria contra Hiss teria
tomado a dimensão que tomou, caso Dewey houvesse vencido. É até possível que
fosse maior. Mas a acusação de espionagem só apareceu após as eleições.
Precisamente, no dia seguinte. Vejamos os principais fatos:
1) em 3 de agosto de 1948, Chambers aparece no
“Comitê sobre Atividades Antiamericanas” da Câmara e acusa Hiss de
participação num “grupo clandestino comunista”.
2) dois dias depois, o presidente Truman denuncia
o Comitê - e os republicanos - por fabricar um “arenque vermelho”, isto é,
algo falso para manipular na campanha eleitoral.
3) no mesmo dia, 5 de agosto, Hiss depõe no
Comitê, nega as acusações de Chambers e pede uma acareação.
4) ao invés de promover a acareação, o Comitê, em
7 de agosto, patrocina uma sessão secreta de alguns de seus membros, chefiados
por Nixon, com Chambers.
5) no dia 16, Alger Hiss depõe outra vez no Comitê
e identifica Chambers como alguém que na década de 30 apresentou-se a ele
usando o nome “George Crosley” (Chambers negou o uso desse nome até o segundo
julgamento de Hiss, em janeiro de 1950, quanto declarou que “era possível”
que o tivesse usado; nessa época, a defesa havia conseguido declaração
juramentada do editor Samuel Roth, relatando que Chambers, querendo publicar
um livro, usou o mesmo falso nome - apesar disso, Roth não foi ouvido como
testemunha, pois os advogados de Hiss temiam que a reputação do editor, um
pornógrafo que havia cumprido pena por roubo de direitos autorais, pudesse
prejudicar a causa de seu cliente. Mas Chambers sabia da declaração do editor,
pois havia um espião (aí, sim) infiltrado na defesa, o que só seria descoberto
em 1975, quando Hiss conseguiu na Justiça a liberação de parte dos arquivos do
FBI).
6) no dia seguinte, 17, frente a frente com
Chambers, Hiss o identifica como “George Crosley” e os inquisidores reagem
agressivamente. A sessão é suspensa.
7) no dia 25 de agosto, pela primeira vez, a
televisão entra no Congresso dos EUA, transmitindo uma acareação em que Hiss,
só, enfrenta Chambers e todo o Comitê.
8) o Comitê divulga, a 27 de agosto, um “relatório
parcial”, qualificando o depoimento de Hiss como “vago e evasivo” e o de
Chambers como “sincero e enfático”.
9) em 14 de outubro de 1948, Chambers declara
diante de um “grand jury” que não sabia de “ninguém envolvido em espionagem”.
10) no dia 4 de novembro de 1948, o democrata
Truman, contra toda a mídia e todas as pesquisas, derrota o republicano Dewey.
11) no dia seguinte às eleições, 5 de novembro de
1948, Chambers declara que Hiss lhe passava documentos secretos do
Departamento de Estado.
12) a 17 de novembro, Chambers aparece com papéis,
que segundo ele estavam escondidos no banheiro da casa de um parente seu. Os
papéis são cópias de documentos, datilografados numa velha máquina Woodstock,
mesma marca de uma máquina de escrever que pertenceu a Hiss e sua esposa,
Priscilla - em seguida, como Ethel Rosenberg alguns anos depois, acusada de
haver datilografado documentos secretos para serem enviados a Moscou.
13) em 2 de dezembro, segundo Chambers e Nixon,
eles retiraram, de dentro de uma abóbora oca, outros papéis e alguns filmes
não revelados, que Hiss teria passado em 1938 para serem remetidos a Moscou.
Sobre o valor dos papéis com que Chambers, de repente,
apareceu, Nixon já nos esclareceu a esse respeito. Há ainda algumas questões
do depoimento de Chambers que mais adiante abordaremos.
Mas é possível perceber que a derrota do candidato que os
monopólios financeiros e bélicos apoiavam fez com que estes passassem da
estratégia principalmente eleitoral à tentativa de golpe de Estado. A forma
que tomou esse golpe de Estado foi, precisamente, o “macartismo”.
Diante de um presidente que, apesar de vitorioso na
reeleição, optou por uma malfadada política de concessões, os tubarões e
piranhas queriam mais sangue. Tal processo havia começado ainda antes do fim
da II Guerra – o próprio Truman era a concessão que Roosevelt foi forçado a
fazer, em 1944, à direita do Partido Democrata, substituindo o então
vice-presidente, Henry Wallace.
Assim, 166 assessores da Casa Branca – ou seja, de Truman
- foram derrubados sob a acusação de “corrupção”, essa bandeira sempiterna do
fascismo. Seu secretário de Defesa, Louis Johnson, foi expelido do cargo sob
acusações de haver deixado os EUA “desarmado”, ao promover cortes nas despesas
bélicas. O sucessor de Johnson seria também derrubado, após um infame discurso
do senador Joseph McCarthy, acusando-o de prejudicar “os interesses da
América” - e note-se que esse sucessor era George C. Marshall, um dos cinco
“generais de exército” (cargo, na hierarquia militar norte-americana,
equivalente a marechal) de toda a história dos EUA, comandante do Estado-maior
durante a II Guerra Mundial, organizador do desembarque na Normandia (para a
chefia do qual escolheu Dwight Eisenhower) e, como secretário de Estado, autor
de um vasto plano de reconstrução da Europa Ocidental em prol do domínio
norte-americano e da contenção aos comunistas, que leva o seu nome. Marshall
levava tão em consideração – e com tão bom senso - os interesses do
establishment dos EUA que tinha se demitido do Departamento de Estado por
achar que o reconhecimento de Israel, em 1949, era um desastre para esses
interesses. Muito melhor era substituir os britânicos no mundo árabe. Porém,
verdade seja dita, Marshall não era um fascista.
“FAIR DEAL”
O programa de reformas internas de Truman, o “Fair Deal”,
foi simplesmente bloqueado no Congresso – tanto as medidas de integração
racial, quanto as de promoção de moradia, saúde, educação, criação de
empregos, previdência e assistência social para os mais pobres. Somente um
pequeno aumento dos benefícios para os desempregados foi aprovado, durante
todo o governo.
Truman acabou por usar “ordens executivas” (o equivalente
norte-americano a decretos-lei) para proibir a discriminação racial no
exército – mas não na Marinha, nem entre os “marines”, que estavam em oposição
aberta ao governo.
O veto de Truman ao “Taft-Hartley Act” - que proibia, de
várias maneiras, os sindicatos de empreender luta sindical verdadeira – foi
derrubado na Câmara e no Senado. Apesar de suas poucas luzes de político
paroquiano do Missouri, Truman foi exato ao afirmar que o “Taft-Hartley Act”
era (e é, pois não foi revogado) uma “lei do trabalho escravo”.
As concessões de Truman, que não foram poucas - duas
bombas atômicas no Japão, a fundação da CIA em 1949, a agressão à Coréia,
entre outras - não serviram para aplacar a sede dos monopólios
norte-americanos. Eles queriam o poder total. E isso eles ainda não tinham.
Daí a perseguição aos rooseveltianos e outros democratas - e a ostensiva
recepção a MacArthur, depois que Truman o demitiu do comando na Coréia, por
ter se comportado como sempre: desrespeitando as ordens do presidente e
envolvendo os EUA num desastre militar que custaria mais de 50 mil mortos
norte-americanos.
Continua na próxima edição