Terça-feira, 13: Economia estagnada dos Estados Unidos derruba Bolsas
A queda das Bolsas no
dia 13 reflete os problemas da economia dos EUA, cujos números não são nada
animadores: queda de 5,6% nas encomendas; produtividade não-agrícola no 4º
trimestre cresceu só metade do previsto. Cresce a inadimplência imobiliária e
há risco iminente de colapso do setor
Dessa
vez não houve como remendar, nem fazer fantasias sobre a pequena e cheia de
limites bolsa de Xangai. O problema é mesmo com os EUA e sua economia,
sufocada e deformada pelos monopólios e especuladores que a controlam. No
registro da revista inglesa “The Economist”, “na terça-feira dia 13, os três
grandes índices americanos retrocederam tudo que tinham reganhado desde ir ao
fundo do poço no dia 5 de março. O Dow, a Nasdaq e o S&P, cada um deles, caiu
cerca de 2%”. A revista atribuiu “às preocupações com o mercado imobiliário”
dos EUA e aos “esmaecidos números” divulgados sobre fevereiro essa sangria em
Wall Street. E o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan se resolveu
a anunciar que há “uma chance de um-para-três de que haja recessão este ano”
nos EUA.
Vamos aos números. O
índice do Instituto dos Gerentes caiu de 59,0 em janeiro para 54,3 em
fevereiro. A produtividade no setor não-agrícola cresceu a uma taxa anualizada
de 1,6% no quarto trimestre – praticamente a metade do previsto. O aumento
anualizado dos custos de trabalho foi revisado de 1,7% para 6,6%. As
encomendas nas fábricas caíram 5,6%. Não apenas a economia vai mal, mas vai
mal numa situação de crise política de crescente efervescência nos EUA, diante
do fracasso no Iraque. Todo dia tem um caso novo. Valerie Palme, Hospital
Militar Walter Reed, os oito procuradores federais.
“PREOCUPAÇÕES”
Apesar da forma quase
poética com que se refere ao estouro da bolha do mercado imobiliário –
“preocupações”-, o “Economist” acabou por registrar a quebradeira em curso de
bancos que se dedicavam a uma das parcelas mais lucrativas da pirâmide, a
chamada hipoteca ‘subprime’. O “New Century” – o segundo maior do segmento –
beijou a lona com um rombo de US$ 8,4 bilhões. A ‘subprime’ é um tipo de
hipoteca em que o tomador do empréstimo se sujeita a pagar juros mais elevados
por falta de referências de crédito ou condições de pagamento.
Na semana passada, o “New
Century” foi forçado a parar de oferecer novos empréstimos porque não tinha
como obter financiamento; os emprestadores de segunda linha não apenas
cortaram todas as linhas de crédito como exigiram a antecipação do que estava
pendente. A bolsa de Wall Street suspendeu a negociação de suas ações, após
desabarem para US$ 1,66 – diante de US$ 51,97 em maio. Também a “Accredited
Home Lenders” foi ao chão, com as ações despencando para US$ 3,97.
GENERAL
MOTORS
Não apenas elas: a antiga
unidade de empréstimos subprime da General Motors vem sendo escorada em cerca
de US$ 1 bilhão. Qual é, exatamente, o alcance do estouro da bolha imobiliária
não é possível, ainda, mensurar. Mas, segundo o colunista do “Washington
Post”, Robert Samuelson, as “subprime” representam “20% de todas as
hipotecas”. Ele acrescentou que “recentemente, o HSBC – um dos majors da banca
mundial – anunciou mais de US$ 10 bilhões de perdas nas hipotecas ‘subprime’”.
Em suma, o que está
causando tamanha “instabilidade” nos “mercados” é que os especuladores estão
tendo de abandonar as posições secundárias, para salvar o principal nos EUA.
Em poucos anos, antes da bolha do “mercado imobiliário”, já haviam estourado
as da bolsa de valores e a da alta tecnologia. Para manter à tona os bancos, o
Federal Reserve havia, então, abaixado drasticamente as taxas de juros. A
especulação então se deslocou para a venda de imóveis.
Como se vê, conforme
observou a revista inglesa, “não são apenas desafortunados tomadores de
empréstimos e aqueles no mercado de empréstimos subprime que sofrerão”. Eram
vários os ‘instrumentos’ usados pelos especuladores para manterem por mais
tempo a pirâmide em movimento, como as assim-chamadas Obrigações de Débito
Colateralizadas (CDOs, na sigla em inglês), em que uma dívida é dividida em
várias tranches, com supostos graus variados de risco. Muitos empréstimos
‘subprime’ acabaram virando CDOs. Em outras palavras, ninguém sabe ao certo
aonde começa um empréstimo e aonde fica o derivativo. “As ações da Moody’s,
agência de classificação de ‘risco’, e as da McGraw-Hill, que é dona da
Standard and Poor’s vem caindo desde fevereiro”, acrescenta a “Economist”.
A publicação registra,
ainda, que os “temores sobre a sorte dos bancos também irromperam nos mercados
de derivativos”. A Moody´s “recentemente apontou que o mercado CDS – no qual
os investidores pagam por proteção contra a falha das empresas em repagar seus
débitos – estava colocando a Goldman Sachs, Merryl Lynch e Morgan Stanley numa
classificação apenas dois níveis acima dos ‘junk’ (bonds lixo).” “Os mercados
de crédito, aos quais os bancos estão, naturalmente, expostos, vêm há muito
parecendo um acidente esperando para acontecer”.
FUNDAMENTOS
Porém, tudo isso ainda é
apenas uma parte da crise e da estagnação, e muita água vai rolar.
Curiosamente, ninguém fala “nos fundamentos” – aquela expressãozinha calhorda
que os neoliberais e os panacas em geral gostam de tanto de usar, desde que
não seja em relação à economia dos EUA. Afinal, e os “fundamentos”? Os de
maiores devedores do mundo? A desindustrialização e perda de espaço? A
economia de cassino? A poupança próxima de zero? Ou serão os gigantescos
déficits gêmeos – fiscal e transações correntes – cevados por Bush?
ANTONIO PIMENTA