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TV e rádio reagem ao avanço das teles acobertado pela Anatel

Decisões da Agência causam desnacionalização

Os constantes atropelos à legislação brasileira executados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para que as teles avancem sobre os meios de comunicação, promovendo a desnacionalização do setor, começaram a provocar protestos. A gota d’água foi a decisão da Agência de reduzir o espectro de UHF ocupado por repetidoras de TV abertas com o objetivo de ofertar quatro canais para as teles utilizarem em transmissões de serviços multimídia e TV por assinatura. Isso foi o estopim para causar uma reação nada habitual da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) que exigiu a cessão “das condutas de guerrilha deliberadamente hostis à radiodifusão brasileira” por parte da Anatel.

TRANSMISSÃO

Aproveitando a necessidade criar espaço para a transmissão de quatro canais públicos criados pelo governo, a Anatel publicou a consulta pública nº 833 e, de forma ardilosa, destinou as subfaixas de radiofreqüências de 752 MHz a 764 MHz e de 782 MHz a 794 MHz, excetuando-se as capitais dos Estados, o Distrito Federal e algumas cidades de porte médio, para as teles operarem TV por assinatura em mais de 4 mil municípios brasileiros.

Não é de hoje que a Anatel vem advogando em favor das empresas de telefonia. Na verdade, ela foi criada e estruturada justamente para acobertar e facilitar a ação das empresas estrangeiras que açambarcaram as teles no processo de privatização. Na época, a alegação dos privatistas era de que não adiantava só entregar o patrimônio público, mas era necessário também criar uma segurança jurídica e regulamentar para que tais empresas não fossem surpreendidas caso os interesses nacionais fossem colocados em primeiro plano por um futuro governo. Esse detalhe foi lembrado pela Abert (ver nota ao lado).

Segundo levantamento da entidade, as freqüências destinadas para as TVs distribuírem a sua programação às sucursais no interior foram reduzidas pela Anatel de 1.086 MGHz, em 1997; em 2002, para 880 MGHz, até chegar a 5 MGHz em 2006.

Não foi só isso. Duas recentes decisões da agência são reveladoras de como ela atua para ludibriar as leis e regulamentações brasileiras com a intenção de favorecer as teles e apoiar a sua ascensão sobre os demais setores. Numa delas, a autorização para que a espanhola Telefónica comprasse a operadora de TV a cabo TVA do grupo Abril, aprovada por 3 votos a 2, a Anatel cometeu dois ilícitos ao permitir que um grupo estrangeiro controlasse uma empresa de TV paga e que uma empresa de telefone fixo opere TV por assinatura em sua área de concessão, o que é expressamente vedado pelos contratos de concessão das teles.

A operação de venda da TVA pelo grupo Abril para a Telefónica envolveu cerca de R$ 1 bilhão. Ao analisar os contratos e acordos de acionistas, um dos conselheiros da agência, Plínio de Aguiar, apontou que a operação era ilegal por conter mecanismos contratuais e cruzamento de ações que davam à empresa espanhola o controle de fato da TVA e transformava o grupo Abril num laranja. A legislação brasileira para concessões de TV por assinatura, a lei do cabo, é clara ao afirmar que uma empresa estrangeira não pode possuir mais do que 49% das ações com direito a voto. Estava mais do que escancarado para qualquer pessoa que o verdadeiro dono da TVA era a Telefónica, mas os dois grupos apresentaram mudanças cosméticas para alguns conselheiros liberar o negócio baseado num engodo, mas que não doesse muito aos olhos dos que não estavam, até então, querendo se chocar com o poder econômico da Telefónica.  

A outra resolução envolveu a aquisição da empresa mineira de TV a cabo Way TV pela Oi. O negócio havia sido rejeitado duas vezes pela Anatel. Com a chegada de novos conselheiros – Ronaldo Sardenberg, ex-ministro de FHC e Antônio Bedran – foi feita uma interpretação errada do artigo 15 da Lei do Cabo, que diz que uma tele pode operar TV a cabo caso não exista nenhuma empresa interessada. Só que a cessão só será feita em leilão público e se caso nenhuma outra empresa participar. Mas, na verdade, não houve um leilão e sim uma venda privada na bolsa, em que uma empresa (não o Estado) vendeu a sua concessão para uma outra empresa privada (uma tele).

Porém, o fato é que a Anatel não está nem aí para a lei brasileira. Isso fica claro ao ver a exposição do presidente da própria Abrafix (Associação que representa as teles), José Fernandes Pauletti, numa Conferência sobre comunicação na Câmara dos Deputados no mês de setembro. Defendendo o avanço de suas associadas sobre o setor de TV a cabo ele afirmou que as restrições para tanto estão em três pontos da legislação: o artigo 15 da lei do cabo (determinando que uma tele só pode participar de uma concessão pública caso não exista outra empresa interessada); o artigo 7 da mesma lei que impede estrangeiros de deterem 51% das ações com direito a voto e os contratos de concessão que não permite as teles de operar TV a cabo em sua área de concessão.

Segundo ele, tais mecanismos são atrasados por impedirem sua ação predatória e defendeu abertamente a derrubada. No entanto, tais leis existem e são as mesmas que impedem que a Anatel tome decisões como as citadas acima no caso da Telefónica e da OI. Ou seja, uma confissão de que as autorizações foram ilegais, imorais e afrontam a soberania e o Estado brasileiro.

Esses foram apenas os primeiros passos dos grupos estrangeiros na tentativa de monopolizar as comunicações brasileiras. Para tanto, usam as artimanhas mais variadas e nada novas para quem assistiu a campanha mentirosa das privatizações. A moda virou falar em beneficiar o consumidor com a convergência dos serviços de TV a Cabo, telefone e internet banda larga. Alegam que a tecnologia avançou e que seria um passo do país rumo à modernidade permitir que várias empresas disputem esse mercado.

No entanto, a lei geral de comunicações impede que grupos estrangeiros controlem mais do que 30% das ações de empresas de comunicação (TVs, rádios, jornais, revistas, etc). Para mudar a lei e permitir a dominação estrangeira, figuras como Ronaldo Sardenberg lançaram a conversa fiada de que a lei precisa separar “negócio de conteúdo”, ou seja, que o importante é preservar a produção nacional, que os programas devem ser feitos aqui, mas não tem problema que os monopólios estrangeiros como dos sul-africanos da Nasper ou do senhor Keith Rupert Murdoch controlem todo o sistema de comunicação de cima a baixo.

A concorrência alegada no processo de privatização das teles mostrou claramente como o dito mercado invariavelmente se comporta rumo à monopolização. Diziam que muitas empresas iriam disputar os consumidores e que esta disputa levaria à redução das tarifas.

CONGLOMERADOS

O que aconteceu foi o seguinte: o mercado de telefonia fixa está dominado por três empresas (Telefônica, Brasil Telecom e Oi (Telemar), que juntas detêm 93% dos assinantes; os telefones celulares estão nas mãos da Telefónica (58%, incluído a Amazonia Celular), Claro (24,82%) e Oi (13,21%). O restante está dividido por pequenas empresas. Além disso, as teles controlam 76% do mercado nacional de internet banda larga, ante 22% em mãos de empresas de TV a cabo.

Este monopólio está entrelaçado ainda com conglomerados estrangeiros no comando de órgãos de comunicação, vide a Telefónica, que atua na telefonia fixa, controla 58% da móvel, é dona do portal “Terra”, e ainda está ligada na TVA com o grupo Abril - que vendeu 30% de suas ações para o grupo sul-africano Naspers –, que possui as editoras Ática e Scipione, publica a revista “Veja” e outras dezenas e ainda é dona da MTV.

A explosão das tarifas e a monopolização resultaram em ganhos bilionários da ordem de R$ 120 bilhões anuais para as teles, quase 10 vezes a mais do que das TVs pagas (R$ 5,5 bilhões) e abertas (R$ 10,3 bilhões) juntas.

Essa é a concorrência leal e igualitária que a Anatel quer implementar no Brasil.

A.R.
 

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