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A neoprivatização de Serra e a arcaica de Fernando Henrique

Para Serra, o negócio é privatizar no atacado

O governador de São Paulo, José Serra, que recentemente mandou contratar empresas de auditoria para avaliar o preço de todas as estatais do Estado, declarou que “o que eu mesmo dizia, porque presidia o Programa Nacional de Desestatização nos primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso, era que a privatização iria aliviar e liberar gastos públicos, inclusive para investir. O investimento público deveria ter se elevado na área de infra-estrutura”. Mas, segundo Serra, isso não se deu porque... as petroquímicas foram vendidas por “nada” (sic) e as privatizações das teles e empresas de eletricidade financiaram “a sobrevalorização do real e os juros siderais”.

Em suma, Serra, apesar de ter sido o seu privatizador-mor, avalia que o governo Fernando Henrique fez tudo errado no tange à privatização.

Mas, nem tudo está perdido. Serra agora se propõe a mostrar qual é a privatização que o Brasil precisa. Não é aquela pouca vergonha do Fernando Henrique, onde, dos US$ 105,5 bilhões que, supostamente, entraram, 86,4% foram gastos com pagamentos de dívidas das empresas, planos de demissões voluntárias, subsídios nos empréstimos do BNDES aos compradores e prejuízos com papéis podres. Em suma, a maior parte foi consumida com privilégios aos açambarcadores das empresas (cf., Pochman, M., “Revisão do Papel do Estado e Privatizações: As Consequências para o Emprego do Brasileiro”, Unicamp, 2000).

Arguto como é de seu feitio, Serra certamente sabe disso: afinal, ele era o chefe da privatização. Incrível é como, apesar de suas arraigadas convicções, foi esse o “formato” que saiu. Como pode ter permitido que passassem por cima dele e aprovassem o que não queria?

Mas, como trata-se de um homem que aprende com seus próprios erros, eleito prefeito de São Paulo, quis privatizar até os postes de iluminação – e não estamos brincando, leitor. Veja-se a nossa edição de 30/06/2006, onde é descrito o projeto dos postes serristas. Agora, como governador, quer privatizar todas as empresas públicas de São Paulo.

É verdade que ele desmentiu. Mas, por que, então, mandar avaliar o preço de todas – ressaltamos: todas – as estatais de São Paulo, gastando R$ 20 milhões para pagar empresas de auditoria? Para que estabelecer um preço, se não é para vender?

DIFERENÇA

Então, qual a diferença entre a arcaica privatização de Fernando Henrique e a neoprivatização de Serra? Provavelmente, a diferença é que a privatização de Serra é uma verdadeira privatização totalitária – nada menos do que todas as estatais - além de ser mais hipócrita, mais cínica. Fernando Henrique jamais privatizou e criticou a privatização ao mesmo tempo. Esse aprimoramento, somente Serra conseguiu atingir.

Porém, não se trata de uma conduta de maluco: a privatização de Fernando Henrique – aquela da qual Serra era o chefe – foi um desastre que até hoje faz o povo mandar ao Inferno qualquer privatizador – o Alckmin até que tentou disfarçar, mas não conseguiu. E Serra sabe disso.

Os poucos lacaios que ainda a defendem em órgãos acadêmicos ou governamentais – sem falar da mídia – citam como vantagens os US$ 105,5 bilhões de dólares que teriam entrado no caixa do governo e o aumento de lucro das empresas após a privatização. É claro que elas aumentaram o lucro. É para isso que foi feita a privatização: para transformar empresas públicas em monopólios privados, isto é, para extrair superlucros através de sobrepreços - no popular, para escorchar a população.

Já mencionamos que 86,4% dos US$ 105,5 bilhões foram desperdiçados em privilégios aos açambarcadores. Porém, o patrimônio vendido por esse preço era vinte vezes mais valioso. Em suma, “todo o setor siderúrgico, o segmento petroquímico da indústria do petróleo, a Vale do Rio Doce, o complexo das telecomunicações, bancos estaduais, ferrovias, unidades de fertilizantes, empresas de energia elétrica etc. - um patrimônio avaliado em mais de 2 trilhões de dólares (estatais da União e dos estados) foi transferido pelo valor simbólico total de apenas 100 bilhões de dólares, aí já arroladas as pequenas dívidas externas de algumas das empresas, inferiores aos lucros” (cf., Álvaro Queiroz, “O fracasso das privatizações”, Cadernos do 3º Mundo, nº 227/2001).

ESTUDO

Com base no estudo do professor Pochmann, atual presidente do IPEA, o autor faz também uma conta: se subtrairmos os “investimentos destinados à preparação das estatais para a venda, dívidas de algumas empresas assumidas pelo Estado, juros sobre tais dívidas e sobre os investimentos, indenizações por demissões de servidores públicos, lucros que o Estado deixou de receber, empréstimos subsidiados aos compradores, obrigações junto aos fundos de pensão, moedas podres (dívidas securitizadas, debêntures da Siderúrgica Brasileira S.A. - Siderbrás, certificados de privatização, Fundo de Compensação das Variações Salariais-FCVS, Títulos da Dívida Agrária-TDAs e outras ‘moedas’), e ainda o dinheiro em caixa e receitas potenciais simplesmente repassadas aos novos proprietários, além de gastos com as campanhas de deformação da imagem das estatais, o resultado muda do tal lucro de 100 bilhões de dólares para um prejuízo de mais de 30 bilhões de dólares” (Álvaro Queiroz, art. cit.).

Realmente, o povo tem todas as razões para odiar a privatização. No estudo citado, o professor Pochmann constata que houve 546 mil demissões nas empresas privatizadas – foram demitidos 43,9% dos funcionários de empresas antes federais, estaduais ou municipais. Reparemos que nesse número estão apenas os demitidos após a privatização, não estando os que foram demitidos antes, na preparação para a privatização. Também não estão aí as demissões nas empresas privadas nacionais que eram fornecedoras das estatais, cujos produtos, após a privatização, foram substituídos por importações.

Um golpe especialmente cruel foi assestado sobre os trabalhadores de até 24 anos – seu número no setor estatal foi reduzido em 73,4%. Como nota Pochmann, até então o setor público era decisivo na entrada de jovens no mercado de trabalho.

Os recursos da privatização das teles e das empresas de eletricidade não serviram para financiar “a  sobrevalorização do real e os juros siderais”. O real foi sobrevalorizado e os juros colocados nas alturas porque era essa a política quando Serra era ministro do Planejamento. Os recursos dessas privatizações – 62% do total - serviram para que os Ricardo-Sérgios os embolsassem, mas, como se trata de um velho amigo, inclusive caixa de campanha, esse é um assunto desagradável para o governador...

As privatizações das teles e das empresas elétricas serviram para que o usuário, isto é, o povo, fosse extorquido: o Tribunal de Contas da União (TCU), já em 2001, constatava um aumento de 2.100% na assinatura telefônica residencial, de 445% na tarifa da telefonia fixa e de 143% na de luz  - com uma inflação de 102% em oito anos. O que ainda é subestimado, pois não foi considerada a inflação apenas a partir da privatização.

Sobre as empresas de eletricidade, onde 80% da distribuição e 25% da geração foi entregue a monopólios estrangeiros, o apagão foi o seu epitáfio. Até os tucanos jogaram essa privatização ao relento.

Mas as teles privatizadas estão servindo para desnacionalizar a rádio e teledifusão, isto é, para que esses monopólios assaltem as TVs e rádios brasileiras.

TELEBRÁS

No entanto, até hoje há alguns pilantras garantindo que houve um grande avanço tecnológico com a entrega da telefonia. A estupidez, em alguns elementos, realmente é infinita. A Telebrás foi uma das mais avançadas empresas do mundo, até que a proibiram de investir. Por sinal, os mesmos que tentaram fazê-lo com a Petrobrás, aquela empresa atrasada e mastodôntica que acaba de descobrir uma das maiores reservas de petróleo da História.

CARLOS LOPES

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