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Procurador: “Azeredo foi mentor e tinha ciência das ilicitudes”

“Houve desvio de recursos públicos do Estado de Minas Gerais, diretamente ou tendo como fonte empresas estatais”

A notícia do enquadramento do senador tucano Eduardo Azeredo pelo procurador-geral da República, por crime de roubo de dinheiro público para financiar sua campanha eleitoral em 1998, caiu como uma bomba no congresso do PSDB, realizado no último final de semana, em Brasília. Ao chegar ao evnto, Fernando Henrique Cardoso tentou, sem sucesso, esquivar-se do assunto. “Quem tem culpa no cartório, paga... Se houver culpa, o que vai fazer? Que assuma a responsabilidade”, respondeu ele aos repórteres presentes. CAMPANHA

De início pareceu que ele ia rifar sumariamente, como já tinha feito antes, o senador mineiro, mas logo em seguida se ajeitou e defendeu o assalto aos cofres das alterosas. Alegou que “no caso não é mensalão”. “Mensalão é outra coisa. Em Minas é financiamento de campanha”, explicou, acrescentando que “mensalão é o que o presidente Lula fez, e que consiste em gente receber dinheiro para ficar com o governo”, explicou.

Sem o menor vestígio de escrúpulo, FHC justificou o roubo dos cofres públicos desde que seja para financiar a reeleição de um tucano. Para financiar a campanha, segundo ele, vale tudo, inclusive meter a mão no Erário como fez o senador Azeredo. Já em relação aos outros, caixa dois é pretexto para muita demagogia. E mais, caixa dois que não é do PSDB, não é caixa dois , “é mensalão”.  

Por fim, como profundo conhecedor de compra de votos em troca de apoio, FHC jurou de pés juntos que quem fez isso não foi ele. “Foi o presidente Lula”. Ou seja, a compra de votos para garantir sua reeleição, em 1997, fazem parte, segundo ele, da ética tucana levada a cabo, é claro, pelo notório Sérgio Motta. E ainda repete a história do mensalão  achando que alguém em sã consciência pode dar crédito a essa invenção badalada à exaustão pela mídia golpista, de que o atual governo comprou votos de parlamentares petistas para que estes votassem com o governo do próprio PT.

Mas, ao entrar nos detalhes da operação de Azeredo & Cia, desmascarada inicialmente pela Polícia Federal e agora pela Procuradoria-Geral, pode-se observar, como o HP já havia alertado, em sua edição de 21 de setembro de 2005, como os cofres públicos foram assaltados sem a menor cerimônia em Minas Gerais. Várias empresas estatais mineiras foram sangradas para regar os cofres da campanha tucana de 1998. O procurador Antônio Fernando de Souza, cerca de dois anos depois da denúncia do HP, apontou agora alguns desses crimes em seu relatório: “Houve desvio de recursos públicos do Estado de Minas Gerais, diretamente ou tendo como fonte empresas estatais”, diz o relatório. “Entre elas, prossegue, “estão a Companhia Mineradora de Mina Gerais (Comig), a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e o Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge)”.    

Segundo a denúncia do procurador, os valores subtraídos ao Erário de Minas chegaram a R$ 3,5 milhões. “Houve desvios de recursos públicos praticados em detrimento da Companhia de Saneamento de Minas Gerais – Copasa e da Companhia Mineradora de Minas Gerais – Comig, no montante de um milhão e quinhentos mil reais cada um, além do desvio de quinhentos mil reais do Grupo Financeiro do Banco do Estado de Minas Gerais – Bemge”, afirma no documento.

Junto com o senador Eduardo Azeredo (PSDB -MG), que era candidato à reeleição ao governo de Minas, em 1998, foram citados outros 14 envolvidos nas operações ilegais. Além disso, o relatório indica também que os tucanos Danilo de Castro e Mauri Torres (ver matéria ao lado)- secretário estadual de Governo e líder de Aécio na Assembléia Legislativa, respectivamente - avalizaram, em novembro de 2004, após as eleições municipais, empréstimo de R$ 707 mil que a agência de publicidade SMPB, então de Marcos Valério, tomou no Banco Rural.

Conforme dissemos, o HP já tinha adiantado em sua edição de setembro de 2005 que parte do dinheiro público repassado para o esquema de Azeredo foi viabilizado através do evento esportivo alusivo ao 7 de Setembro, o “Enduro da Independência”. Uma das empresas do grupo empresarial de Marcos Valério, Ramon Hollerbach, Cristiano Paz e Clésio Andrade (SMP&B Publicidade) tinha o direito de exploração exclusiva do evento. A distribuição ilícita dos recursos sob pretexto de financiar o evento ocorreu da seguinte forma: Copasa: um milhão e quinhentos mil reais; e Comig: um milhão e quinhentos mil reais.

Apesar de não ter sido computado no total revelado pela Procuradoria foram desviados do Estado para a campanha tucana, segundo o mesmo relatório, mais R$ 1.673.981,90 da Cemig (Centrais Elétricas de Minas Gerais) para o financiamento da campanha. A alegação foi a de custeio da produção de revistas, cartazes e folhetos para os mesmos eventos acima citados.

DEPÓSITOS

Os recursos da Cemig foram depositados no dia 21 de outubro de 1998, na conta da SMP&B, empresa da qual Clésio Andrade, vice na chapa de Azeredo, tinha sido sócio. A análise da movimentação bancária da SMP&B demostrou que no dia seguinte ao depósito, 22 de outubro, a mesma SMP&B distribuiu R$ 1.162.459,28 para os apoiadores do então candidato à reeleição, Eduardo Azeredo, através de dezenas de transferências bancárias realizadas no Banco de Crédito Nacional (BCN).

O relatório da Polícia Federal já havia apontado que a campanha de Azeredo tinha sido abarrotada com dinheiro público, criminosamente desviado para esse fim. A PF também já havia demonstrado de forma inequívoca e com minúcia de detalhes, a responsabilidade direta do então governador de Minas no assalto perpetrado contra o erário.

Em um dos itens do relatório, no depoimento de Cláudio Mourão, coordenador financeiro da campanha de Azeredo em 1998, ele diz ter mantido contato com Cristiano Paz. E que, através dele encontrou com Marcos Valério. Mourão revelou que este último conseguiu um empréstimo no valor de 2 milhões de reais com o Banco Rural, repassando à campanha de Azeredo. Segundo o procurador, os recursos da Copasa foram empregados para quitar este empréstimo.

MENTOR

“É fato comprovado”, conclui o procurador, “que Eduardo Azeredo foi um dos principais mentores de toda a gama de ilicitudes praticada. Nesse contexto, tinha ciência que estava recebendo, em sua conta de campanha todos os recursos do esquema ilegal”.

SÉRGIO CRUZ
 

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