Para o Iedi, BC deve baixar o juro
e não temer avanço da produção
“O nível atual de utilização de capacidade
instalada na indústria não ameaça as metas de inflação, mas tem sido alto o
bastante para incentivar novas
decisões de investir”
Na penúltima reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco
Central, nesta quarta-feira, vários fatores apontam a necessidade da redução da
taxa Selic: a inflação abaixo da meta, a expansão dos investimentos e do
crescimento, o nível de utilização da capacidade instalada e a sobrevalorização
do real.
O final do ano se aproxima e os costumeiros cenários sombrios sobre os riscos
inflacionários constantes nas sucessivas atas do Copom e nos relatórios de
inflação – pretextos para a manutenção das altas taxas de juros reais – não se
confirmam. O IPCA registrado em setembro foi de 0,18%, ante 0,47% do mês
anterior. Aliás, o relatório divulgado pelo BC no final de setembro aponta para
este ano uma inflação de 4,0%, abaixo, portanto, da meta de 4,5%.
Diz o relatório de inflação que “tendo em vista o comportamento recente das
taxas de utilização da capacidade, a aceleração da expansão dos investimentos
será fundamental para evitar que, ao longo dos próximos trimestres, aprofunde-se
o descompasso verificado entre a evolução da oferta e da demanda agregada ao
longo dos últimos trimestres”. Ora, a melhor maneira de viabilizar um
aceleramento dos investimentos é exatamente a redução da taxa de juros. Do lado
do governo, a decisão de ampliar os investimentos não precisa ser demonstrada, o
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) fala por si só – inclusive com
reflexos no último resultado do PIB, com variação de 5,4% no segundo trimestre.
A produção industrial medida pelo IBGE indica que no acumulado do ano, até
agosto, a expansão foi de 5,3%, na comparação com o mesmo período do ano
passado. O índice acumulado até julho havia sido de 5,1% e até junho, de 4,8%.
MAIS INVESTIMENTOS
No Encontro Nacional da Indústria da Construção, realizado no início do mês em
Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a necessidade da
ampliação dos investimentos, entre outras coisas, pelo crescimento da capacidade
instalada. “É visível, bastante perceptivo que o Brasil vive um momento
importante, e vive para quase todos os segmentos da sociedade brasileira. Aliás,
hoje, a indústria atingiu 87% da sua capacidade instalada e isso, para mim, é
uma alegria e ao mesmo tempo uma preocupação, porque significa que precisa de
mais investimentos para que as empresas possam crescer porque senão – na medida
em que há procura, a demanda vai ficar maior do que a oferta – nós poderemos
incorrer em erros de outros momentos históricos que nós vivemos”.
A Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), através de consulta a 1.109 empresas entre 1º e 26 de setembro, mostra
que o nível de utilização da capacidade da indústria atingiu 86,1%.
“Da parte do governo não haverá dificuldades para fazermos as mudanças que
precisarmos fazer, não faltará crédito. E Deus queira que por conta desses
acertos nossos, não faltando crédito, não faltando disposição do governo e nem
faltando empresário com vontade de investir, haja bastante comprador das coisas
que a gente vai produzir”, afirmou o presidente.
Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) “o nível
atual de utilização de capacidade instalada na indústria não ameaça as metas de
inflação, mas tem sido alto o bastante para incentivar novas decisões de
investir. Portanto, se a política monetária interromper a redução de juros, não
terá efeito benéfico sobre a inflação, podendo, no entanto, concorrer para a
queda do investimento e do crescimento da economia”.
Ainda segundo o Iedi, “por caminharem juntos a produção e o produto potencial da
indústria, o grau de utilização da capacidade produtiva pouco se altera. Isso
resulta dos investimentos que vêm sendo executados pelo setor”. Para o
Instituto, “não há nenhum sinal de excessiva ampliação do grau de utilização nos
últimos meses. Não há porque, portanto, por este ângulo temer o avanço da
produção da indústria”.
Além disso, é evidente que a manutenção da Selic em um patamar alto (11,25% ao
ano) tem possibilitado a arbitragem entre os juros externos (baixos) e os juros
internos (altos), particularmente com a redução da taxa básica de juros
norte-americana em 0,5 ponto percentual e com a especulação de que o Fed (BC
norte-americano) vá promover uma nova redução no próximo dia 31. O resultado é
que o afluxo de capitais especulativos tem mantido a cotação da moeda
norte-americana lá em baixo, chegando a ser negociado a R$ 1,785 na quinta-feira
(11). O fato é que dólar ladeira abaixo obrigou o BC a voltar a atuar no chamado
mercado de câmbio para tentar evitar uma queda ainda maior.
VALDO ALBUQUERQUE