Jintao: “disparidade crescente da renda tem de ser revertida”
O secretário-geral do PC e presidente chinês, Hu Jintao, afirmou ao 17º
Congresso do Partido que “o ser humano é o elemento primordial para um
desenvolvimento sustentável, geral e equilibrado”
Em seu discurso na abertura do 17º congresso do Partido
Comunista da China (PCCh), o secretário-geral e presidente chinês Hu Jintao,
afirmou aos mais de 2200 delegados que “a crescente disparidade de renda
deve ser revertida” e destacou que “se exige uma maior coordenação do
desenvolvimento interno com a abertura ao exterior”. Ele convocou os
delegados presentes e todo povo chinês “a manter bem alto a bandeira do
socialismo com características chinesas”, lembrou os recordes de crescimento
alcançados pela economia chinesa, a que mais cresce no mundo, e acrescentou
que a “a concepção científica do PCCh considera o ser humano como elemento
primordial para o desenvolvimento sustentável, geral e equilibrado”. Sobre
os cinco anos transcorridos desde o congresso anterior, disse terem sido
“extraordinários”.
OBJETIVOS DA CHINA
Iniciado no dia 15 no Palácio Geral do Povo, na Praça da
Paz Celestial, em Pequim, o congresso irá até o dia 21, com a incumbência de
apontar objetivos para a China, eleger nova direção do partido e sua
comissão disciplinar. Em seu pronunciamento de duas horas e meia, após
assinalar que “a força econômica” da China “se potencializou notavelmente” –
um fato bastante conhecido – Jintao manifestou-se sobre as contradições
geradas no processo de desenvolvimento adotado – além da já citada crescente
disparidade de renda interna e, da assim, indesejada disparidade social.
Para o líder chinês, são fatos decorrentes da “etapa primária do socialismo”
em que o país se encontra.
“Segue sendo pouco elevado o nível geral
das forças produtivas e pouco forte a capacidade de inovação autônoma, e as
contradições estruturais e o modo de crescimento extensivo formados durante
largo tempo permanecem sem mudar radicalmente”, considerou Jintao, embora
com a ressalva de que o assim chamado “regime de economia de mercado
socialista” tenha sido “estabelecido preliminarmente”. No balanço traçado
pelo líder chinês sobre essa “etapa primária do socialismo”, ele afirmou que
seu povo “alcançou em geral um nível de vida medianamente próspera” – mas
esse desenvolvimento não atingiu a todos. Como Jintao assinalou, “é
considerável o número de habitantes pobres ou com renda baixa nas áreas
rurais e urbanas”, apesar dos “notórios êxitos” dessa política.
Essa tendência de aumento da disparidade na renda “continua
sem ser revertida de maneira radical”, enfatizou Jintao. O desenvolvimento
que efetivamente ocorreu “não mudou a situação de debilidade na base
agrícola e de retardo das zonas rurais no desenvolvimento e, em
conseqüência, é árdua a tarefa de reduzir a diferença de desenvolvimento
entre a cidade e o campo e entre as diversas regiões, e de promover um
desenvolvimento coordenado entre a economia e a sociedade”.
NOVAS EXIGÊNCIAS
Em seu informe ao congresso, Jintao destacou “a concepção
científica do desenvolvimento”, que o partido “formulou a partir de nossas
condições nacionais básicas na etapa primária do socialismo, tomando como
referência as experiências estrangeiras sobre a questão e em adaptação às
novas exigências do desenvolvimento”. Avaliando as contradições geradas pelo
modelo adotado pela China há mais de duas décadas, Jintao assinalou que
enquanto “a abertura ao exterior vem aumentando, a concorrência que
enfrentamos no plano internacional se torna a cada dia mais acirrada,
perdura a pressão que pressupõe a superioridade econômica, científica e
tecnológica dos países desenvolvidos e crescem os riscos previsíveis e
imprevisíveis, pelo que se exige uma maior coordenação do desenvolvimento
interno com a abertura ao exterior”.
No discurso, Jintao também apresentou os objetivos do PCCh
e da China: “um grande país socialista de antiga civilização, que completou
basicamente sua industrialização, com seu poderio nacional geral
significativamente aumentado e com o mercado doméstico como um dos maiores
do mundo”. “Também garantirá condições de vida marcadamente melhoradas para
todo o povo, mais extensos direitos democráticos, padrões éticos mais
elevados, e uma vitalidade social maior conjugada com estabilidade e
unidade”, apontou. No processo de alcançar esse objetivo, Jintao apresentou
ao congresso a meta de que até 2020 a China multiplique por quatro o PIB per
capita do ano 2000.
CRESCIMENTO
Tal crescimento, que é viável, será acompanhado por medidas
destinadas a “reverter a crescente disparidade”. Jintao anunciou a
intensificação da regulação de renda por meio de taxação; quebra de
monopólios privados, criação de igualdade de oportunidades e supressão de
práticas ilegais. Ele acrescentou que “esforços vigorosos serão feito para
elevar os salários dos grupos de baixa renda, gradualmente aumentar o
auxílio contra a pobreza e o salário mínimo, e estabelecer um mecanismo de
pagamentos regulares para os empregados nas empresas privadas”. Também serão
tomadas medidas para “regular as rendas excessivamente altas e para banir os
ganhos ilegais”. Ele prometeu, ainda, aprofundar as mudanças no sistema de
distribuição de renda, para a eliminação da pobreza absoluta. O relatório de
Jintao incluiu planos detalhados para melhorar as condições de vida do povo
e assegurar direitos à educação, emprego, assistência médica, moradia e
aposentadoria.
“ETAPA PRIMÁRIA”
Ainda de acordo com o discurso, a China seguirá, por um
determinado tempo, na “etapa primária do socialismo” – o que pode ser
entendido também pelo fato do país ter concentrado até aqui no crescimento
da indústria leve e de exportação e não da indústria pesada. “Uma clara
compreensão dessa condição não significa que devemos nos subestimar
apressadamente, resignando-nos ao atraso, nem nos apartemos da realidade
para proceder com precipitação em busca de resultados imediatos, sem
insistir na referida condição como fundamento substancial para impulsionar a
reforma e projetar o desenvolvimento”, afirmou Jintao. “Temos que solucionar
com diligência os problemas ligados aos interesses do povo que mais o
preocupam e afetam de maneira mais direta e imediata, em um esforço para
configurar uma situação em que todos os integrantes do povo possam aportar
[sua contribuição] segundo sua capacidade, ocupar cada um seu posto
adequado, e conviver em harmonia, proporcionando assim um entorno social
propício ao desenvolvimento”.
Jintao afirmou, também, que a “a democracia popular é o
elemento vital do socialismo”. Declaração que levou a mídia imperial a chiar
de que ele estava “fechando as portas” da “reforma”; não cansam de sonhar
com um “Gorbachov” ou um “Yeltsin” chineses. Jintao acrescentou que “a
essência e o núcleo da política democrática socialista, objetivo pelo qual o
partido luta invariavelmente, reside no status do povo como dono do país”.
Ele convocou ao pleno exercício dos direitos democráticos conforme a lei, e
assinalou que a supervisão, pelo povo, dos quadros do partido e do governo,
constitui “a via mais eficaz e mais ampla” pela qual o povo pode fazer valer
sua condição de dono do país, devendo assim “ser prioritária para o
desenvolvimento da política democrática socialista”. Dirigindo-se às
autoridades da província chinesa de Taiwan, ainda não reunificada – o que já
ocorreu com Hong Kong e Macau – Jintao propôs um acordo de paz e ampliação
dos laços, dentro do princípio de “uma única China”.
ANTONIO PIMENTA