Misérias e
glórias do xadrez (5)
A cruzada anti-stalinista dos kruschevistas, a partir de 1956, e sua relação
com a campanha contra o campeão Botvinnik, que personificava uma época que
eles, na impossibilidade de eliminar da História, queriam demonizar,
repetindo a propaganda anti-soviética da década de 30
CARLOS LOPES
A
propaganda anti-soviética em torno do match Botvinnik-Bronstein não teria
maior importância se não fossem as declarações posteriores de Bronstein. É
nelas, e nas de Yuri Averbakh, que se baseia o atual qüiproquó sobre o
assunto. Por isso, vale a pena um rápido exame dessas declarações. Na
verdade, nos limitaremos a uma declaração de Bronstein, que nos
parece especialmente elucidativa.
Em
“Aprendiz de Feiticeiro”, Bronstein, na ânsia por mostrar que os comunistas
são trapaceiros, diz, sobre sua escolha como desafiante de Botvinnik, em
1950: “Isaac Boleslavsky estava liderando o Torneio de Candidatos, mas,
depois de uma conversa com Boris Vainstein [então presidente da
Federação Soviética de Xadrez], decidiu maneirar [to slow down –
literalmente, “dar uma freada”] para permitir-me empatar com ele em
primeiro lugar” (“The Sorcerer’s Apprentice”, pág. 107, Cadogan Books,
1995).
Em suma,
Bronstein está dizendo que os soviéticos roubaram, isto é, trapacearam, a
seu favor. Resta saber porque os comunistas iriam trapacear a favor de
um anti-comunista, filho de um condenado por conspiração contra o Estado,
preterindo um jogador (Boleslavsky) que não tinha nenhum desses problemas –
e que sempre mostrou um respeito por Botvinnik de que Bronstein era
realmente incapaz.
Resta
saber, também, porque iriam trapacear para que o desafiante do campeão fosse
um jogador que, fora de dúvida, ele teria muito mais dificuldade em vencer,
se a intenção deles (essa é a tese de Bronstein) era facilitar a vitória de
Botvinnik. Como observa Taylor Kingston, comentando o mesmo trecho do livro
de Bronstein, em 1950 o retrospecto de Botvinnik era ruim em relação a
Bronstein (uma derrota, um empate e nenhuma vitória), mas não em
relação a Boleslavsky (7 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota).
Então,
qual o sentido dos soviéticos trapacearem a favor de Bronstein? Para
complicar a vida de quem eles queriam que ganhasse? Ou para se arriscar a
ter mais uma dor de cabeça – um “dissidente” como campeão do mundo, no
esporte mais popular do país?
Bronstein,
nessa declaração, joga com o fato de que Boleslavsky era pai de sua terceira
mulher, Tatiana. Logo, supõe-se, ele estaria informado da trapaça pela
própria vítima. Mas, convenientemente, quando “Aprendiz de Feiticeiro” foi
publicado (1995), já havia 18 anos que Boleslavsky não estava mais neste
mundo. Porém, havia quase 40 anos (desde 1956) que qualquer declaração
manchando a época de Stalin seria bem recebida pela imprensa e pela nova
cúpula da URSS – sobretudo nos 10 anos anteriores, pois, desde 1985,
Gorbachev era o secretário do PCUS. No entanto, essa declaração somente
apareceu em 1995, alguns meses após a morte de Botvinnik.
FRACASSO
Porque
Bronstein deu essa declaração ridícula, não é difícil de perceber. Ele não
tinha como dizer – e, realmente, não disse – que o match com Botvinnik havia
sido uma trapaça: os soviéticos permitiram até mesmo que ele levasse uma
claque para a sala onde se realizava o match – e os árbitros, Opocenski
(Tchecoslováquia) e Stahlberg (Suécia), deixaram até que ele regesse
pessoalmente a claque, como na decisiva 23ª partida, para aplaudi-lo e
hostilizar o oponente.
Bronstein
também não podia dizer que, em algum momento do processo de sua escolha como
desafiante, teria sido vítima de uma trapaça. Afinal, os soviéticos não
fizeram objeções à sua participação no Interzonal - e ele ganhou
tanto o Interzonal, quanto o Torneio de Candidatos. Assim, para mostrar que
os soviéticos eram trapaceiros - e que, supostamente, ele tinha provas de
tal coisa – não havia outra solução, senão escolher a si próprio como
beneficiário da fraude e a seu falecido sogro como vítima, pois somente ele,
Bronstein, e mais ninguém, teve um resultado superior ao de Boleslavsky.
Logo, se houve trapaça, só poderia ser a seu favor. Portanto, a prova da
trapaça dos soviéticos é a sua própria vitória na escolha do desafiante de
Botvinnik.
Bronstein
e algumas cabeças de alfinete que lhe seguiram não se aperceberam de que, se
essa história fosse verdade, ela, antes de tudo, provaria que os soviéticos
da época de Stalin eram doidos varridos, que trapaceavam contra seus
próprios interesses, para beneficiar os adversários...
As razões
reais do fracasso de Bronstein foram sucintamente expostas por seu oponente:
“Bronstein era na época indubitavelmente um jogador forte, mas seu
talento era marcado por uma limitação. Ele era bom nas complicações do jogo
de peças, e dispunha-as no tabuleiro de forma muito bem sucedida do ponto de
vista das considerações gerais. (....) mas quando era necessária a precisão
da análise para procurar exceções às regras, Bronstein não era tão forte. A
análise precisa é necessária no final de jogo, quando um jogador não tem
direito de cometer erros, exatamente como um sapador na guerra. Se Bronstein
fosse forte nos finais, então, seguramente, eu teria perdido o match. Além
disso, fui favorecido pelas deficiências humanas e competitivas do
desafiante – uma inclinação para a excentricidade, afetação e ingenuidade em
suas táticas de competição” (Botvinnik, “Achieving the Aim”, pág. 130,
Pergamon Press, Londres, 1981 – a primeira edição russa é de 1978).
HELSINQUE
Uma
sociedade dirigida por pessoas que admitem como verdadeira a versão de sua
História forjada pelos que querem destruí-la, está, cedo ou tarde, destinada
a ser destruída. Se foi isso o que ocorreu em geral na URSS, a partir de
1956, também foi verdade no restrito campo do xadrez soviético.
No
terceiro volume de suas “Partidas Selectas” (usamos a edição Eseuve, em
castelhano), Mikhail Botvinnik relata como, após sua derrota para Vassily
Smyslov, em 1957, “sofri pressões para convencer-me de que não pedisse a
revanche”. No entanto, o match-revanche fazia parte das regras da FIDE,
em caso de derrota do campeão. “Depois da análise das partidas do match,
resolvi não queimar incenso aos deuses (....). O match-revanche celebrou-se
na primavera de 1958. (....) A preparação foi simples, o match perdido me
proporcionou abundante informação. (....) Na 15ª partida eu já tinha
vantagem de 4 pontos”. Botvinnik conta, em seguida, como, nesta
partida, depois de obter posição ganhadora antes do adiamento, subestimou o
oponente e, no dia seguinte, tendo que analisar durante a partida o que
deveria ter analisado durante a noite, perdeu porque ultrapassou o tempo
permitido: “em vez de 5 pontos de vantagem, tive de conformar-me com
três. (....) mas conquistei o título de campeão”.
O que vem
logo em seguida é ainda mais significativo: “Meus colegas (e não
somente eles) mostraram seu descontentamento. Compreendiam que ainda que
pudessem superar o campeão vigente num match, depois, em um match-revanche,
a preparação se fazia notar... e, às minhas costas, começou uma campanha
pela supressão do match-revanche” (grifo nosso).
Botvinnik
não relaciona essas pressões e essa campanha com os acontecimentos políticos
ocorridos após o XX Congresso do PCUS. Porém, nos parece evidente a relação:
os kruschevistas, a partir de 1956, estavam alucinados em sua cruzada
“anti-stalinista”. Queriam apagar tudo o que tivesse o nome de Stalin – ou
lembrasse a sua época. O fato disso ser impossível, apenas os deixava mais
histéricos.
Botvinnik,
campeão soviético em 1931, 1933, 1939, 1944, 1945 e 1952, condecorado por
Stalin após sua vitória de 1936 em Nottingham (a primeira de um jogador
soviético no exterior), campeão do mundo em um esporte popular na URSS, e
fundador da própria escola soviética de xadrez, era quase tudo o que eles
detestavam: uma das personificações de uma época que eles, na
impossibilidade de eliminá-la da História, queriam demonizar, o que faziam
meramente repetindo, assumindo como verdadeira, a propaganda anti-soviética
e anti-comunista da década de 30.
Foi então
que começou a campanha contra Botvinnik, retratando-o como um ditador
super-poderoso do xadrez soviético na época de Stalin. Uma idiotice
completa. Basta lembrar a exclusão de Botvinnik da equipe soviética que
jogou na 10ª Olimpíada de Xadrez, em Helsinque, 1952 – portanto, com Stalin
ainda vivo. A exclusão foi articulada, entre outros, por Keres e Bronstein.
Devido à campanha contra Botvinnik, da qual Kasparov tem sido um especial
esbirro, relembramos brevemente os acontecimentos.
Durante o
treinamento, a equipe foi chamada, subitamente, para comparecer à sede do
Comitê de Esportes da URSS, na ausência de seu presidente, Romanov, que já
estava em Helsinque – e que havia insistido para que Botvinnik, que
mantivera recentemente o título mundial, fosse o primeiro-tabuleiro da
equipe. Transcreveremos o relato de Botvinnik - e já diremos ao leitor
porque este relato merece confiança:
“O
primeiro a ser chamado para falar com Ivanov, vice-presidente do Comitê, foi
Keres. Então, Keres saiu e eu fui chamado, acompanhado do pessoal
encarregado das sessões de treinamento e do staff de xadrez do Comitê. Em
minha presença foi dado um informe a Ivanov, segundo o qual tudo estava indo
bem, exceto que os membros da equipe consideravam que Botvinnik estava
jogando muito mal.
“Ivanov
colocou-me a questão: ‘você pode garantir que será o primeiro lugar no
primeiro-tabuleiro?’. Eu respondi: ‘peça a Keres para entrar, por favor’.
Tinha se tornado claro para mim que Keres tinha acabado de dar tal garantia,
em caso de substituir-me.
“Depois
de alguma confusão na sala, foi decidido chamar Keres de volta. Ele
apareceu, pálido e embaraçado. Eu percebi, então, que depois dessa
‘acareação’, Keres não seria capaz de jogar bem em Helsinque – ele é
psicologicamente instável. Jogar não é a mesma coisa do que dar garantias!
‘Eu
solicito que este assunto seja considerado numa reunião da equipe’,
declarei. E foi onde se ficou naquele momento”
(cf. “Achieving the Aim”, págs. 136/137).
Depois de
uma noite em claro, na manhã seguinte, quando Botvinnik entrou nos
sanitários do local onde os jogadores estavam concentrados, encontrou outro
integrante da equipe, Vasily Smyslov. Fez a pergunta à queima-roupa: “Vasily
Vasilyevitch, você informou que considera que eu não sei como jogar xadrez?”.
Smyslov estava escovando os dentes. E continuou escovando os dentes. Depois,
respondeu: “Eu não sabia que isso tudo viria à tona” (“Achieving the
Aim”, pág. 137 – Smyslov está vivo, e, evidentemente, também estava em
1978, quando foi publicado este relato de Botvinnik. No entanto, nunca o
desmentiu).
Então,
aceitando a proposta de Botvinnik, o Comitê de Esportes reuniu a delegação:
“Keres disse que Botvinnik estava em má forma, e que não era possível
melhorar a forma rapidamente (ele esqueceu de acrescentar que é possível a
alguém perder a forma rapidamente!). Bronstein disse que se Botvinnik
estivesse para perder um peão, ele perderia o jogo, mas que, se Keres
perdesse um peão, ele faria uma coisa ou outra para conseguir um empate (um
sábio pensamento!). Smyslov e Kotov simplesmente exigiram que eu fosse
excluído da equipe. Somente Boleslavsky manteve-se ao lado do campeão do
mundo. Eu fui substituído na equipe por Geller” (quando este relato
foi publicado na Rússia, dos participantes desta reunião, além de Smyslov,
estavam vivos Bronstein e Kotov – nenhum desmentiu Botvinnik).
Sobre a má
forma do campeão mundial em 1952, notemos, somente de passagem, que em
dezembro desse ano, portanto apenas alguns meses depois dessa reunião (e dos
sofríveis resultados de Keres como primeiro-tabuleiro da equipe soviética na
Olimpíada), Botvinnik venceu pela sexta vez o Campeonato da URSS. Keres foi
o 10º colocado; Smyslov, o 9º; e Bronstein, o 7º. Kotov não participou. Mas
Boleslavsky foi o quarto colocado.
Além de
Bronstein, a outra fonte da campanha contra Botvinnik é Yuri Averbakh,
principalmente através de suas entrevistas, onde procura avalizar cada uma
das calúnias presentes e passadas, mesmo àquelas que nem autores ocidentais
insistem mais, e mesmo àquelas que se referem a acontecimentos em que é
impossível que ele tivesse algum conhecimento de primeira mão.
As
entrevistas atuais de Averbakh procuram passar a idéia, ainda que às vezes
ambígua, de que ele foi um perseguido durante o socialismo. Nada mais longe
da verdade. Averbakh foi, durante muito tempo, o editor-chefe da principal
publicação soviética de xadrez – a revista “Xadrez na URSS” - e, depois,
presidente da Federação Soviética de Xadrez. Em suma, depois de ter sido um
bom jogador (foi campeão da URSS em 1953) e teórico, fez, depois de 1956,
carreira como “cartola”. Poucos enxadristas foram tão prestigiados na URSS
quanto Averbakh. E poucos se destacaram tanto pelo puxa-saquismo. Sua
ascensão coincidiu, precisamente, com o início da campanha anti-soviética –
ou contra a história soviética – dentro da URSS. Que ele atualmente use o
prestígio adquirido naquela época para se cacifar junto ao que há de pior na
Rússia e fora dela, é apenas um desdobramento lógico de sua carreira.
O
INVENCÍVEL
É
interessante que o autor americano Fred Reinfeld haja escolhido para título
de um de seus best-sellers enxadrísticos, “Botvinnik, o Invencível”. Pois,
como o próprio Botvinnik diz acima, ele estava longe de ser invencível no
tabuleiro. No entanto, ele dominou toda uma época, sem contestação, e é a
isto que Reinfeld se refere, com razão. Mesmo quando Vassily Smyslov – uma
rara vocação dupla, de cantor lírico e enxadrista – despontou com os
melhores resultados do mundo na década de 50, Botvinnik, ao fim e ao cabo,
manteve sua predominância.
O próximo
match pelo título mundial foi, exatamente, entre Botvinnik e Smyslov, que
saíra vencedor do Torneio de Candidatos de Zurique, em 1953. Smyslov era,
como Botvinnik, um estrategista (um “jogador posicional”, como dizem os
enxadristas). Era excelente tanto na defesa quanto no ataque, preciso nas
aberturas e, sobretudo, nos finais de partida. Além disso, como observou
Botvinnik, tinha uma capacidade especial para refutar linhas de jogo
preparadas de antemão – exatamente o elemento em que o seu oponente era
famoso. Em resumo, era um jogador sem as limitações de Bronstein.
Outra vez,
este match, disputado em 1954, foi um empate - com Botvinnik,
conseqüentemente, retendo o título de campeão. Mas esteve longe de ser um
match monótono. Nas seis primeiras partidas, Botvinnik tinha 3 vitórias
contra nenhuma de Smyslov. Nas cinco partidas seguintes, Smyslov venceu 4
vezes. Ficou, portanto, um ponto acima do campeão. Então, nas próximas 5
partidas, Botvinnik venceu 4 delas – e ficou dois pontos à frente do
desafiante. Porém, à beira do esgotamento, perdeu a 20ª e a 23ª partidas, e
a decisão foi para a última partida do match – mas esta foi um empate, e,
com 7 vitórias para cada um, o match de 24 partidas também terminou
empatado, com Botvinnik mantendo-se campeão.
Porém,
Smyslov venceu outra vez o Torneio de Candidatos (Amsterdã, 1956). E, no
match de 1957, “a luta transcorreu com êxitos de um lado e de outro, mas
depois não agüentei a dura prova, e V. Smyslov conquistou com brilhantismo o
título de campeão. (....) No período 1953-1958, Smyslov não conheceu
a derrota; este foi o cume de sua trajetória enxadrística” (Botvinnik,
“Partidas Selectas”, vol. 3). A observação “não aguentei a dura prova” é uma
referência de Botvinnik à sua idade: tinha 46 anos e Smyslov, 36. Dez anos
de diferença na idade, num match de 24 partidas, são um peso difícil de
neutralizar (em 1957, Botvinnik não chegou até a última partida - Smyslov,
com 12,5 pontos contra 9,5, conquistou o título na 22ª partida).
Mas, como
já vimos, ele ganhou o match-revanche em 1958. Continuava insuperável na
preparação teórica e psicológica, em especial na análise do estilo e das
características do oponente.
Apenas um ano depois, no
Congresso da FIDE, o campeão mundial seria surpreendido por uma decisão que
explodiu no mundo do xadrez como uma bomba. A FIDE aprovou o que a revista
inglesa “Chess” chamou de “a regra anti-Botvinnik” - com o apoio, para
surpresa ainda maior de Botvinnik, da delegação soviética. Mas deixemos isso
para a próxima edição, que o nosso espaço, por hoje, está no fim.