BC interrompe queda dos juros e afronta
esforço pelo crescimento
Contrariando o conjunto da nação, Copom
decide, por unanimidade,
manter a taxa Selic em 11,25%
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central in-terrompeu dois anos
de queda dos juros básicos (Selic) e decidiu nesta quarta-feira, por
unanimidade, manter a taxa em 11,25% ao ano. Com isso, o titular do BC, Henrique
Meirelles, põe em risco os esforços do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de
garantir o crescimento da economia na casa dos 5%. De acordo com o IBGE, o PIB
cresceu 5,4% no segundo trimestre em comparação ao mesmo período de 2006, e 4,9%
no primeiro semestre sobre os primeiros seis meses do ano passado.
Conforme análise do economista chefe do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (Iedi), Edgard Pereira, os indicadores da economia
não justificam a decisão do Copom, que poderá comprometer a continuidade dos
investimentos dos setores produtivos. “É uma decisão desnecessária diante de uma
série de informações positivas da economia; a inflação está sob controle a não
há sinais de superaquecimento. A partir de agora, os empresários vão ficar mais
receosos, vão parar para pensar em fazer novos investimentos”, afirmou Edgard.
A decisão tomada por unanimidade também foi destacada pelo economista do Iedi.
“A decisão unânime é uma sinalização forte de que até o início do próximo ano
essa política não vai mudar. É uma sinalização ruim, principalmente porque a
decisão foi unânime. Isso mostra que o BC está preocupado com o aquecimento da
economia. Eu acredito agora que os empresários vão limitar os investimentos”.
Em nota de duas linhas, o BC afirma que após avaliar “a conjuntura
macroeconômica”, o Copom decidiu “fazer uma pausa no processo de flexibilização
da política monetária”, ou seja, uma pausa no crescimento do país. “Os efeitos
serão sentidos ao longo do ano que vem”, declarou Edgard Pereira. “Pode
comprometer o ritmo de crescimento da economia. Começa a ficar mais difícil a
manutenção [de crescimento de 5% ao ano] pela forma como a decisão foi tomada,
por unanimidade. É uma indicação de desaquecimento da economia”.
Quanto à produção industrial, que vem acumulando altas sucessivas - 6,8% no
segundo trimestre e 4,9% no primeiro semestre, segundo o IBGE -, “o efeito será
heterogêneo”, afirma Pereira. “Existem setores que estão crescendo forte. Os
setores que estão crescendo pouco são os mais voltados para o mercado interno,
de produtos com menor valor agregado. Esses poderão ser os mais penalizados”.
Em relação aos juros reais (descontada a inflação), com a decisão do Copom, o
Brasil continua sustentando a segunda colocação do ranking mundial, atrás da
Turquia. Considerando que o IPCA dos últimos 12 meses encerrados em setembro foi
de 4,20%, os juros reais ficam em 6,8% ao ano. Pesquisa realizada pela
consultoria “Up Trend”, usando como base informações de 40 países, mostra que a
Turquia mantém a primeira colocação com juros reais de 9% ao ano. O Brasil está
longe do terceiro posto, dividido entre Austrália, Israel, Inglaterra e
Filipinas, em torno de 4%. “Uma taxa acima de 5% é ruim, não tem efeito
expansivo para a economia”, diz Jason Vieira, economista chefe da “Up Trend”.
A interrupção da queda dos juros também influencia diretamente na taxa de
câmbio, prejudicando as exportações. Além de elevar o endividamento das
famílias, os juros altos impedem a formação do crédito de longo prazo. Os únicos
beneficiados com a política do BC de travar a queda da Selic são os bancos e
agiotas estrangeiros, que invadem o país com o propósito exclusivo de
multiplicar seus dólares, sem nenhum compromisso com investimentos que façam o
país crescer.
FREIO
Como havia declarado o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, na véspera da decisão
do Copom, “se puxar o freio de mão, o carro pode capotar. Deixa o carro andar”.
O ministro, que assim como todos os brasileiros comprometidos com o país
esperava a continuidade da queda dos juros, havia destacado que a trajetória de
queda da Selic nos últimos dois anos contribuiu para a expansão dos
investimentos da indústria, resultando no aumento da geração de emprego com
carteira assinada: “A economia está sob controle, a inflação está abaixo das
projeções e as empresas estão investindo pesado em todos os setores da economia
nacional”, declarou Lupi.
LUIZ ROCHA