Misérias e
glórias do xadrez (9)
A partir da década de 60, após
o auge de Boris Spassky, o xadrez soviético passa, pela primeira vez desde a
II Guerra Mundial, por uma entressafra
CARLOS LOPES
Tigran Petrosian foi, ao mesmo tempo, um dos jogadores de xadrez mais
originais da história e um dos mais subestimados – sobretudo, na época, pela
imprensa soviética. Por isso, vale a pena reproduzir o juízo do campeão que
ele derrotou em 1963:
“Petrosian possui um talento único em xadrez. Como Tahl, ele não esforça-se
para jogar ‘de acordo com a posição’, no sentido em que antes isso era
entendido. Mas enquanto Tahl tentava alcançar posições dinâmicas, Petrosian
criava posições nas quais os eventos se desenvolviam como num filme em
câmara lenta. É difícil atacar suas peças: as peças atacantes só avançam
lentamente, atoladas no pântano que cerca o campo das peças de Petrosian.
Se, finalmente, você arma um ataque, então resta pouco tempo, ou a fadiga
entra em jogo. Para entender a força do novo campeão, é necessário também
notar a excelente técnica de Petrosian na realização da vantagem posicional”
(Botvinnik, “Achieving the Aim”, ed. cit., pág. 172 – o grifo é nosso).
Avaliação essa que tem algum parentesco com o comentário de Fischer, na
análise de sua partida com Petrosian, no Torneio Interzonal de Portoroz: “Eu
estava pasmado no transcorrer do jogo. Cada vez que Petrosian conseguia uma
boa posição, ele manobrava para obter uma melhor” (Fischer, “My 60 Memorable
Games”, ed. cit., pág. 27).
Botvinnik lembra, também, que, apesar de não haver “jogado muito bem”
durante o match, “minha forma não era de todo má: três meses depois, na
Spartakíada dos Povos da URSS, fiz 8 pontos em 9 possíveis!”.
Porém, a consideração de que Petrosian “não esforça-se para jogar de acordo
com a posição” pode levar a uma idéia errônea do seu estilo. Ao contrário de
Tahl, com quem Botvinnik o compara, Petrosian foi um jogador com um sentido
de posição (ou seja, senso estratégico) além das concepções anteriores, daí
a observação de que ele não jogava “de acordo com a posição no sentido em
que antes isso era entendido”. Realmente, Petrosian extraiu, pode-se dizer,
as últimas conseqüências do conceito de posição, formulado por Steinitz (v.
parte 1 desta série) na segunda metade do século XIX. Ou seja, Petrosian
subiu um novo degrau na estratégia em xadrez.
Para não dificultar a compreensão dos leitores que não são enxadristas,
ficaremos por aqui a respeito dessa questão, acrescentando apenas a síntese
de Petrosian: “Estou absolutamente convicto de que no xadrez – apesar dele
continuar sendo um jogo – nada é acidental. Este é o meu credo”. Observemos
que tal formulação vai além, por exemplo, da declaração de Capablanca: “não
acredito em combinações que não sejam rigorosamente calculadas”, na qual o
leitor poderá, sem prejuízo do conteúdo, substituir “combinações” por
“seqüências de jogadas”.
DEFESA
Petrosian foi, provavelmente, o único gênio defensivo do xadrez, e a maior
demonstração desse talento é que conquistou duas vezes o título mundial –
contra Botvinnik e, depois, contra Spassky, então em pleno auge. Como ele
mesmo advertiu, “eu sou um sujeito cauteloso. Em meu estilo, como num
espelho, está refletido o meu caráter. Entretanto, eu estou certo de que é
impossível vencer dois campeões mundiais sendo apenas ‘cauteloso’” (Esta
citação de Petrosian, como as posteriores, são do livro de G. Hakobyan,
“Tigran Petrosian” - esse livro só existe, atualmente, em armênio, mas
alguns pequenos trechos foram traduzidos para o inglês no site “Chessgames”).
Em suma, ele não via a defesa como algo passivo. São notáveis as suas
partidas onde envolve progressivamente o oponente, deixando-o sem espaço e,
cada vez mais, sem opções de jogadas (“pode ser que eu goste de defender
mais do que de atacar. Mas quem provou que defender é menos perigoso do que
atacar?”).
Sintomaticamente, Kasparov, que adotou e tentou rebatizar algumas das
inovações de Petrosian (por exemplo, a chamada Variante Petrosian da Defesa
Índia da Dama, que quase se tornou a “variante Kasparov”), diz, em “Meus
Grandes Predecessores”, que o armênio era “o filho ideal de sua época.
(....) [uma época] de completo sufocamento da liberdade de expressão, de
diminuição na crença nos ideais comunistas, substituídos pelo conformismo,
reticência, cautela e discrição. Em Petrosian, com sua infância difícil,
quieta prudência e enorme talento natural, essas qualidades estavam
presentes em plena medida” (grifos nossos).
Kasparov nem mesmo consegue perceber a contradição evidente entre “enorme
talento” e as “qualidades” (?) de um burocrata cinzento, que atribui a
Petrosian. Mas, por que ele acha que o talento de Petrosian era “natural”?
Simplesmente porque é preciso que nenhuma característica positiva tenha a
ver com a sociedade em que Petrosian nasceu e viveu. Por conseqüência, seu
talento só pode ser um dom da natureza, um dom que, como raio em céu azul, a
natureza pode conceder até a um “conformista”, ou seja, a uma mediocridade.
Para completar esse mero mecanismo da propaganda reacionária, essa forjada
mediocridade - e só ela - é que tem a ver com a sociedade em que Petrosian
nasceu e viveu. Já o talento...
Mas isso é apenas mais um exemplo do vácuo moral de Kasparov, onde, há
muito, a coerência e a integridade foram extirpadas pelo oportunismo sem
escrúpulos. Para quem declarou, numa de suas viagens ao Brasil, que foi
perseguido pelos comunistas porque era filho de um judeu e de uma armênia,
tudo é possível. Já abordamos a suposta perseguição aos judeus e a
consideração que Kasparov mostrou pelo pai. Resta agora apontar que, no
livro que citamos, ele considera que a expressão maior no xadrez do regime
que o teria perseguido por ser filho de uma armênia, era um armênio... Será
que os comunistas só perseguiam os filhos de armênias, mas não os armênios?
Quanto à menção à “infância difícil” de Petrosian como origem de seu suposto
“conformismo”, aqui entramos no terreno da infinita canalhice. Que, como
quase sempre, é apenas uma projeção: Kasparov projeta, sobre um homem de
caráter incomensuravelmente superior, os seus próprios problemas. Mas não é
surpreendente que, por essa diferença de estatura, ele não consiga entender
que as dificuldades nem sempre esmagam as pessoas, e que, ao contrário,
muitos cresçam, e não pouco, ao enfrentar os desafios da vida.
TRAJETÓRIA
Realmente, o hoje famoso estilo defensivo de Petrosian parece ter profundas
raízes psicológicas. Armênio, ele nasceu na Geórgia. Perdeu seus pais
durante a II Guerra Mundial. Aos 15 anos, sem pai e sem mãe, assumiu a
criação de seus irmãos. Sua única distração, durante essa época, parece ter
sido o xadrez, descobrindo duas influências que o moldaram originalmente
como jogador: as obras de Nimzowitsch, o teórico da escola “hipermoderna”, e
as partidas de Capablanca. Sua primeira formação enxadrística, como a de
Tahl, foi feita entre os Pioneiros Soviéticos – a instituição
para-partidária que na URSS era dedicada às crianças.
Sua trajetória nunca foi fácil. Mas conseguiu sempre superar, com uma
tenacidade impressionante, as dificuldades. Esteve 10 vezes entre os
candidatos a desafiantes do campeão mundial - e venceu 4 vezes o Campeonato
da URSS, não perdendo uma só partida em seis deles (nas Olimpíadas, de 129
partidas que jogou, perdeu uma). Era, além de tudo, um excelente caráter, a
quem feria a incompreensão que seu estilo encontrou na época - como
registrou o ex-campeão norte-americano Arthur Bisguier, um dos primeiros,
após a morte de Petrosian, em 1984, a celebrá-lo.
Apesar de todas as dificuldades, Petrosian foi um homem feliz. Em sua
entrevista de 2003, a primeira mulher de Tahl, Sally Landau, lembra com
admiração – e alguma inveja - o amor do casal Petrosian, Tigran e Rona
Petrosian. Talvez o seu legado seja bem expresso por uma de suas
observações: “Todo jogador de xadrez, quando enfrenta seu oponente, também
enfrenta a si mesmo. Cada batalha é uma luta interior”.
SPASSKY
É possível que somente muito tarde os responsáveis pelo xadrez soviético
tenham advertido sobre a origem de certas debilidades de Boris Spassky. Se é
que chegaram a alguma conclusão sobre isso. No entanto, essas debilidades
eram sensíveis desde a primeira fase de sua trajetória – a fase que, depois,
iria provocar a admiração de Fischer. Nessa época ele parecia sempre
trair-se pelos nervos nos momentos decisivos. Sua derrota para Tahl na
última rodada do Campeonato Soviético de 1958 ficou famosa: naquele ano a
FIDE havia reduzido para quatro o número máximo de vagas para cada país no
Interzonal de Portoroz, de onde sairiam os candidatos a desafiante do
campeão mundial – uma decisão, por sinal, que afetava um só país: a URSS.
Spassky necessitava pelo menos empatar para disputar a quarta vaga
soviética. Ou seja, não podia perder, mas não precisava, necessariamente,
ganhar. Uma situação relativamente confortável, pois Tahl já estava
classificado para o Interzonal – mesmo se perdesse a partida, iria a
Portoroz. No entanto, é verdade, se Tahl quisesse garantir o bicampeonato
soviético sem depender do resultado de outros jogadores, precisava ganhar.
Para isso, o empate não lhe servia.
Spassky esteve em vantagem durante quase toda a partida – uma longa batalha
que durou 73 movimentos, ou seja, 146 jogadas. Após o adiamento, Spassky
conseguiu uma posição francamente ganhadora – e jogou a vitória pela janela
na 62ª jogada. Tahl igualou o jogo e propôs o empate. Spassky recusou – e
perdeu, depois de uma trinca de erros. Mais importante do que a derrota,
para entendermos Spassky, foi sua reação, depois contada por ele mesmo:
levantou-se da mesa chorando e assim percorreu, por horas e sem destino, as
ruas de Riga, onde se realizou o Campeonato da URSS de 1958.
No entanto, poucos jogadores foram tão insistentemente promovidos no meio
enxadrístico – ainda não era a época em que jogadores de xadrez se tornaram
assuntos da mídia em geral – quanto Spassky. No início da década de 60,
houve até quem propusesse um novo conceito: o “jogador universal”, isto é,
aquele que é capaz de dominar igualmente a estratégia e a tática – e adaptar
plasticamente o seu estilo ao do oponente. A base do suposto novo conceito
eram as vitórias de Spassky.
Em nossa opinião – que, sem dúvida, é discutível – tomava-se por qualidade o
que era um subproduto dos problemas não-resolvidos de Spassky, problemas que
lhe conferiam uma certa indefinição de personalidade, que seria fatal em
1972, no match com Fischer. Em suma, Spassky não era – e não é – um canalha,
mas era – e é - um homem muito dividido. Não por acaso, apesar de seus
pontos de vista políticos e os de Korchnoi serem aparentados, Spassky
(aliás, como Petrosian, Karpov, Botvinnik, e até Judite Polgar), jamais o
suportou. Ao contrário de Korchnoi, jamais traiu o seu país, mesmo quando,
depois de casar-se com uma francesa, resolveu sair dele e naturalizar-se
francês, em 1978. O que não quer dizer que não tenha – e hoje mais do que
antes – dito algumas coisas que, simplesmente, não são verdade. No entanto,
não parece que ele o faça por malignidade, mas por fraqueza e esmagamento.
Spassky aprendeu xadrez aos cinco anos, no trem em que viajava, quando
Stalin decidiu que as crianças de Leningrado fossem retiradas da cidade,
pouco antes que os nazistas fechassem o cerco que matou um milhão de seus
habitantes. Seus primeiros triunfos causaram sensação. E, depois da primeira
fase que mencionamos, ele pareceu se retemperar. No entanto, olhando para
sua trajetória enxadrística do começo ao fim, alguém já disse que Spassky é
o único jogador que chegou a campeão mundial e, apesar disso, sua história
sempre causa a impressão de que não realizou todo o seu potencial – e por
preguiça.
Este era, precisamente, um problema que Petrosian não tinha. Não é certeza
que, em meio à promoção de Spassky na URSS, ele tenha pensado em não
disputar o match de 1966 pelo título mundial. Segundo algumas versões, sua
esposa, Rona Petrosian, é que o teria estimulado a enfrentar o desafiante.
Sem dúvida, Rona deve tê-lo estimulado, como sempre fez. Porém, não nos
parece típico de Petrosian abandonar o título sem luta.
Mas, em março de 1966, quando os dois jogadores começaram o match, Spassky
era o franco favorito. Surpreendentemente, em meio a uma série de empates
(17 ao todo), Petrosian foi o primeiro a vencer, na sétima partida e,
depois, na décima. Spassky igualou a contagem, ao vencer a 13ª e a 19ª
partidas. Mas a tenacidade e a força de vontade eram o campo de Petrosian,
não de Spassky. Assim, logo na partida seguinte a que Spassky igualou,
Petrosian venceu e ficou um ponto à frente. Em seguida, ganhou também a 22ª
partida. Spassky conseguiu triunfar na 23ª e penúltima partida, mas não
conseguiu vencer Petrosian na última. Assim, o campeão conservou seu título,
vencendo por um ponto o desafiante – uma tarefa que nem Botvinnik havia
conseguido cumprir em seus primeiros matches.
Do ponto de vista da teoria do xadrez, havia sido um massacre – o placar,
por várias razões, inclusive o cansaço, nem de longe refletiu esse fato.
Pelo que ele mesmo conta, Spassky resolveu levar a sério a preparação
teórica nos três anos seguintes. Nas suas palavras, “tornei-me um
especialista no estilo de Petrosian”. Porém, para enfrentar Petrosian
novamente, ele teria que passar pelos matches entre os candidatos. E, com
efeito, derrotou Geller, Larsen e Korchnoi por contagens mais do que
convincentes.
Em março de 1969, quando começou o novo match entre Spassky e Petrosian, o
primeiro estava realmente bem preparado, ainda que também o campeão. Porém,
Petrosian já estava com 40 anos e Spassky apenas com 32. Não é uma diferença
pequena em um match de 24 partidas. E, como observou Botvinnik, que, nesse
particular, sabia, mais do que do que qualquer outro, do estava falando,
“infelizmente [Petrosian] nunca foi um pesquisador. Para tais jogadores, 40
anos é uma idade perigosa. Com o inevitável declínio da capacidade para o
cálculo, seu talento desbota muito – se não é polido novamente!” (“Achieving
the Aim”, pág. 173).
Mesmo assim, não foi um passeio: Petrosian ganhou a primeira partida e
Spassky somente igualou na quarta. Depois disso, venceu também a quinta e a
oitava, mas Petrosian não era um cachorro morto: venceu a 10ª e a 11ª.
Spassky voltou a ganhar na 17ª e na 19ª, e Petrosian descontou na 20ª. Mas
era tarde. Spassky ganhou a partida seguinte - e os empates na 22ª e 23ª
selaram o resultado.
Todas as previsões eram de um longo reinado para Spassky. Simplesmente
porque não havia nenhum jogador soviético no auge. Todos os outros grandes
jogadores já tinham passado do apogeu, e não havia ainda, na geração
seguinte à de Spassky, quem os substituísse à altura. Pela primeira vez
desde o fim da II Guerra, o xadrez soviético passava por uma entressafra.
Entretanto, com o afastamento de Fischer, então dedicado a suas atividades
religiosas, também não havia, entre os possíveis desafiantes estrangeiros,
algum que fosse capaz de derrotar Spassky. Portanto, os soviéticos teriam
algum tempo – pelo menos até 1975, com a conservação do título por Spassky
em 1972 – para preparar a nova geração.
A realidade, porém, não caminha de acordo com as ilusões. Alguém nos EUA
percebera a entressafra soviética e os problemas de Spassky, e não deixaria
passar a oportunidade – ainda que fosse preciso passar por cima de
estatutos, regulamentos, regras, e até de leis.
Foi então que, pouco antes de começar o Interzonal de Palma de Mallorca, em
novembro de 1970, um dos participantes dos EUA, o ex-húngaro Pal Benko,
desistiu do torneio para dar o seu lugar, precisamente, a Fischer, que nem
mesmo disputara uma vaga para ir ao Interzonal. Mas esse é o assunto da
próxima parte deste artigo.