Presidente eleita obteve 44,9% dos votos e venceu eleições no primeiro turno
Cristina conclama à
unidade para seguir caminho da reconstrução
Vitória de Cristina
correspondeu ao amplo apoio ao caminho de desenvolvimento soberano de
Kirchner: juros próximos a zero, decisivos para reconstrução do país que fez
PIB crescer em 51% e abriu mais de 3 milhões de postos de trabalho
A
senadora Cristina Fernández de Kirchner venceu as eleições presidenciais da
Argentina com 44,91% dos votos. A candidata da Frente para a Vitória, ampla
coalizão formada pelos setores majoritários do peronismo e uma
representativa parte do Partido Radical, se impôs no primeiro turno
ultrapassando a votação que receberam juntos Elisa Carrió e Roberto Lavagna,
segunda e terceiro colocados, com 22,95% e 16,89% respectivamente.
Em seu primeiro discurso proferido no palco montado no Hotel
Intercontinental de Buenos Aires, logo depois de anunciados os dados da boca
de urna, Cristina destacou que foi a vitória “com a maior diferença entre a
primeira e a segunda força desde a chegada da democracia”, frisando que
“isto, em lugar de nos outorgar privilégios, gera maiores responsabilidades
e obrigações”.
Também convocou a “todos os argentinos e argentinas a reconstruir o tecido
social e institucional ainda frágil no nosso país depois de anos de governos
anti-pátria” e ressaltou o papel da união, da concertação plural que “nos
permitiu construir este espaço superando velhas antino-mias”. Cristina assim
se referiu à antiga rivalidade entre os partidos Peronista e Radical na
Argentina. O vice-presidente eleito, Julio Cobos, da União Cívica Radical,
era governador da província de Córdoba, a terceira em importância econômica
do país. É a primeira vez que uma chapa de unidade entre as duas correntes
políticas se forma para disputar a eleição presidencial. É também a primeira
vez que na Argentina uma mulher se torna presidente pelo voto. Isabel Perón
ocupou a Casa Rosada depois do falecimento de seu marido, Juan Domingo
Perón, de quem era vice.
SOBERANIA
O inquestionável apoio da população argentina à continuidade do processo de
desenvolvimento econômico e social do país tem sua base nas medidas
soberanas aplicadas pelo atual governo encabeçado por Néstor Kirchner,
assegurou a presidenta eleita em entrevista na televisão na segunda-feira.
Com uma taxa de juros reais de 0,2% nos últimos 12 meses (de out/06 a
set/07, descontada a inflação), uma taxa de câmbio que favorece a economia
nacional (1 dólar = 3,15 pesos), o fim das privatizações, e um aumento da
intervenção do Estado, durante os pouco mais de quatro anos do governo
Kirchner se produziu um aumento simultâneo do emprego e do salário real só
comparável com o ocorrido no segundo qüinqüênio da década de 1940. Esse
período corresponde à primeira presidência do general Perón. Entre 2003 e
2007 foram abertos 3.100.000 novos postos de trabalho e o salário médio
cresceu em 36%, em termos reais. São dados do informe de outubro sobre a
Situação Trabalhista e Social na Argentina, elaborado pela Sociedade de
Estudos Trabalhistas, SEL, que acrescenta que nos anos do governo Kirchner
(de 25 de maio de 2003 até hoje), o Produto Interno Bruto, PIB, da Argentina
cresceu 51%.
Após o colapso de 2001 com o modelo de privatizações sem controle, tipo de
câmbio fixo e abertura para as importações de Carlos Menem e da frouxidão de
Fernando de La Rúa, a Argentina viveu em 2002 a maior recessão econômica de
sua história com uma queda de 10,7% de seu PIB e o desemprego chegando aos
21,5% da população ativa no mês de maio. Desde 2003, sob a presidência de
Kirchner, o crescimento do PIB se manteve em cerca dos 9% ao ano.
“Nos últimos quatro anos e meio foram criados 3.100.000 empregos, e esse
fato voltou a colocar os cidadãos no lugar em que devem estar. Pode parecer
uma cifra econômica, mas quando um trabalhador desempregado volta a ter um
emprego pode reorganizar sua vida, sua família, reconstrói sua auto-estima,
e dá uma enorme contribuição à reconstrução de valores importantes deste
país”, ressaltou Cristina na véspera da eleição.
INVESTIMENTOS
“Tentam fabricar uma ameaça de inflação que não existe. A inflação real é a
que o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, INDEC, divulgou, de 5,8%
entre janeiro e setembro e 8,6% nos últimos 12 meses”, assegurou,
considerando que a questão da inflação “deve nos ocupar e não nos preocupar.
Devemos tratá-la no ponto certo. A Argentina necessita ainda de mais
investimentos para evitar cair em receitas monetaristas”.
Referindo-se às propostas centrais para seu futuro governo, a presidente
eleita valorizou o papel do Estado nacional “que deve prover de
infra-estrutura em matéria econômica e social e ser um ativo defensor dos
interesses do conjunto da população. Em 2003 pusemos em prática um plano que
priorizou o desenvolvimento produtivo e garantiu os serviços que eram vistos
como gastos desnecessários. Falavam que o Estado não prestava, mas agora
todos sabemos que é central para que voltemos a ter progresso, justiça e
igualdade”.
Cristina Kirchner assinalou que “a campanha eleitoral foi tranqüila, não
houve apatia como tenta caracterizar a oposição e os meios de comunicação
que se comportam como seus porta-vozes, com aquela velha ladainha de que o
povo não sabe defender seus interesses. Houve sim certeza de que o caminho a
ser seguido para que a Argentina se levante por completo, para garantir o
lugar de cada um de nós, é o que foi iniciado pelo governo de Néstor
Kirchner”.
Finalmente a candidata eleita disse ter “a maior honra que pode ser
outorgada a um argentino”, mas explicou que se sentia com uma dupla
responsabilidade, “não só pelo espaço político que represento, mas também
porque tenho uma imensa responsabilidade pela minha condição de mulher”.
“Quero convocar as mulheres; operárias, estudantes, empresárias e as que
ficaram sozinhas à frente do lar”, disse Cristina.
SUSANA SANTOS