Demissões da SuperVia são busca
por bode expiatório
Com histórico de
acidentes graves, denúncias de sucateamento e carga horária de 12 horas
imposta aos trabalhadores, a empresa diz que tragédia que matou 8 pessoas foi
causada por “falha humana”
Menos
de
uma
semana após a divulgação do laudo que ela própria realizou, a Supervia
anunciou na quarta-feira a demissão de dois trabalhadores. Numa tentativa de
atribuir aos funcionários a responsabilidade pela tragédia que causou a morte
de 8 pessoas e deixou mais de 101 feridas no dia 30 de agosto, em Nova Iguaçu,
o maquinista e o controlador do centro de operações foram mandados embora por
justa causa.
A versão
da empresa é que o maquinista Norival Ribeiro Nascimento, que operava o trem
de passageiros na hora da tragédia, estava acima da velocidade permitida. Além
disso, não teria reduzido ao passar por um sinal amarelo e nem respeitado um
sinal vermelho. Uma série de infrações também é atribuída ao controlador de
tráfego Edson Assumpção Filho.
“A
empresa montou uma comissão que realizou um laudo que só interessa a ela e
depois demitiu os dois trabalhadores”, disse Valmir de Lemos, diretor do
Sindicato dos Ferroviários do Rio de Janeiro. “Nós propomos uma comissão
independente para investigar o assunto. A discussão não é só o acidente em si,
mas as causas do mesmo” completou.
INVESTIGAÇÃO
A
investigação policial ainda aguarda o laudo do Instituto de Criminalística da
Polícia Civil que só deve ficar pronto em duas semanas, entretanto, o delegado
que comanda as investigações, Fábio Pacífico, com base nos depoimentos ouvidos
de funcionários que estavam no trem, acredita que os indícios apontam para uma
exaustiva jornada de trabalho que os funcionários são obrigados a realizar, o
que deixa margem para erros.
O
funcionário Cleonílson Dutra dos Santos, que estava no trem em testes, disse à
polícia que a locomotiva que havia passado por manutenção e ia da estação de
Austin - local do acidente -, até Comendador Soares, teve que passar para a
linha do sentido inverso porque um terceiro trem em manutenção impedia a
passagem. Mas não confirmou se os funcionários estavam em treinamento na hora
do acidente.
“Quando
vimos o trem lotado de passageiros vindo, começamos a gritar para o maquinista
acelerar, mas, como estava manobrando, o trem estava devagar, e por isso
demorou a pegar velocidade”, disse Clenílson ao delegado. “Quando vimos que
iria bater, nos seguramos e esperamos pelo impacto”, relatou.
SUCATEAMENTO
O
Sindicato denuncia que a SuperVia, que acumula uma série de acidentes desde
que recebeu a concessão no Rio em 98, promove o sucateamento da malha
ferroviária, obriga os funcionários a exercerem exaustivas jornadas de
trabalho, além de demitir trabalhadores sem contratar novos funcionários. “A
empresa tem uma grande deficiência de mão-de-obra e pratica uma rotatividade
de terceirização”, denuncia Índio.
Há três
anos, dois trens colidiram em frente à plataforma da estação Japeri, deixando
52 pessoas feridas. Em junho de 2006, um trabalhador terceirizado morreu
durante um choque de veículos de manutenção na estação de São Cristóvão. Em
agosto do mesmo ano, uma pessoa morreu e perto de 20 ficaram feridas após
colisão de um trem que seguia em direção à estação de Duque de Caxias (ver
quadro ao lado).
De
acordo com um relatório da Agetransp, agência reguladora do sistema de trens
no Estado, a SuperVia é a segunda empresa que mais recebe reclamações dos
usuários. Em 2006, a agência registrou 198 ocorrências contra a
concessionária.
As
irregularidades estão sendo investigadas pela Comissão de Trabalho da
Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), após denúncia do sindicato e de outras
entidades, em maio deste ano. Antes, o Ministério Público do Trabalho obrigou
a concessionária a assinar um documento se comprometendo a corrigir os
problemas, o que não foi cumprido e o assunto foi levado à Alerj.
JOSI
SOUSA