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“Sob a névoa da guerra” (2)

 O início da Guerra do Vietnã e a ascensão de Robert McNamara à presidência
da Ford são as abordagens desta parte da entrevista, em que o ex-secretário
do Pentágono discorre sobre os fatos com a hipocrisia, extrema vaidade
e omissões que caracterizam os genocidas

         Nesta parte da entrevista do ex-secretário do Pentágono Robert S. McNamara, aborda-se o início da Guerra do Vietnã. Sintomaticamente, diante de uma questão genérica colocada pelo entrevistador - o cineasta Errol Morris, autor do documentário “Sob a Névoa da Guerra” - McNamara comenta que se trata de uma questão “hard” (ou seja, “difícil”, “dura”).

A pergunta de Morris nada tem de “difícil” ou “dura”. O que foi difícil e duro para McNamara foi a própria Guerra do Vietnã, motivo de sua demissão da secretaria de Defesa, após a ofensiva do Tet, quando os combatentes vietnamitas mostraram, não apenas no terreno político, mas no campo militar, plena superioridade sobre as tropas norte-americanas, que ascendiam a centenas de milhares de soldados (no auge, meio milhão de soldados).

Porém, não se poderia esperar de McNamara que encarasse a questão aberta e honestamente. Por sinal, e não por acaso, ele omite a principal mudança do presidente Kennedy, de quem era ministro, na doutrina militar norte americana: a rejeição ao conceito de “first-strike attack”, ou seja, a rejeição à idéia de que se os EUA atacassem primeiro a URSS com armas nucleares era possível impedir a resposta soviética. Talvez isso pareça uma monstruosidade a alguns leitores, porque realmente é uma monstruosa idiotice, do tipo característico dos genocidas. Mas esse “first-strike attack”, que tinha como principal expoente o antigo associado de McNamara, Curtis LeMay, foi doutrina do Pentágono durante toda a década de 50.

McNamara também omite que não foi a primeira opção de Kennedy para a Secretaria da Defesa. O presidente preferia Robert Lovett, ex-secretário da Defesa de Truman, mas este recusou voltar ao cargo.

Voltando ao Vietnã, é quase escandaloso que McNamara tente se retratar como favorável à retirada dos “conselheiros militares” ianques, tentada pelo presidente Kennedy em 1963, pouco antes de ser assassinado. A esse respeito é eloqüente o diálogo com o sucessor de Kennedy - Lyndon Johnson - reproduzido logo no início do texto que hoje publicamos. Ressaltamos que esse diálogo aconteceu apenas quatro meses após a morte de Kennedy.

Francamente hipócrita é a declaração de que foi o assassinato de Ngo Dinh Diem que impediu a retirada proposta por Kennedy.

A ditadura de Diem, criada e sustentada pelos EUA com o objetivo de impedir o cumprimento dos acordos de Genebra, que determinavam realização de eleições no Vietnã para reunificação do país (Diem cancelou as eleições no sul do país em 1956), havia provocado uma grave revolta na população sul-vietnamita, que ameaçava levar de roldão a tutela americana. Diem havia se tornado um perigo para a política da direita americana no Vietnã. Por isso, foi assassinado e substituído, com a participação - para dizer o mínimo - da CIA. Tal fato já era absolutamente notório na época.

Portanto, o aborrecimento do presidente Kennedy, descrito por McNamara, era compreensível. Mas não o de McNamara, que acaba, ao final desta parte, confessando, de forma enviesada, a responsabilidade americana na eliminação de Diem.

O assassinato de Diem foi no dia 2 de novembro de 1963 e o de Kennedy no dia 22 de novembro de 1963, ou seja, 20 dias depois. A partir daí, McNamara se sentiu a vontade para implementar a intervenção americana no Vietnã. O diálogo com Johnson, no começo de 1964, o demonstra.

Conservamos, na condensação que hoje apresentamos aos nossos leitores, o principal do relato de McNamara sobre a sua ascensão a presidente da Ford. Ele foi um dos “boys” de Henry Ford II de 1946 até 1960. Como sempre, ele apresenta as suas ações como motivadas por uma preocupação com os americanos (os demais seres humanos não são uma preocupação, mesmo no campo da demagogia). A tentativa de abafar o escândalo na segurança dos carros americanos na década de 50 é assim relatado. Além disso, McNamara exibe os seus extraordinários resultados em testes psicológicos - realmente fenomenais, para alguém que não sabia como os ovos de galinha eram embalados para venda ao consumidor...

C.L.

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