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Sobre o período em que foi secretário de Defesa
e um dos artífices da Guerra do Vietnã:

 McNamara: “Foram alguns dos
melhores anos de nossas vidas”

Lyndon B. Johnson: Eu quero que você dite um memorando de duas páginas, palavras de quatro letras e sentenças curtas sobre a situação no Veitnã: o ‘Retrato do Vietnã’. Esta manhã o senador Scott disse que “uma guerra na qual não podemos vencer, perder, nem sair fora é evidência de uma instabilidade de idéias. Uma série de juízos flutuantes, nossa política é de conciliação nervosa, o que é extremamente perturbador.” Você acha que é um erro explanar algo sobre o Vietnã e sobre o que estamos enfrentando?

McNamara: Bem, eu penso, presidente, que seria sábio para o senhor dizer o mínimo possível. A resposta franca é que eu não sei o que está acontecendo ali. Os sinais que vejo são sinais perturbadores. É um período muito incerto.

10 de março de 1964

Johnson: Precisamos de alguém que vá lá e nos consiga alguns planos melhores do que aquilo que obtivemos até agora. O que eu quero é alguém que possa esboçar alguns planos para pegar aqueles caras e mandá-los pro inferno. Matar alguns deles, é isso que eu quero fazer.

McNamara: Eu vou tentar trazer algo que atinja este objetivo.

Johnson: Okay, Bob.

Errol Morris: Em algum ponto temos que abordar o Vietnã. E eu quero saber como você pode fazer isso para mim da melhor forma?

McNamara: Sim. Esta é uma pergunta dura, bem dura. Eu penso que devemos abordá-la do ponto de vista da Guerra Fria. Mas primeiro eu terei que falar sobre Ford. Vou ter que retornar até o final da guerra.

Dos mil executivos na cúpula da Ford Motor Company, não acredito que houvesse dez que fossem formados em faculdades e Henry Ford II precisava de ajuda. Eles iam nos passar alguns testes. Dois dias inteiros de testes: testes de inteligência, de alcance, de personalidade e assim por diante.

Pode soar absurdo, mas uma das questões do teste era: “Você preferiria ser um florista ou um mineiro de carvão?”. Eu devo lhes dizer, eu já fui florista. Eu trabalhei como florista em algumas de minhas férias de Natal. Eu respondi “mineiro de carvão”. Eu acho que as razões são óbvias para vocês.

Este grupo de dez pessoas havia sido treinado em Harvard. Em alguns testes obtivemos ao final as notas mais altas já alcançadas. Em outros testes nós estávamos no grupo dos um por cento mais elevados.

De 1926 a 1946, incluindo os anos da guerra, a Ford Motor Company mal chegou a se pagar. Era uma bagunça terrível. Eu achava que tínhamos uma responsabilidade para com os acionistas e vocês não podem acreditar o quão ruim a situação estava.

Lição 6: Pegue os dados.

Eles não tinham uma organização de pesquisa de mercado. Eu instalei uma. O diretor da equipe disse para mim: “O que você quer que eu estude?” Eu disse, “encontre quem está comprando Volkswagens. Todo mundo diz que não é um bom carro. Estão sendo vendidos apenas 20 mil por ano, mas eu quero saber o que vai acontecer. Isso vai ficar na mesma ou vai declinar, ou vai crescer? Achem quem o está comprando”.

Ele veio seis meses depois e disse, “bem, são professores, há doutores, advogados e também, obviamente, pessoas com maior poder aquisitivo”.

Aquilo me fez pensar sobre o que a indústria deveria fazer. Havia um mercado que estávamos perdendo? Naquela época ninguém acreditava que os americanos queriam carros mais baratos. Eles queriam mostrar que consumiam. O Cadillac, com aquela enorme ostentação rabo de peixe, estabeleceu o estilo para a indústria por 10 ou 15 anos.  E foi contra aquilo que nos levantamos.

Nós introduzimos o Falcon como um carro mais econômico e foi um enorme sucesso, reunindo lucro e sabedoria. Alcançamos muito.

Eu questionei: “E sobre os acidentes, eu ouço muito falar em acidentes”. “Ah, sim, temos alguns dados sobre isso”. Havia cerca de 40 mil mortes por ano por acidentes de automóveis e em torno de um milhão, um milhão e duzentos mil feridos.

“O que causa isto?”. “Bem,” ele disse, “é óbvio. É erro humano e falha mecânica”. Eu afirmei: “Diabos! Se é falha mecânica, nós podemos estar envolvidos. Vamos buscar mais sobre isso. Eu quero saber, se há erro mecânico, eu quero parar com isso”. “Bem”, eles disseram, “há realmente poucas estatísticas à disposição”. Eu disse: “Dane-se, veja o que podemos saber”.

Eles disseram que “o único lugar que podemos encontrar onde se sabe algo sobre isso são os Laboratórios Aeronáuticos Cornell.”. Lá eles disseram: “O principal problema é de embalagem. Você compra ovos e sabe como eles vêem embalados, em papelão?” Eu respondi: “Não sei, eu não compro ovos. Minha mulher é quem compra”. Eles disseram: “Converse com ela e pergunte se quando ela coloca aquela embalagem de papelão no balcão da cozinha, se os ovos quebram”. Então eu perguntei a Mag e ela disse “não”. O pessoal do Cornell disse: “eles não quebram porque estão embalados de forma apropriada. Agora, se nós embalássemos as pessoas nos carros da mesma forma, poderíamos reduzir as quebras”.

Faltava-nos laboratórios, portanto, jogamos esqueletos humanos em embalagens diferentes escada abaixo nos dormitórios de Cornell. Isso parece absurdo, mas aquele cara estava absolutamente certo. Era a embalagem que poderia fazer a diferença. Numa batida, o motorista era, de forma muito freqüente, empalado na direção. O passageiro era muito freqüentemente ferido porque batia contra o vidro dianteiro, ou a barra superior ou o painel dianteiro. Daí, no Ford modelo 1956 nós introduzimos direções que preveniam o empalamento, introduzimos painéis alcochoados e os cintos de segurança. Nós estimamos que se houvesse 100% de uso de cintos, poderíamos salvar em torno de vinte mil vidas por ano. Todo mundo se opunha a isto. Não se conseguia que as pessoas usassem os cintos, mas os que o fizeram salvaram suas vidas.

Vamos dar um salto adiante. Estamos em julho de 1960. John Bugas, vice-presidente de relações industriais tinha suas vistas claramente voltadas para se tornar presidente. Eu era, então, vice-presidente responsável por todas as divisões de automóveis. Henry [Ford II] era uma coruja noturna. Ele sempre queria sair para a noite. Duas da manhã ou algo assim. Ele disse, “Bob, vamos lá, vamos tomar um café”. Eu disse: “porra, Henry, eu não quero uma xícara de café, eu vou pra cama”. John disse, “eu vou, Henry”. Henry respondeu: “eu não pedi a você, John, eu pedi a Bob.” Ele acrescentou: “Bob, vamos lá”. Então eu finalmente fui e foi quando ele me pediu para que eu me tornasse presidente.

Eu fui o primeiro presidente na história da companhia que não pertencia à família Ford. Depois de 5 semanas eu deixei o posto. O telefone tocou, uma pessoa do outro lado da linha disse: “Sou Robert Kennedy. Meu irmão, Jack Kennedy, gostaria que você se encontrasse com nosso cunhado, Sargent Shriver”. 4 da tarde, Sarge chega. Eu nunca o havia visto antes. “Fui autorizado por meu cunhado, Jack Kennedy, a oferecer a você o posto de secretário do Tesouro”.

Eu disse, “você está louco. Eu entendo um pouco de finanças. Mas não tenho qualificação para ser secretário do Tesouro”. “Prevendo que você poderia dizer isso, o presidente eleito me autorizou a oferecer-lhe a Secretaria de Defesa”.

Eu respondi: “Olhe, eu estive na Segunda Guerra Mundial por três anos. Secretário da Defesa? Eu não estou qualificado para ser secretário da Defesa”. “Estávamos prevendo isso. Você ao menos concordaria em encontrá-lo?”.

 “FOI INCRÍVEL” 

Fui para casa. Encontro-me com Marg. Pensei: caso eu pudesse indicar todos os cargos de primeiro escalão do Departamento [nome usado nos EUA para designar ministério] e também se não fosse obrigado a tomar parte da desgraça do mundo social de Washington...

Ela disse: “Porque você não escreve um contrato com o presidente? Se ele aceitar essas condições, vá”. Nossa renda bruta na época totalizava US$ 800.000, mas eu tinha lotes de ações não realizadas que valiam milhões.

E eu era um dos executivos mais bem pagos no mundo. Meu futuro era brilhante. Chamamos nossos filhos. A vida deles mudaria totalmente. O salário de secretário era então de US$ 25.000 por ano. Eu lhes expliquei que eles teriam que abrir mão de algumas coisas. Por outro lado, eles poderiam se preocupar menos. Marg poderia se preocupar menos.

Nevava. O Serviço Secreto me levou para a Casa Branca pelos fundos. Eu ainda posso ver. Há um sofá, duas poltronas com uma mesa e um abajur entre elas. Jack Kennedy está sentado em uma das poltronas e Bobby Kennedy em outra. “Presidente, isso é um absurdo, eu não estou qualificado”,

”Veja, Bob,” ele disse, “não acho que exista nenhuma escola para presidentes também. Vamos anunciá-lo imediatamente. Eu vou escrever o anúncio”.

Aí ele escreveu o anúncio, saímos pela porta da frente. Estava lotado de câmaras de TV e jornalistas. Foi assim que Marg soube que eu havia aceito. Saiu ao vivo na TV.

Foi assim que isso começou. Vocês sabem, foi um período traumático. Minha mulher teve úlcera provavelmente por causa disso e pode ser que ao final tenha morrido por causa do estresse. Meu filho teve úlcera. Foi muito traumático, mas foram alguns dos melhores anos de nossas vidas e todos os membros da minha família se beneficiaram deles. Foi incrível.

1963

2 de outubro. Eu havia retornado do Vietnã. Naquela época tínhamos 16.000 assessores militares. Eu recomendei ao presidente Kennedy e ao Conselho de Segurança que estabelecêssemos um plano e um objetivo de remover todos eles em dois anos.

Kennedy anunciou que iríamos retirar nossos conselheiros militares ao final de 1965 e que iríamos retirar 1.000 deles em 1963 e o fizemos. Mas houve um golpe no Vietnã do Sul. Diem foi derrubado e seu irmão foi morto.

Eu estava com o presidente quando juntos recebemos a informação daquele golpe. Nunca o vi mais aborrecido. Ele ficou totalmente branco. Eu e o presidente Kennedy tínhamos tremendos problemas com Diem mas, por Deus, ele era a autoridade, ele era o chefe de Estado. E foi derrubado por um golpe militar. E Kennedy sabia e eu sabia que, até certo ponto, o governo dos EUA era responsável por aquilo.

Continua na próxima edição.

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