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“EUA agride Zimbábue porque quer saquear nossas riquezas”

“Esses ‘objetivos’ são hoje o alicerce da política externa no Zimbábue, Iraque e Afeganistão”, denuncia o jornalista Reason Wafawarova em artigo publicado no jornal Herald, do Zimbábue, do qual publicamos os principais trechos

Desde o final da Segunda Guerra Mundial os EUA tem tido por obsessão a agressão a pequenos países.

Durante este período os EUA, entre muitas outras invasões, entraram em Cuba, Granada, Panamá, Haiti, República Dominicana, Guatemala, Nicarágua, Iraque e Afeganistão.

Também patrocinaram mercenários armados contra diversos países. A CIA gerou guerras a favor de seus representantes em Angola, Moçambique, Congo e Nicarágua, só para mencionar alguns deles.  Os governos americanos também lideraram campanhas de bloqueio contra o Iraque, Irã, Cuba, Nicarágua, Coréia do Norte e Zimbábue. 

Quando Ronald Reagan foi questionado sobre o embargo comercial contra a Nicarágua em 1985, declarou que ‘a política e ações da Nicarágua constituem uma ameaça não usual e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos’.

BLOQUEIO

Esse tipo de citação diz algo a nós do Zimbábue? Claro que diz, principalmente depois que Condoleeza Rice e George W. Bush quase que a repetiram, palavra por palavra, ao tentarem justificar a denominada ‘Lei pela Democracia e Recuperação do Zimbábue’ em 2001, que estabelecia sanções e interferia em instituições com negócios nos EUA que estendessem linhas de crédito ao Zimbábue, barrando empresas americanas de negociarem com nosso país.

Em 1982, o governo Reagan declarou ao público norte-americano que Granada era uma ameaça militar aos EUA.

O mero fato de que tenha havido esse pronunciamento demonstra o poder da doutrinação e da lavagem cerebral contida no mais poderoso agente do imperialismo: a mídia de massa. O fato de que o público americano pudesse ouvir uma declaração pública completamente ridícula como essa sem explodir em gargalhadas, era outro indicativo do grau desta doutrinação.

A ‘extraordinária’ ameaça militar levou à invasão de Granada em 1983 e 6000 soldados americanos receberam um total de 8000 medalhas pelo ‘valor’ que os levou àquela enorme vitória. A mídia americana foi ao delírio, vomitando a eufórica valentia e os sentimentos chauvinistas sobre o orgulhoso dever cumprido.

Em 1985 o povo dos EUA questionava-se como uma nação subdesenvolvida e de camponeses com três milhões de pessoas, como tinha a Nicarágua, poderia constituir uma ‘ameaça extraordinária’ à segurança dos EUA.

É interessante o que George Kennan, chefe do planejamento político do Departamento de Estado em 1948 declarou: ‘Temos 50% da riqueza do mundo, mas apenas 6,3% de sua população... Nessa situação, não podemos falhar, por sermos objeto de cobiça e ressentimento. Nossa real tarefa no próximo período é deixar um legado-modelo de relação, o que nos permitirá manter essa posição de disparidade sem prejudicar a nossa segurança nacional. E para isso, teremos que dispensar todos os sentimentalismos e utopias.

Não podemos nos enganar achando que podemos nos dar ao luxo hoje de fazer altruísmo e benefícios ao resto do mundo. Devemos acabar com essa conversa vaga e com esses irreais objetivos como direitos humanos, a melhoria do padrão de vida e democratização’.

Esses ‘objetivos’ são hoje o alicerce da política externa no Zimbábue, Iraque e Afeganistão.

Os princípios fundamentais da política externa americana, e na verdade de todos os países imperialistas é garantir o que Kennan chamou uma vez de ‘proteção de nossas matérias-primas’. Alguém poderia pensar que ele estaria se referindo às matérias-primas localizadas nos EUA, mas na verdade ele se referia às matérias-primas da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia.

A verdadeira ameaça contra a qual os americanos querem se ‘proteger’ é  daquela que vem dos legítimos donos dessas riquezas naturais. Alguns desses nativos cometem o ‘engano’ de embarcar em políticas que visam com que a população do país se beneficie desses recursos.

Na visão da elite política dos EUA, esse tipo de conspiração é totalmente intolerável; e para isso fala de ‘extraordinária ameaça’.

MODELO

A importância dessa ‘ameaça’ é derivada do fato de que embarcando em políticas baseadas no bem-estar social, esses pequenos países podem ter sucesso em capacitar sua população, levando ao sucesso econômico e ao desenvolvimento social, o que pode constituir modelo para outros povos, causando um indesejado efeito dominó. Precisamente por isso que Henry Kissinger disse que Salvador Allende tinha que ser parado.

É precisamente por isso que os EUA desejam o fracasso da reforma agrária no Zimbábue. Se tiver sucesso em um pequeno país como o Zimbábue, o que iria impedir outros povos de seguir os mesmos passos.

Laos - sob um governo democrático - tornou-se alvo da selvageria norte-americana em 1958 que instalou uma brutal ditadura. O pequeno país foi atingido por uma série de cruéis bombardeios aéreos dos EUA.

A questão é porque uma sofisticada superpotência que controla a metade da riqueza do mundo destruiria uma miserável sociedade camponesa? O Laos cometeu um grave ‘crime’: sob o movimento revolucionário Pathet Lao liderou um programa de Reforma Agrária e começou a conquistar resultados com a expansão dos investimentos na saúde e na educação. Na visão da elite que domina os EUA, os ‘estúpidos’ camponeses estavam usando riquezas naturais do Laos para os seus próprios propósitos e tal ‘insolência’ deveria parar.

Em Angola, os EUA patrocinaram os mercenários da Unita de Jonas Savimbi por mais de 20 anos. No Congo, eles organizaram a derrubada e o assassinato de Patrice Lumumba antes de instalar o regime ditatorial de Mobutu. Em Gana, eles patrocinaram e organizaram a derrubada de Kwame Nkrumah, enquanto que em Moçambique a CIA assassinou Samora Machel, então presidente, em 1986.

Essa análise histórica dos eventos envolvendo os EUA deve ajudar a colocar em perspectiva as sanções de Washington contra o Zimbábue.

É uma análise relevante a respeito do curso e direção da Terceira Chimurenga. [Chi-murenga significa luta na língua indigena do país. A denominada Primeira Chi-murenga foi a luta contra o colonialismo inglês entre 1896-1897; a Segunda foi a guerra de guerrilha contra o regime da minoria colonialista inglesa na Rodésia entre 1966-1980 liderada por Mugabe e a Terceira é a atual luta pela independência econômica do Zimbábue e contra a intervenção imperial no país]. É com base nisso que entendemos que o Zimbábue se manterá de pé da forma que faz Cuba desde 1958; Venezuela desde 1999, mesmo período em que o Zimbábue iniciou seu programa de Reforma Agrária.

Os EUA agem tentando destruir programas como os de Reforma Agrária e instalar regimes fantoches e nós, do Zimbábue, agimos sabendo que nos libertamos da dominação estrangeira e do sucesso de projetos como o nosso.”                                                          

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