
Desde que foi constituído, o grupo Abril, principalmente através da Veja, tem
lançado mão das mais cretinas difamações contra as lideranças nacionais,
utilizando toda sorte de mentiras e falsificações, que levou, por exemplo, à
sórdida cassação de Ibsen Pinheiro. Porém, como diz a canção popular, tem a
volta do cipó de aroeira e é o tal grupo, que já há algum tempo vem caindo no
descrédito, que tem que se explicar à Receita Federal e à Justiça. Além disso,
utiliza uma tropa de choque para evitar a instalação de uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) para apurar suas tenebrosas transações.
Na reunião dos líderes na Câmara, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ)
tentou dar uns palpites para abafar a CPI da Abril (Veja)-Telefónica e se deu
mal. “Não publicam o que querem? Vão ter de provar que estão limpos”, respondeu
um dos líderes partidários presentes na reunião, defendendo a instalação da CPI.
Deputados do PT, PP e outros reagiram à manobra de Miro Teixeira.
O fato determinado para a instalação da CPI foi a nebulosa transferência do
controle da TVA para a transnacional Telefónica, o que é proibido pela Lei do
Cabo. O caso veio à tona com o voto contrário à transação do conselheiro da
Anatel Plínio de Aguiar Júnior, ao demonstrar que o controle efetivo da TVA
passou à empresa espanhola, conforme o acordo de acionistas, segundo o qual uma
“Reunião Prévia”, em que todos votam, tem prevalência sobre o Conselho de
Administração e a Assembléia Geral.
A Telefónica comprou 86,7% do capital total da Comercial Cabo e 91,5% da TVA
Sul. Como na Reunião Prévia todo mundo vota, inclusive os detentores das ações
preferenciais – majoritariamente nas mãos da empresa espanhola -, as decisões
não são mais do grupo Abril, o que tornou, na prática, o Bob Civita em um mero
laranja. É verdade que para isso acabou embolsando cerca de R$ 1 bilhão. O
escândalo levou a que 182 deputados assinassem o requerimento para a instalação
da CPI da TVA-Telefónica, que a própria Veja em um ato falho classificou como
CPI da Vendeta.
NASPERS
As transações do grupo Abril que envolvem a venda de ações para o capital
estrangeiro, via de regra através de obscuros acordos de acionistas, foi o que
também mostrou, há alguns meses, uma série de reportagens da TV Bandeirantes
sobre a venda de 30% das ações do grupo Abril ao conglomerado de mídia
nazi-africâner Naspers, um dos sustentáculos do apartheid na África do Sul. O
negócio, realizado em maio do ano passado, envolveu o montante de US$ 422
milhões, mais de R$ 900 milhões, à época. A empresa registrada como a compradora
das ações foi a brasileira MIH Brazil Participações, “uma empresa que só existe
no papel”. O acordo de compra de ações (Stock Purchase Agreement), escrito em
inglês e ao qual a emissora teve acesso, demonstra a nebulosidade do negócio.
Segundo informou o Jornal da Band, “parte da transação foi feita com
investidores norte-americanos que já possuíam ações da editora. Mais de US$ 178
milhões sequer passaram pelo Brasil. O dinheiro foi depositado em banco nos EUA.
No restante do negócio, os sócios brasileiros também receberam cifras altas. Mas
o que chama a atenção no contrato é o controle da Abril para quem tiver mais de
50% das ações. A lei brasileira determina que além de deter mais da metade das
ações a pessoa tem que exercer efetivamente esse poder, o que não fica claro no
contrato”.
JP MORGAN
O banco a que se refere a Band é o JP Morgan Chase e “os sócios brasileiros” são
Roberto Civita, Giancarlo Francesco Civita, Victor Civita e Roberta Anamaria
Civita.
O advogado da Bandeirantes Walter Vieira Ceneviva declarou à referida reportagem
ter achado “estranho que um grupo estrangeiro que compre um ativo tão importante
como são 30% do capital social da Editora Abril adquira junto com esse
patrimônio também direitos políticos, como eleger membros do Conselho de
Administração da Abril e ainda outros que estão no acordo de acionistas que é
mencionado em todos os documentos a que a Band teve acesso, mas que continua
secreto, continua desconhecido, para as autoridades do Brasil”.
A reportagem da Band tentou encontrar a localização da MIH Brazil Participações
e o que descobriu foi só “um emaranhado de endereços” de outra empresa, a
Curundéia Participações Ltda. Pelo contrato, o endereço da tal MIH no Brasil
seria na alameda Joaquim Eugênio de Lima, 447, em São Paulo. Mas, no local, o
Jornal da Band encontrou um escritório de advocacia, o que também foi confirmado
por telefone. O CNPJ (07.921.963/0001-77) declarado pela MIH consta na Receita
Federal como sendo da Corundéia, que não possui sede, nem sequer funcionários. O
endereço fornecido por esta é rua Dr. Renato Paes de Barros, 778 – 5º andar,
também na cidade de São Paulo. Contudo, como mostrou a reportagem da Band, o
porteiro do local nunca ouviu falar da Curundéia. Já o número do telefone
registrado no nome desta empresa consta que deveria estar instalado no nº 536 de
uma rua sem saída que vai até o nº 312.
“Na Receita Federal a Corundéia tem três donos: a MIH (UBC) Holding BV, a Myriad
International Holdings BV, as duas com sede fora do Brasil, e a Brian Vincent
Forssman. O capital social registrado é de 878 mi reais”, disse a emissora de
TV. E mais: para comprar parte dos 30% das ações da Editora Abril, “a empresa [Curundéia]
pagou mais de 178 milhões de dólares, o equivalente a mais de 380 milhões de
reais. Ou seja, a empresa virtual realizou um negócio 435 vezes maior do que seu
suposto capital social. A empresa sul-africana Naspers, considerada racista, é
uma das donas da MIH, que as autoridades brasileiras não reconhecem.
Oficialmente, a MIH é conhecida como Corundéia, uma empresa virtual que só
existe no papel”.
A gravidade dos casos, em notório desrespeito às leis, demonstra a urgência da
instalação da CPI e também, tanto em um caso quanto em outro, da necessidade de
que sejam abertos os respectivos acordos de acionistas.
VALDO ALBUQUERQUE