Regimento da Câmara ampara criação da CPI da Abril-Telefónica, diz autor do
requerimento
Na iminência da instalação da Comissão Parlamentar de
Inquérito da Câmara dos Deputados para investigar a negociata de venda da
TVA para a Telefônica, pelo Grupo Abril, o deputado Miro Teixeira levantou
uma questão de ordem indagando à direção da Mesa se no requerimento
apresentado para a abertura da CPI está caracterizada “a ilicitude do fato a
ser investigado por comissão parlamentar de inquérito”.
O presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-
SP), informou que vai analisar a questão, mas para o Conselheiro da Anatel,
Plínio Aguiar Júnior, que votou contra a transação, não há dúvida que a
operação está cheia de ilicitudes. Ele afirmou, em seu voto, que a transação
viola a Lei nº 8.977, de 6 e janeiro de 1995, conhecida como “Lei do Cabo”
que proíbe a transferência do controle de emissoras de TV para grupos
estrangeiros.
INDÍCIOS
O conselheiro mostra que o Grupo Abril procurou enganar a Anatel informando que a maioria das ações da TVA continuaria em suas mãos, o
que, segundo Aguiar, não corresponde à verdade. As decisões da TVA não serão
mais da Abril. No contrato assinado com a Telefónica, as decisões da empresa
passarão a ser tomadas em uma “Reunião Prévia”, na qual a Telefónica é que
detém o controle. A multinacional tem 86,7% do capital da Comercial Cabo e
91,5% da TVA Sul. Isso torna, na prática, Roberto Civita um mero laranja da
Telefónica. Na transação ilegal, o Grupo Abril embolsou cerca de 1 bilhão de
reais.
As denúncias de Aguiar e o desespero demonstrado por Civita
- inclusive colocando tropa de choque nos corredores do Congresso – para
tentar impedir a instalação da CPI mostram que há muita coisa a ser
esclarecida. Há, nesta transação, segundo os dados conhecidos até aqui, no
mínimo, fortes indícios de que houve crime. O que é uma situação mais do que
suficiente para a instalação da CPI, cuja tarefa é investigar quando há
indícios do crime. O deputado Wladimir Costa (PMDB-PA), autor do
requerimento, que foi subscrito por 182 parlamentares, contestou as dúvidas
de Miro Teixeira e afirmou que o presidente da Câmara está totalmente
respaldado no regimento interno para iniciar imediatamente a investigação.
FANTASMAS
Além da venda ilegal da TVA, o Grupo Abril está envolvido
também em outras tenebrosas transações, como a venda de parte de suas ações
para a empresa sul-africana Naspers, conglomerado de comunicação racista que
sustentou o apartheid por muitos anos naquele país. Segundo a denúncia,
feita pela TV Bandeirantes, a Naspers tem dentro do Brasil uma empresa
chamada MIH Brasil Participações, que funciona na Holanda.
A reportagem Bandeirantes mostrou que a MIH Brasil
Participações é uma empresa fantasma. Só existe no papel. O endereço
declarado é fictício. O CNPJ nº 72.091.963/0001-77, informado como sendo da
MIH, pertence na verdade a outra empresa chamada Curundéia Participações
LTDA. A Curundéia também não tem sede e nem funcionários e seu capital
social é de R$ 878 mil. Mas, segundo a reportagem, ela teria desembolsado R$
380 milhõ
es para a compra de parte dos 30% das ações da Editora Abril. É
tudo muito estranho.
Não é à toa que Civita e seus seguidores estão tão nervosos
querendo abafar a CPI a qualquer custo. É que eles sabem muito bem que terão
que dar muitas explicações nela.
SÉRGIO CRUZ