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Brecht: Ser ou não ser atual

Carlos Pinto*

“Realmente, vivemos tempos sombrios!

A inocência é loucura. Uma fronte sem

rugas denota insensibilidade.

Aquele que ri ainda não recebeu a

terrível notícia que está para chegar”

Brecht

Bertolt Brecht continua sendo um dos mais polêmicos e provocadores dramaturgos de nossa época, pois sua obra tem a capacidade de, ao mesmo tempo, ser direta e dissimulada, simples e complexa, conquistando o agrado dos intelectuais e do povo culturalmente não desenvolvido. Sua obra tem compromissos firmados com a causa política, sem, no entanto, em qualquer momento deixar de apresentar seu autor como um artista talentoso, criador e renovador de sua arte, o que marcou profundamente suas concepções, para sempre, na história da dramaturgia e do teatro mundial.

Parte de seus primeiros escritos, (poemas) foram concebidos durante a Primeira Guerra Mundial, onde atuou como vigia antiaéreo. Ao final dessa guerra inicia uma luta ao lançar-se contra certos valores até então indiscutíveis, tais como: a crença no militarismo, no patriotismo, no heróico jogo da guerra e, o slogan “Gott mit uns” (Deus está comigo). Certa noite em um bar de Munique, em encontro com amigos ex-combatentes da primeira guerra, Brecht leu um dos seus poemas denominado “Estória do Soldado Morto”. Ao terminar, como forma de aplauso, os ex-combatentes jogaram-lhe seus copos de cerveja. Por esta época nenhuma editora, revista ou publicação qualquer, permite a veiculação de suas obras.

Suas primeiras criações literárias no campo da dramaturgia, bem como, seus escritos poéticos, constituíram-se em fracassos. Inserem-se neste período, os textos “Baal”; “A vida de Eduardo II da Inglaterra” e “Na floresta das cidades”, além do poema “Os sermões domésticos”. Esta parte de sua obra, à exceção de “Tambores na Noite”, descarta qualquer crítica social. Não prega a revolução, mas envereda pelo sarcasmo, pelo cinismo, o niilismo e a inquietação filosófica. Era uma época onde tentavam a destruição dos ídolos burgueses e nada mais. Kafka puro. Na verdade, Brecht e Kafka têm muita afinidade e algo em comum. Vivenciaram um mesmo período histórico, e procuraram cada qual a seu termo, uma colocação da realidade social de então, através do processo de alienação.

Apesar de utilizarem o mesmo método, a atitude de ambos perante a realidade foi diferente. Ao passo em que Kafka enfrentava a depressão e em seu desespero negava o progresso, Brecht, no amadurecer de sua obra, acreditava na constante renovação, no surgir de novas idéias para lutar e sobrepujar as antigas e arcaicas verdades. Aqui se reflete a atualidade de sua obra, pois, enquanto existirem as lutas de classes, enquanto persistirem as guerras sujas patrocinadas pelos fabricantes de armas e por pseudos líderes mal formados, Brecht será sempre atual.

Afinal de contas, Brecht era um pacifista e um ferrenho defensor das igualdades sociais, raciais e da justiça igual para todos. Enquanto persistir a exploração do homem pelo homem, Brecht será atualíssimo. Enquanto persistirem as desigualdades sociais, a corrupção dos costumes e a mentira governamental será sempre o tempo de Bertolt Brecht. “Precisamente porque as coisas estão como estão elas assim não permanecerão.”

* é secretário de Cultura de Santos (SP)

 

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