McNamara: “Jogamos duas a
três vezes
mais bombas do que na Europa Ocidental
durante a Segunda Guerra Mundial”
9 de junho de 1964 *
McNamara: Se você
fosse à CIA e perguntasse: “Como está a situação hoje no Vietnã do Sul?”. Eu
acho que eles lhe diriam que está pior. Você vê isso na taxa de deserção, no
moral. Você enxerga isso na dificuldade de recrutar pessoas. Na perda
gradual do controle sobre a população. Muitos de nós, em particular, diriam
que as coisas não estão bem, que pioraram. Agora enquanto dizemos isso, seja
em particular ou em público, há fatos que acabam chegando à imprensa. A
questão é se vamos ficar lá, se vamos subir a cadeia da escalada. Temos que
educar as pessoas, presidente. Ainda não fizemos isso. Eu não estou certo de
que é o melhor momento.
Johnson: Não, eu
acho que se começarmos a fazer isso vai haver gritaria: “Você é um senhor da
guerra”, dirão.
McNamara: Eu
concordo plenamente com o senhor.
A corrida presidencial:
Lindon Johnson e Goldwater
Goldwater: Não há o
que esconder. Não tratem de varrer isto para debaixo do tapete. Estamos em
Guerra no Vietnã. E ainda assim o presidente e seu secretário de Defesa
continuam a confundir e desinformar o povo americano, e já tivemos o
bastante disso.
Lição 7: Crença e visão, muitas vezes, estão ambos errados.
McNamara: No dia 2 de agosto (de 1964) o destróier Maddox informou que
havia sido atacado por um barco de patrulhamento do Vietnã do Norte. Foi um
ato de agressão contra nós. Estávamos em águas internacionais. Mandamos
gente do Departamento de Defesa e recolhemos pedaços de obuses do Vietnã do
Norte. Eles foram claramente identificados como ogivas norte-vietnamitas –
no convés do Maddox. Portanto, não havia dúvida em minha cabeça sobre o que
havia ocorrido. Mas, de qualquer forma, nós não respondemos.
Aquilo foi muito difícil. Foi muito difícil para o presidente. Havia muita
gente do alto escalão, uns de farda, outros não, que insistiam: “meu Deus,
este presidente é...” - eles não usavam a palavra ‘covarde’, mas diziam:
“ele não está protegendo o interesse nacional”.
Dois dias depois, em 4 de agosto, o Maddox e o Turner Joy, dois destroiérs,
informaram que haviam sido atacados.
Johnson: E então, de onde estes torpedos
estão vindo?
McNamara: Bem, eu
não sei. Presumivelmente destes barcos não identificados.
McNamara: Havia ruídos de sonar, torpedos foram detectados - outras
indicações de ataque por barcos de patrulhamento. Naquele dia ficamos dez
horas tentando saber o que acontecera. Em um determinado momento, o
comandante do navio disse: “A resposta é absolutamente positiva”. Mais
tarde, no mesmo dia, o almirante Sharp afirmou: “Sim, estamos certos que
isso aconteceu”.
Então eu informei isso a Johnson e como resultado houve bombardeios em alvos
no Vietnã do Norte. Johnson disse que talvez tivéssemos que partir para uma
escalada e eu não iria fazê-lo sem a autoridade do Congresso. Ele baixou uma
resolução, que deu completa autorização ao presidente para levar a nação à
guerra: a Resolução do Golfo de Tonkin.
4 de agosto de 1964, 12:22 h:
Almirante Sharp:
Aparentemente, houve ao menos nove torpedos na água. Todos erraram o alvo.
General Burchinal:
Sim.
Almirante Sharp:
Espere um minuto. Eu não estou tão seguro sobre este número. Temos que
checar isso.
97 minutos depois:
Almirante Sharp: Ele
(Almirante Moore) disse que muitas das informações sobre os torpedos
atirados parecem duvidosas. Anomalias meteorológicas ou o pessoal do sonar
excessivamente ansioso podem ser responsáveis por muitos dos informes.
General Burchinal:
Okay, bem eu vou dizer isso ao senhor McNamara.
Almirante Sharp: Isso é o
melhor que eu posso te oferecer Dave, lamento.
9 minutos depois:
Almirante Sharp:
Agora parece que muitos desses ataques de torpedo vieram do pessoal do sonar.
Eles ficam fixados com uma coisa dessas e tudo o que eles escutam no sonar
se torna um torpedo.
General Burchinal: Ainda assim, você está
bastante seguro de que houve um ataque com torpedo?
Almirante Sharp: Ah,
não há dúvida sobre isso, penso eu. Não há dúvida sobre isso.
McNamara: Era só confusão, e eventos posteriores, no final das contas, nos
mostraram que nosso entendimento, de que havíamos sido atacados naquele dia,
estava errado. Aquilo não ocorreu. E a suposição de que havíamos sido
atacados no dia 2 de agosto estava correta. Havia uma disputa na época.
Portanto, estávamos certos numa vez e errados na outra vez.
Finalmente, o presidente Johnson autorizou o bombardeio em resposta ao que
ele pensou que fosse um segundo ataque. O ataque não ocorreu, mas isso é
irrelevante para a questão que estou levantando aqui. Ele autorizou o ataque
na presunção de que o ataque havia ocorrido, e sua crença de que havia uma
decisão consciente da parte dos líderes militares e políticos do Vietnã do
Norte de promover a escalada do conflito e uma indicação de que eles não
parariam antes da obtenção de uma vitória.
Estávamos errados, mas tínhamos uma mentalidade que nos levou àquela ação. E
isso nos acarretou custos pesados. Nós vemos as coisas de forma incorreta
ou, muitas vezes, vemos metade da história.
Johnson: Nós, americanos, sabemos, ainda que
outros pareçam esquecer, o risco do conflito se espalhar. Nós ainda buscamos
evitar a ampliação da guerra.
McNamara: Nós introduzimos o que se denominava de “Trovão Rolante”, que no
passar dos tempos se tornou um programa de bombardeios muito, muito pesados.
Duas a três vezes mais bombas do que jogamos na Europa Ocidental durante a
Segunda Guerra Mundial.
Johnson: Isto não é primariamente um problema militar. É uma batalha
pelos corações e mentes das pessoas do Vietnã do Sul. Este é o nosso
objetivo. Como um pré-requisito para isso, temos que garantir a segurança
delas.
26 de fevereiro de 1965:
Johnson: Saímos para
bombardear aquela gente. O jogo agora está no quarto set e está cerca de 78
a zero. Eu estou morrendo de medo de colocar forças terrestres lá, mas estou
com mais medo ainda de perder um bocado de aviões por falta de segurança.
McNamara: Eu também.
6 de março, 1965:
Johnson: O impacto
psicológico de “Os Marines estão vindo” vai ser ruim. Eu sei que toda mãe
vai dizer “Oh, é isso aí”. O que nós fizemos com estes B-57 vai ser algo
como uma escola dominical comparado com os Marines. Minha resposta é ‘sim’
mas o meu julgamento é ‘não’.
McNamara: Tudo bem,
vamos cuidar disso, presidente.
Johnson: Quando você
vai expedir a ordem?
McNamara: Vamos
fazer isso hoje, tarde da noite, assim ela não aparecerá em algumas das
edições matutinas. Eu vou manejar de forma que o anúncio seja minimizado.
10 de junho de 1965:
Johnson: Agora a
América vence as guerra nas quais se engaja. Não se enganem. Nós declaramos
guerra à tirania e à agressão. Caso uma nação pequena como essa for pelo
ralo abaixo e não conseguir manter a sua independência, perguntem-se o que
vai acontecer a todas estas pequenas nações.
McNamara: Na crise cubana dos mísseis, eu penso que nós conseguimos nos
colocar na pele dos soviéticos. No caso do Vietnã, nós não os conhecíamos o
suficiente para ter empatia. E o resultado foi um total mal-entendido. Eles
acreditavam que nós estávamos apenas ocupando o lugar dos franceses como um
potência colonial e que nós estávamos buscando submeter o Vietnã do Norte e
o Vietnã do Sul aos nossos interesses, o que era um absurdo total. Enquanto
que nós, nós enxergávamos o Sul e o Norte do Vietnã como um elemento da
Guerra fria. Não do jeito como eles viram: uma guerra civil.
1995
Não há muitos exemplos nos quais dois ex-inimigos se encontram, nos níveis
mais elevados, e se discute o que poderia ter sido. Eu formulei a hipótese
de que ambos poderíamos ter alcançado nossos objetivos sem a terrível perda
de vidas. E eu queria testar isso indo ao Vietnã.
O ex-ministro do Exterior do Vietnã, um homem magnífico chamado Thach,
disse: “O senhor está totalmente errado. Nós estávamos lutando por nossa
independência. Vocês estavam lutando para nos escravizar”. Quase chegamos
aos tapas.
“Você quer dizer que não foi uma tragédia para vocês, quando perderam 3
milhões e 400 mil vietnamitas, o que, se tomarmos por base a nossa
população, seria o equivalente a 27 milhões de americanos? O que vocês
conseguiram? Vocês não conseguiram nada mais do que nós estávamos lhes
oferecendo no começo da guerra. Vocês poderiam ter tido tudo, independência,
unificação”.
“Senhor McNamara, o senhor nunca deve ter lido um livro de história. Caso
tivesse, saberia que não éramos peões dos chineses nem dos russos. McNamara,
você não sabia disso? Você não sabe que nós estivemos lutando com os
chineses por 1.000 anos? Estávamos lutando por nossa independência. E nós
lutaríamos até nosso último homem. E nenhuma quantidade de bombas, nenhuma
quantidade de pressão dos EUA nos teria feito parar”.
* Os
trechos em cor correspondem a imagens e gravações de arquivo.
Continua na próxima edição.