|
Incêndio
no Hospital das Clínicas: Alerta de risco foi
feito em 2006
Administrado pela Secretaria de Estado da
Saúde, hospital funcionava sem autorização dos
Bombeiros
O
incêndio que atingiu o Hospital das Clínicas de
São Paulo na véspera do Natal foi um incêndio
anunciado. Apesar das investigações sobre as
causas do acidente terem apenas começado, as
primeiras evidências já revelam o abandono em
que se encontra o maior complexo
médico-hospitalar da América Latina.
O
HC, uma autarquia do Estado, com superintendente
nomeado pelo governador e coordenação
administrativa da Secretaria de Estado da Saúde,
estava funcionando sem autorização do Corpo de
Bombeiros e com recomendações técnicas feitas à
sua direção de necessidade urgente de reforma em
sua rede de energia elétrica e no sistema de
combate a incêndio do Prédio dos Ambulatórios,
onde ocorreu o incêndio. Segundo lei de 1975, o
atestado de segurança dos bombeiros é documento
obrigatório para o funcionamento de um prédio
como o do HC.
A
pedido do Ministério Público, em agosto de 2006,
o Corpo de Bombeiros fez uma vistoria no prédio
e conclui, em documento assinado pelo coronel
João dos Santos de Souza: “Há um risco potencial
aos ocupantes da edificação se um sinistro vier
a acontecer”.
EMERGÊNCIA
Para o promotor de Justiça Reynaldo Mapelli, do
Gaesp (Grupo de Atuação Especial da Saúde
Pública) do Ministério Público de São Paulo, “o
HC não tinha um plano de emergência para
enfrentar incidentes como o incêndio, ele só não
terminou em tragédia graças ao heroísmo de
profissionais”.
Segundo o engenheiro Lívio Luksys, responsável
pela manutenção da Fundação Pró-Sangue, que
trabalha no 1º andar do edifício, “os vazamentos
de vapor de água, a uma temperatura de 150°C,
provenientes da água utilizada em esterilização
- capaz de derreter a proteção de cabos
elétricos -, eram um problema constante nos
andares baixos do prédio dos ambulatórios do HC”.
A
direção do Hospital das Clínicas confirmou que
estava prevista uma licitação de reforma da
subestação de energia, mas que, em outubro, o
edital foi adiado, pois precisava de uma
revisão.
Os
vazamentos já haviam sido denunciados
anonimamente por funcionários e o próprio
engenheiro Luksys afirmou ter relatado o
problema a superiores do hospital.
“Esse era um problema crônico deste lugar. Como
às vezes vazava na parte de funcionários,
colocávamos tapumes. Mas até o tapume já tinha
cozinhado em uma ocasião”, disse o engenheiro.
DESCASO
Para Lídia Correa, presidente da Federação de
Mulheres Paulistas (FMP), e membro da executiva
do diretório Estadual do PMDB, “o que houve foi
um total descaso com a saúde do povo de São
Paulo”. Lídia destacou que “o HC é importante
para Estado e para o Brasil e é uma referência
para a população”. “Chegar a esse ponto, onde a
falta de manutenção já havia sido apontada,
demonstra a política de desmonte desse governo.
Uma parte considerável de hospitais do Estado
foram entregues e a cada ano acompanhamos o
deterioramento do HC e nenhuma atitude é tomada.
É uma falta de compromisso e sensibilidade”,
denunciou.
Sem um plano de desocupação previamente
estabelecido de como e para onde os pacientes
deveriam ser conduzidos, na noite do incêndio a
correria e o improviso tomou conta do lugar, com
internos removidos às pressas para a rua. Por
volta das 22 horas, duas pessoas pularam da
janela do primeiro andar. Segundo um dos
diretores do hospital, uma enfermeira e um
paciente recém-saído de uma cirurgia tiveram
apenas ferimentos leves e foram encaminhados a
hospitais da região. O paciente Raimundo
Azevedo, que estava no prédio dos ambulatórios,
faleceu durante o acidente. Segundo sua filha,
Cláudia Maria Azevedo, ele pode ter morrido por
causa do incêndio: “Faltou energia no prédio.
Houve um apagão e tudo indica que faltou
aparelho para acompanhar o meu pai”, disse.
A
fumaça e a fuligem atingiram todos os andares e
danificaram equipamentos.
Somente no primeiro dia útil após o acidente,
1.543 consultas e exames originalmente agendados
para ocorrer no prédio dos ambulatórios foram
reagendados. Desde quarta-feira, 26, primeiro
dia útil após o fogo, mais de 4.000 consultas e
exames foram adiados.
O
governador José Serra esteve no local e disse
que nada de grave ocorreu. Questionado sobre o
fato das portas de emergência do prédio estarem
trancadas no momento do incêndio, o governador
não respondeu e passou a pergunta ao comandante
dos bombeiros presente no local.
ANA BRAIA
|