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Cinco anos sem
Julinho
ARIOVALDO IZAC *
No dia 11 de janeiro de 2003, portanto há cinco anos,
terminava a história do fantástico ponteiro-direito Júlio Botelho, o
Julinho. Seu generoso coração parou de bater.
Diferentemente de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, que pediram
dispensa da Seleção Brasileira na disputa da Copa América do ano passado
- para período de férias -, Julinho declinou o chamado do técnico
Vicente Feola, em 1958, para o Mundial da Suécia, por entender que
jogadores em atividades no Brasil deveriam ter prioridade. Assim, as
vagas ficaram com Joel e Mané Garrincha. E vejam que Julinho estava no
auge da carreira no futebol italiano, na Florentina.
Antigamente, atacantes de baixa estatura raramente eram
escalados como centroavante. Aqueles com reconhecida capacidade eram
deslocados para as beiradas do campo, quer como ponteiro-direito, quer
como ponteiro-esquerdo. E contrariando a lógica de que jogador alto não
tinha a velocidade exigida para a posição, Julinho, com 1,80m de altura,
dava piques invejáveis e ainda mostrava habilidade. Assim, desarrumava
os seus marcadores.
LENDÁRIO
A história desse lendário jogador começou no Juventus (SP)
em 1951. No ano seguinte foi jogar na Portuguesa, que montou um quinteto
ofensivo respeitadíssimo: Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simões.
Pinga esticava a bola para Julinho, que passava pelo marcador, ia ao
fundo do campo, e, com visão privilegiada, a colocava na cabeça de
Nininho. Aí, era correr para o abraço e comemorar o gol.
Julinho foi chamado pelo técnico Zezé Moreira (já falecido)
para ocupar a camisa sete da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da
Suíça, em 1954, ano em que nosso futebol se curvou à superioridade da
notável Hungria de Puskas, e que o ponteiro trocou a Lusa pela
Fiorentina.
Em Firenze, foi show e show. Por causa de “bailes”
memoráveis em adversários recebeu singela homenagem de proprietários do
restaurante que freqüentava, perto do campo da Fiorentina. No local,
ainda pode ser vista uma bem cuidada placa com o seguinte texto: “Aqui
almoçava Julinho Botelho”.
Em 1959, de volta ao Brasil e como atleta do Palmeiras,
Vicente Feola o escalou em jogo amistoso da Seleção Brasileira contra a
Inglaterra, em comemoração ao título mundial de 1958 da Copa da Suécia.
Pra que! O Estádio do Maracanã quase veio abaixo quando o serviço de som
anunciou a sua escalação. Cerca de 150 mil torcedores o vaiaram, mal
sabendo que Mané Garrincha estava fora de forma.
Calejado, Julinho não se abateu. Bastaram cinco minutos
para calar os incrédulos ao marcar o primeiro gol brasileiro. Depois,
deu o passe para Henrique marcar o segundo gol, e deixou o campo
aplaudido. “Foi a maior emoção de minha vida”, confessou.
CABECEIO
No Palmeiras, o atacante Servílio (já falecido) tinha como
explorar sua virtude no cabeceio, com os cruzamentos de efeito vindos da
direita, através de Julinho. Essa manjada jogada se arrastou até meados
da década de 60, quando Gildo ocupou a camisa sete do Verdão. A partir
daí, Julinho pôde sentir a gostosura de um passado de glória, com as
repetidas homenagens, a última delas a despedida oficial do futebol, em
fevereiro de 1967, num jogo amistoso contra o Náutico.
Imaginem no céu, na mesma mesa, os laureados ponteiros
Julinho, Joel e Mané Garrinha. No mínimo recordam os tempos em que os
pontas faziam a alegria do futebol.
* É jornalista em Campinas e colaborador do HP
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