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Repúdio mundial ao campo de torturas: ‘Fechem Guantánamo!’
Manifestantes foram às ruas nos EUA e Inglaterra, na França, Austrália,
Itália, República Checa, Espanha, Suécia, Irlanda, Hungria, Nova Zelândia,
Polônia, Turquia, Líbia, Paraguai e Filipinas exigindo fim dos antros de
tortura criados por W. Bush
Na data do sexto ano de criação, por W. Bush, do
seu campo de concentração de Guantánamo – o dia 11 de janeiro -,
manifestantes exigiram nos EUA, na Inglaterra e em mais de uma dezena de
países o imediato fechamento do antro. As manifestações – divulgadas como o
“Dia Internacional pelo Fechamento de Guantánamo” -, foram convocadas pela
Anistia Internacional, a União Americana pelos Direitos Civis (Aclu, na
sigla em inglês), Testemunhas contra a Tortura, associações de veteranos,
igrejas e mais uma centena de entidades dos EUA, assim como um grande número
de organizações do mundo inteiro. Só nos EUA, as mobilizações atingiram em
torno de 60 cidades, de Nova Iorque a Los Angeles. Além da já citada
Inglaterra, ocorreram atos contra Guantánamo diante de embaixadas e
consulados norte-americanos na França, Austrália, Itália, República Checa,
Espanha, Suécia, Irlanda, Hungria, Grécia, Nova Zelândia, Polônia, Turquia,
Líbia, Marrocos, Paraguai, Bahrein e Filipinas.
“FECHA!,
FECHA!”
Mais de mil presos, inclusive adolescentes, já
passaram por Guantánamo. Por toda parte, os manifestantes exigiram “Fecha!
Fecha!” e “Não à Tortura!” Um abaixo-assinado pelo fechamento do mais
notório centro de tortura de Bush já alcançou 105 mil assinaturas, e a AI
anunciou que irá entregá-lo à Casa Branca. O desmantelamento conta, ainda,
com o apoio de 1.100 parlamentares do mundo inteiro. Só da Espanha são 170,
cujas assinaturas foram entregues à embaixada em Madri.
Em Londres, a mobilização começou já na véspera,
com a colocação de duas jaulas como as de Guantánamo, e de mesmas dimensões,
diante da embaixada dos EUA, e uma vigília que varou noite. Manifestantes
vestidos com o macacão laranja característico dos presos de Guantánamo, e
encapuzados, se revezaram dentro das jaulas, para denunciar o campo de
tortura. Também houve um ato em Edimburgo, capital da Escócia.
SYDNEY
As mesmas vestes laranja apareceram nas
denúncias feitas nesse dia no mundo inteiro. Em Sydney, na Austrália, uma
multidão de uniformizados de laranja e mascaras brancas cercava uma
reprodução da Estátua da Liberdade. Repúdio também em Paris, Roma, Praga,
Bruxelas, Dublin e Barcelona. Em Atenas um grupo de manifestantes ironizou a
desfaçatez sobre a tortura com o water-boarding (afogamento).
Apresentaram-se deitados, de macacões laranja, alguns com vendas nos olhos,
em espreguiçadeiras sobre um falso gramado, e com um cartaz: “Guantánamo,
hotel 50 estrelas”.
Na capital dos EUA, Washington, duas colunas de
manifestantes trajados de laranja e capuzes, e carregando caixões pintados
de negro, se dirigiram do National Mall, o ponto de encontro, até a Suprema
Corte dos EUA por volta de meio-dia. Cada um representava um dos presos
seqüestrados, mantidos ilegalmente no cativeiro e torturados a mando de
Bush. Foram sendo presos acusados de “perturbarem” a Suprema Corte. A mesma
que durante anos ficou muda perante os crimes de guerra praticados em
Guantánamo; surda aos apelos dos advogados dos torturados; e cega.
De acordo com as agências de notícias, o número
de manifestantes presos chegou a 80. Ao serem presos, eles não apresentavam
sua própria identificação, mas a de algum dos cativos de Guantánamo –
aqueles a quem essa mesma corte, durante tanto tempo, negou até mesmo a
proteção das Convenções de Guerra de Genebra e do Código Penal dos EUA.
Advogados que faziam parte da manifestação
dirigiram-se aos nove juízes, para formalmente apelar sobre o que “o resto
do mundo sabe: que a tortura e a suspensão do Hábeas Corpus são não apenas
imorais e inconstitucionais, mas que há crimes de guerra pelos quais as
autoridades dos EUA devem prestar contas”. Fora da corte, foram lidos
testemunhos e nomes dos prisioneiros, e fornecidas informações sobre a
situação dos “processos”.
COMPROMISSOS
A manifestação, nos termos do compromisso
assumido pelos 105 mil que já assinaram, convocou o governo dos EUA a:
“- Revogar a Lei das Comissões Militares
[tribunais de exceção] e restaurar o Habeas Corpus;
- Apresentar uma acusação e julgar, ou libertar
todos os prisioneiros;
- Proibir clara e inequivocamente a tortura e
todas as demais formas de tratamento degradante, cruel e desumano por parte
dos militares, da CIA, dos guardas da prisão, contratistas civis, ou quem
quer que seja;
- Pagar indenizações aos atuais e antigos presos
e seus familiares por violação dos seus direitos humanos; e
- Fechar Guantánamo, Bagram, e todas as
instalações secretas de cativeiro da CIA”.
SAN FRANCISCO
Além de Washington, foram realizadas manifestações em Nova York, Boston, Los
Angeles, Miami, Albany, Chicago, Cleveland, Columbia, Dallas, Des Moines,
Fairbanks, Lexington, Minneapolis, New Orleans, Philadelphia, Pittsburgh,
Portland, Raleigh, San Diego, San Francisco, Seattle, Springfield, Syracuse,
Tampa, Tucson e Waikiki.
Quanto mais evidente a reprovação do povo norte-americano às guerras
de Bush, mais cínica se torna a encenação dele sobre Guantánamo: já disse
que “gostaria” de fechar a prisão. Seu chefe do Pentágono, Robert Gates,
idem. Na semana do natal, foi a vez de Madame Rice. Agora, até o chefe do
Estado-Maior. Sem esquecer os editoriais de jornais. Com tanta gente a favor
do fechamento, causa pasmo que ainda esteja aberta.
DIGITAIS DE
BUSH
Vai ver, é por causa dos prisioneiros, que já
não poderiam viver sem o water-boarding de cada dia e o rock’n’roll
ensurdecedor: não querem deixar Guantánamo de jeito nenhum. Alguns jornais
têm outra pista muito promissora: a culpa é dos países de onde esses
prisioneiros foram seqüestrados, que não colaboram para o retorno. Ou então,
como Bush poderia chantagear o povo norte-americano com a ameaça do terror,
sem uma Guantánamo à mão? Quem sabe o fim-de-linha tenha um problema mais
simples, as digitais? Estão por toda a parte - nos porões de Guantánamo, nos
memorandos das torturas, em Abu Graib e Bagram. As dele, as de Cheney e de
outros menos votados. Mas não foi para isso que Mr. Mukasey foi convocado às
pressas?
ANTONIO PIMENTA
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