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O assassinato de Benazir e o futuro do Paquistão
* MAZDA MAJIDI
No dia 27 de dezembro de 2007, Benazir Buttho,
ex-primeira-ministra do Paquistão foi assassinada. Reportagens divulgadas
logo após o assassinato apontavam que as balas foram disparadas por um
franco-atirador, seguido por um homem-bomba.
A justificável indignação do povo do Paquistão -
que responsabiliza diretamente os militares pelo assassinato de Benazir - é
mais uma acusação contra a ditadura militar satélite dos EUA do que um apoio
às credenciais democráticas de Benazir.
A mídia corporativa adotou a versão divulgada
por Bush de que a Al Qaeda foi responsável pelo ataque e que Benazir foi uma
incansável guerreira pela democracia. Implícita nessa história está o
conceito de que o povo paquistanês, com seu atraso islâmico, ainda não está
preparado para uma “Democracia Feminina”.
A família Bhutto no Paquistão é bem conhecida
por sua luta pela independência e por reformas populares. O pai de Benazir,
Zulfikar Ali Buttho, fundou o Partido do Povo do Paquistão (PPP), um partido
que até hoje deve sua popularidade à luta do povo paquistanês contra a
ditadura militar inseparável dos EUA. Buttho, o pai, foi presidente de 1971
a 1973 e primeiro-ministro de 1973 a 1977.
Levado ao poder por gigantescos protestos contra
o regime paquistanês, Buttho levou o Paquistão à independência e na direção
dos países não-alinhados. Durante seu mandato, profundas reformas foram
implementadas incluindo a nacionalização de indústrias e reforma agrária,
beneficiando a classe trabalhadora e os pobres do Paquistão.
Porém, em julho de 1977, o general Muhammad
Zia-ul-Haq, apoiado pelos EUA, aplicou um golpe, prendeu Buttho e paralisou
seu programa político. Com protestos de massa apoiando-o, as reformas de
Buttho foram além do que a classe dominante do Paquistão estava disposta a
conceder. Em abril de 1979, o general Muhammad Zia-ul-Haq enforcou Buttho.
Em sua ascensão ao poder político, Benazir –
educada em Oxford – exibiu poucos sinais de fidelidade ao legado de sua
família. Foi eleita primeira-ministra em 1988 e destituída em 1990 sob
acusações de corrupção. Ela tornou-se premiê de novo em 1993 e permaneceu
três anos no poder quando novamente foi destituída sob persistentes
denúncias de corrupção.
Durante seus cinco anos como primeira-ministra,
Benazir Buttho não implementou nenhuma reforma do tipo das que tornaram seu
pai popular no país e não passou de uma aliada dos EUA, envolvida no apoio
paquistanês às forças contra-revolucionárias no Afeganistão.
Durante seu mandato, a infame força de segurança
do Paquistão, a ISI (Inter Serviços de Inteligência), assassinou Murtaza,
irmão de Benazir. Murtaza foi um franco crítico da linha conciliatória de
sua irmã e propôs o retorno do PPP aos seus valores originais. A reação de
Benazir ao assassinato de seu irmão foi encobrir o crime e prender e
silenciar as testemunhas.
Benazir foi forçada a viver no exílio para
escapar das acusações de corrupção. Foi sentenciada à revelia numa corte
paquistanesa, o que acarretou uma requisição à Interpol, em 2006, para
prendê-la.
Posteriormente, os líderes militares
paquistaneses, Musharraf e seus parceiros, assim como seus predecessores,
historicamente estiveram envolvidos em espoliar os recursos do Paquistão
para ganhos pessoais.
ACORDO
BENAZIR-MUSHARRAF
Acordo entre os EUA e a Inglaterra pavimentou o
caminho para o retorno de Benazir ao poder. Musharraf, que havia acabado de
ser eleito em outra eleição fraudulenta, assinou uma ordem presidencial, o
Decreto de Reconciliação Nacional, e concedeu anistia a Benazir, a despeito
de todas as acusações de corrupção.
Mas Musaharraf estava enfrentando a disposição
da Suprema Corte de invalidar suas eleições presidenciais. De acordo com a
constituição do Paquistão, o chefe dos militares não tem o direito de
concorrer à Presidência. Musharraf declarou lei marcial e removeu todos os
ministros da Suprema Corte. Os ministros ilegalmente indicados por Musharraf
validaram sua eleição.
Após a imposição da lei marcial, Benazir oscilou
em sua aliança com Musharraf, respondendo à onda de protestos massivos,
assim como às pressões dos dirigentes de seu próprio partido, o PPP. Durante
esse período, Musharraf temporariamente a colocou em prisão domiciliar e a
impediu de participar de atividades políticas.
Porém, o subsecretário de Estado, John
Negroponte, fez uma viagem ao Paquistão. Durante anos, Musharraf pavimentou
seu papel como apoiador da “guerra ao terror” dos EUA. A reivindicação de
Benazir para concorrer era o lado civil de um dócil governo que seria o
melhor para os Estados Unidos confrontar o “terrorismo”. A viagem de
Negroponte solidificou a cooperação Buttho-Musharraf e o cenário estava
pronto para as eleições de janeiro de 2008, com o resultado previsível:
Benazir Buttho se tornando primeira-ministra e Musharraf mantendo a
presidência.
Musharraf, Bush e outros foram rápidos em
implicar a Al Qaeda pelo assassinato de Benazir. Entretanto, Meshud, líder
dos Talibãs no Paquistão e Jamaat Islami, outro grupo nacionalista islâmico,
negaram qualquer envolvimento. A conveniente acusação de que a Al Qaeda
organizou o assassinato demonstra-se não convincente. De fato, o marido de
Bhutto rejeitou de modo claro as acusações de que o assassinato de sua
esposa tenha sido organizado pela Al Qaeda ou pelo Tailbã.
Após a primeira tentativa de assassinato, em 18
de outubro de 2007, Bhutto responsabilizou “certos indivíduos que abusam de
suas posições”. Ela até mesmo enviou uma carta a Musharraf contendo uma
lista de pessoas no “governo e nas forças de segurança do Paquistão” que
conspiravam contra ela.
Benazir Buttho não representava as aspirações do
povo paquistanês por independência e justiça social. Nem representava um
movimento pela democracia. Seu assassinato é uma mostra da repugnância de
uma ditadura militar profundamente alinhada com os EUA, relutante em dividir
o poder político.
Através de sua contínua luta, os paquistaneses
irão chegar à democracia real, removendo a opressão da dominação
imperialista e dando poder às massas contra os exploradores externos e
internos, com ou sem uniforme. Ao longo dessa caminhada, a herança da
família Buttho – excluindo Benazir - servirá como inspiração.
* O artigo de Mazda Majidi, cujos principais trechos publicamos acima,
expressa a opinião do Partido pelo Socialismo e Libertação (EUA)
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