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Fica, Gil!
JORGE ANTUNES (*)
No dia 9 de julho de 2004, estive na sede da
AFAA, avenue de Villars, Paris, para um encontro com Jean Gautier, comissário do
Ano do Brasil na França. Na condição de presidente da Sociedade Brasileira de
Música Eletroacústica, meu propósito era buscar espaços para a nova música
erudita brasileira, abandonada pela política cultural do governo Lula.
Cordialidade e confidências políticas: a
conversa foi promissora. Elaboramos uma estratégia de convencimento de André
Midani, o comissário brasileiro, para que nossa música erudita contemporânea
tivesse lugar no Ano do Brasil. Gautier me confidenciou que Midani esteve
relutante com relação a isso. O governo brasileiro só estava interessado em
mostrar as manifestações culturais que pudessem dar resultados para a indústria
do turismo.
Enfim, Gautier não conseguiu convencer Midani. O
Ano do Brasil na França não deu espaço à música contemporânea brasileira.
Perplexo ficou o largo público de todos os festivais franceses de música
moderna: Lille, Paris, Bourges, Lyon, Crest, Marseille etc. Seguindo as
instruções do ministro Gil, André Midani, homem das multinacionais do disco,
levou à França a música popular comercial, em detrimento da música erudita
brasileira.
Poucos sabem que havia um acordo prévio entre
Lula e Jacques Chirac para aquela hospitalidade francesa. O acordo veio a se
oficializar em 25 de maio de 2006, quando Chirac veio ao Brasil e os dois
governos assinaram declaração conjunta. Essa, em seu artigo 7, determinava: “Os
presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Jacques Chirac decidem organizar o Ano
da França no Brasil em 2009, após o sucesso do Ano do Brasil na França em 2005.
O evento destacará os domínios científicos, tecnológicos e culturais”.
A comunidade musical da área erudita ficou
estarrecida com a indiferença do governo brasileiro em 2005. Os meios
acadêmicos, que abrigam a pesquisa musical e a música erudita brasileira, se
indignaram. Neste final de 2007, o desespero deve estar começando a invadir a
cabeça do ministro Gil porque 2009 se aproxima. A França tem a oferecer muita
música erudita, tradicional e contemporânea, para o Ano da França no Brasil. As
instituições brasileiras que podem abrigar os eventos são justamente as
dirigidas pelos músicos eruditos que foram discriminados em 2005.
Gilberto Gil certamente tem medo de não ter
condições para atender os anseios franceses e de, assim, não poder cumprir com
os compromissos da declaração conjunta de 2005. Portanto, seguramente ele já
deverá estar vislumbrando uma saída: a fuga covarde, sua demissão do MinC.
Gritemos daqui: “Fica, Gil!” Está chegando a
hora da magnanimidade da comunidade musical erudita indignada. A vinda de nova
missão artística francesa ao Brasil será oportunidade de se oferecer bela lição,
para o MinC e para o governo Lula, sobre respeito à diversidade cultural.
O governo francês já percebeu a incapacidade do
governo brasileiro para acolher a cultura francesa. Em agosto, o diretor da
Cultures France, Olivier d’Arvor, veio ao Brasil para sondar o terreno e traçar
planos de driblar a incompetência do MinC, para que o acordo Brasil—França se
cumpra em 2009. O diretor da antiga AFAA andou por várias cidades brasileiras,
evitando as imediações da Praça dos Três Poderes. Para costurar 2009, foi direto
aos artistas, universidades e instituições culturais.
Segundo D’Arvor, um dos principais objetivos do
Ano da França no Brasil será trazer a cultura francesa contemporânea. Ou seja, a
França quer fazer exatamente o oposto daquilo feito pelo governo brasileiro, que
só levou à França, em 2005, manifestações de massa, conhecidas e exploradas pela
indústria cultural. A ação direta, in loco, que os franceses fazem dois anos
antes em solo brasileiro, é estratégia prudente de quem já foi ludibriado em
acordos anteriores. México e Argentina tiveram seus anos na França, mas não
organizaram Ano da França em casa, descumprindo acordos.
Em dezembro receberemos (**) a visita do
primeiro-ministro da França, François Fillon. Na agenda estará a cobrança das
promessas para 2009. Malgré o MinC, abramos as portas para a cultura francesa.
Talvez possamos, assim, iniciar um contraponto à invasão cultural
norte-americana. Bons tempos já vivemos graças à vinda de Lebreton, Debret,
Taunay e Montigny. Um país que é capaz de organizar, desde já, uma Copa do Mundo
de Futebol para 2014, pode muito bem começar a planejar festejos para 2016,
quando estarão se completando 200 anos da vinda da Missão Artística Francesa.
(*) é maestro,
professor titular da UnB, Chevalier des Arts et des Lettres (Cavaleiro das Artes
e das Letras - título conferido pelo governo francês em reconhecimento a
significantes contribuições às artes e literatura).
(**) Artigo
publicado originalmente no Correio Braziliense, na edição 15/11/2007. |