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A crise dos EUA: os déficits trigêmeos e o endividamento
Renúncia
fiscal em torno de US$ 150 bilhões anunciada por Bush representa pouco mais
de 1% do PIB e é insuficiente para evitar a recessão nos EUA, onde o que
está em discussão agora é sua profundidade e duração
*NILSON
ARAÚJO DE SOUZA
Tem sido cada vez mais difícil para o governo dos EUA operar os
instrumentos convencionais destinados à reativação da economia. Além disso,
esses instrumentos tornam-se cada vez mais ineficazes no contexto da
economia estadunidense. Isso se revela mais uma vez neste momento em que a
maior economia do Planeta inicia novamente um processo recessivo. Para
entender esse fato, é necessário perceber a real natureza da atual crise da
economia estadunidense. Diferentemente das outras vezes, nas quais as crises
começavam pelo estouro na bolsa de valores, agora o detonador foi a
implosão, em meados do ano passado, da bolha hipotecária do mercado
imobiliário.
A crise deflagrou-se, assim, por um dos tripés do déficit trigêmeo:
o déficit das famílias, as quais vêm, desde 1999, consumindo mais do que
ganham. O resultado foi o aumento crescente do endividamento familiar. Um
dos recursos adotados para viabilizar esse consumismo foi a tomada de
empréstimos no mercado imobiliário dando como garantia a própria residência,
isto é, hipotecando-a. Quando os juros estavam baixos (no começo desta
década, a taxa básica praticada pelo Banco da Reserva Federal, o banco
central dos EUA, chegou ao patamar de 0,5% ao ano), as famílias conseguiram
compatibilizar renda e endividamento, mas, quando os juros voltaram a subir
até atingirem a taxa de 5,25% no ano passado, já não foi possível manter
essa conciliação e a bolha estourou em inadimplência, tomada dos imóveis
pelos bancos, queda do valor dos imóveis, crise do sistema bancário
(estima-se que seus prejuízos podem variar de US$ 400 bilhões a US$ 700
bilhões) e encurtamento do crédito.
A real natureza da crise está no fato de que, há já duas décadas, os
Estados Unidos vêm consumindo mais do que produzem. E, para viabilizar esse
excedente de consumo, têm se endividado de forma crescente e explosiva. Esse
fato se manifesta no déficit trigêmeo: o déficit externo, o déficit público
e o déficit familiar. O primeiro indica que o conjunto do país está
consumindo mais do que produz; o segundo, que o setor público gasta (em
consumo e investimento) mais do que arrecada; e o terceiro, que as famílias
consomem mais do que ganham.
O déficit externo, medido pelo saldo em transações correntes do
balanço de pagamentos (soma da balança comercial com a de serviços), surgiu
em 1982 e vem crescendo desde então, à exceção do período 1987-1991. Sua
evolução recente foi a seguinte:

Esses 7% do PIB em 2007 correspondem a um déficit em transações
correntes de quase US$ 1 trilhão, valor próximo ao montante das exportações
dos EUA no mesmo ano. Os próprios economistas conservadores costumam dizer
que, quando esse índice atinge a cifra de 3,5%, explode uma crise financeira
no país, em face da desconfiança que gera nos “investidores”. Foi isso que
ocorreu no Brasil durante a crise da dívida no começo dos anos de 1980 e
durante a crise do Plano Real em 1998-99, e foi isso que ocorreu na crise
dos chamados tigres asiáticos em 1997-98. Os EUA têm conseguido empurrar com
a barriga a crise porque, sendo a maior economia do Planeta e os emissores
do principal dinheiro mundial, têm conseguido financiar esse déficit.
Mas o resultado foi o surgimento e crescimento acelerado de sua
dívida externa. Já em meados dos anos de 1980, os EUA haviam se tornado nos
maiores devedores líquidos do mundo. E essa dívida tem crescido de maneira
explosiva na presente década.
Veja a tabela abaixo:

As primeiras estimativas dão conta de que em 2007 a dívida tenha
chegado a US$ 10,15 trilhões, equivalentes a 72% do PIB daquele país. A
causa mais remota dessa dívida foi a perda de competitividade dos EUA frente
aos seus à época principais contendores internacionais, o Japão e a
Alemanha, entre o final da década de 1960 e o começo da de 1970. Graças a
seus custos mais baixos, obtidos em função dos avanços tecnológicos e dos
salários menores, os produtos japoneses e alemães passaram a inundar o
mercado estadunidense, além de desbancar seus produtos dos demais mercados,
provocando um déficit comercial crônico que, inicialmente coberto pela
emissão de dólar sem lastro e pelo uso das reservas em ouro, terminou sendo
financiado com empréstimos internacionais, oriundos dos próprios países que
tinham superávit comercial com os EUA.
A reação da administração Reagan, ao longo da década de 1980, diante
da perda de competitividade e das reservas em ouro e do processo recessivo
que então se verificou, terminou por produzir um déficit público e um
conseqüente processo de endividamento público. Para tentar atrair capitais
externos a fim de financiar o déficit externo, a Reserva Federal passou a
praticar, na virada dos anos de 1970 para os de 1980, juros cada vez mais
elevados. Atingiram então a taxa de 20% ao ano. Além disso, na tentativa de
reativar a economia, a administração Reagan cortou os impostos dos mais
ricos e elevou os gastos públicos (sobretudo os militares, que cresceram a
8% reais ao ano durante aquela administração), injetando, assim, mais
dinheiro na economia.
Menos receita e mais despesas (com armas e com juros), favorecendo
pelos dois lados a oligarquia bélico-financeira, trouxeram como resultado o
surgimento do déficit nas contas públicas. Para financiar o déficit,
recorria-a a empréstimos, inclusive no mercado internacional. Em 1989, a
dívida pública dos EUA já era de US$ 2,7 trilhões. A administração Clinton
conseguiu equilibrar as contas públicas, inclusive chegando a gerar
superávit. Legou a Bush um superávit de US$ 236 bilhões. Mas Bush já o
transformou em déficit em seu primeiro ano de governo. Em seu primeiro
mandado, o déficit das contas públicas teve a seguinte evolução:
EUA:
déficit público (% do PIB)
2001
2002 2003 2004
0,2
3,3 4,0 4,9
De 2004 para cá, esse déficit tem estado em torno de US$ 400 bilhões
ao ano. A conseqüência foi o crescimento da já elevada dívida pública, que
teve o seguinte comportamento:

Em 2007, essa dívida já representava 70% do PIB. Isso foi produto da
repetição, por Bush, da estratégia adotada por Reagan na década de 1980. Ao
assumir, no começo de 2001, a economia estadunidense estava mergulhando em
um processo recessivo: a produção industrial caiu 4,7%, na base anualizada,
no primeiro trimestre de 2001, a produção de bens duráveis (aí incluindo
bens de capital) desabou em 10,2% e o investimento, em 2,1% (SOUZA, Nilson
Araújo de. Ascensão e queda do império americano. São Paulo: CPC-UMES/Mandacaru,
2001, p. 203). O PIB naquele ano cresceu apenas 1,2%, contra uma média de
4,1% nos dois anos anteriores.
A política adotada por Bush para reativar a economia constou de três
ações básicas: aumento do gasto público (sobretudo militar: só na guerra
contra o Iraque, estima-se que já gastou US$ 400 bilhões), redução de
impostos para os ricos (a receita fiscal federal caiu de 20,9% do PIB em
2000 para 16% em 2004) e redução da taxa básica de juros até o patamar de
0,5% ao ano (único aspecto diferente da estratégia reaganiana, que elevou a
taxa de juros). Da mesma forma que na era Reagan, a estratégia adotada por
Bush contribuiu para reativar a economia dos EUA, fazendo retomar o ritmo de
crescimento do período Clinton (no qual a economia crescera alavancada pelas
exportações): de 2002 a 2007, segundo dados do Departamento de Comércio, o
crescimento médio anual do PIB situou-se em torno de 3% (considerando uma
estimativa favorável de 2,9% para 2007).
No entanto, o resultado, como vimos, foi o esgarçamento ainda maior
das finanças do país, ao acelerar a imbricação explosiva entre dívida
externa, dívida pública e dívida familiar. Segundo levantamento de André
Gunder Frank, em seu último artigo publicado em vida, o conjunto da dívida
dos EUA (externa, pública, familiar e empresarial) chegara a US$ 37
trilhões, três
vezes maior que seu PIB (FRANK, André Gunder. “O rei está nu. A
ascensão vertiginosa da dívida externa dos EUA e o declínio do dólar
americano”). A gigantesca dívida foi, ao longo dos anos, alavancando a
emissão de derivativos, isto é, títulos emitidos com base em outros títulos,
conformando um processo especulativo inédito que funciona como um verdadeiro
cassino. E assim crescentemente massas enormes de recursos financeiros são
transferidas da esfera produtiva para a esfera puramente especulativa,
aumentando ainda mais o fosso entre produção e consumo e ampliando o
endividamento como caminho para preencher esse fosso.
Nas políticas keynesianas, tradicionalmente usa-se o gasto público –
e, por conseguinte, o déficit fiscal – como instrumento de dinamização do
mercado e, portanto, de reativação da economia, mas, iniciado o período de
crescimento econômico, o déficit tende a desaparecer, graças ao aumento da
arrecadação resultante da melhoria econômica, e assim a dívida pára de
crescer. No entanto, nos EUA, o déficit persiste mesmo no período de
crescimento da economia, devido a três fatores: a) a elevada dimensão da
dívida, que engendra encargos financeiros crescentes; b) o elevado nível de
especulação financeira, que bloqueia a melhoria substancial da economia e,
portanto, a melhoria da arrecadação; c) a incapacidade da decrépita economia
estadunidense se expandir sem a muleta do déficit público. Por isso, o
endividamento público acelerado prossegue mesmo em período de expansão, o
mesmo ocorrendo com o endividamento externo e o familiar, agindo o conjunto
como bloqueio a essa mesma expansão.
O problema é que o Banco da Reserva Federal tem que elevar a taxa
básica de juros a fim de atrair capitais ext ernos e internos como forma de financiar a rolagem dessa plêiade de
dívidas. Em efeito de bumerangue, os juros elevados aceleram mais ainda as
dívidas, ensejando a ocorrência de crises financeiras, inadimplência,
falências... E foi isso que fez a administração da Reserva Federal nos
últimos anos: depois de haver baixado a taxa básica para 0,5% ao ano,
começou a aumentá-la em junho de 2004 até atingir 5,25% em 2007. E, como
sempre ocorre na história das crises recorrentes dos EUA, a elevação dos
juros termina por fazer explodir a bolha especulativa alimentada pelo
endividamento, detonando o processo de crise. Em 1929, furou a bolha da
bolsa de valores; em 2000-2001, a da bolsa de alta tecnologia (Nasdaq) e,
agora, a partir de meados de 2007, a da especulação imobiliária, repetindo o
que ocorrera no Japão no começo dos anos de 1990 e que deflagrou naquele
país a mais longa estagnação da sua história.
Diante desse quadro, a administração Bush volta a adotar o mesmo
remédio utilizado em 2001. Primeiro, já em 2007, a Reserva Federal começou a
baixar a taxa básica de juros, reduzindo-a, em duas etapas, de 5,25% ao ano
para 4,25%. Mas, depois que o presidente da Reserva Ben Bernanke jogou a
toalha e anunciou que a política monetária sozinha não seria capaz de
impedir a recessão econômica, cobrando a ação do governo na área fiscal, o
presidente Bush, na terceira semana de janeiro de 2008, anunciou os
“princípios” de um pacote econômico a ser encaminhado ao Congresso. Desta
vez, abdicou do aumento de despesas e concentrou-se na redução de impostos,
prometendo devolver dinheiro aos contribuintes e realizar a exoneração
fiscal na compra de bens de capital pelas empresas. O valor da renúncia
fiscal deve chegar a um montante entre US$ 140 bilhões e US$ 150 bilhões,
pouco mais de 1% do PIB.
Os analistas econômicos de todos os matizes são unânimes na
avaliação de que esse volume de recursos é insuficiente para evitar o
processo recessivo nos EUA. Não passa de um grão de areia no deserto. Além
disso, como assinalamos antes, o próprio presidente da Reserva Federal dos
EUA já havia constatado que a política monetária, por si só, era incapaz de
garantir esse resultado. Isso ocorre, dentre outras coisas, porque ele não
pode baixar muito a taxa de juros. E aí está o nó do problema: para
minimizar a recessão e viabilizar a reativação econômica, seriam necessárias
uma queda bem mais substancial da taxa de juros e a injeção de um volume
muito maior de recursos fiscais. Por que, então, o governo e seu banco
central não se unem para efetivar essas medidas?
Examinemos por partes. A elevada dimensão das dívidas externa e
interna do país inviabiliza uma queda maior da taxa de juros. Isto porque,
para refinanciá-las e cobrir os déficits externo e interno, é necessário um
nível de juros que possa atrair capitais externos, principalmente dos países
que têm superávit comercial com os EUA (como Japão, China e Alemanha). Não
bastasse isso, a inflação nos EUA, pressionada em grande medida pelo preço
do barril do petróleo (que bateu nos US$ 100) e o preço dos alimentos,
escapou do controle da Reserva Federal, atingindo 4,1% em 2007 (sem energia
e alimentos, ficaria em 2,4%), o maior índice em 17 anos e quase o dobro do
índice de 2006. E, monetaristas como são, eles só enxergam uma maneira de
combater a inflação: com juros altos. Precisam de juros baixos para combater
a recessão, mas têm que recorrer a juros elevados para refinanciar as
dívidas e combater a inflação. O banco central estadunidense está numa
verdadeira sinuca de bico.
A elevada dimensão das dívidas também dificulta uma renúncia fiscal
maior do que a planejada pelo governo. Isso significaria aumentar o déficit
fiscal e, em conseqüência, elevar ainda mais a dívida pública. Implicaria
também praticar juros altos como forma de atrair recursos para cobrir o
déficit.
A magnitude das dívidas estadunidenses limita, portanto, a
capacidade de utilização, pelo governo, dos instrumentos clássicos
keynesianos. Quando chega a esse ponto, ou o governo, preventivamente,
enfrenta o problema da dívida, suspendendo seu pagamento – coisa que, nas
atuais circunstâncias, dificilmente faria o governo dos EUA. Ou a emergência
da crise se encarrega de pulverizar parte das dívidas. Isso, de alguma
maneira, já vem ocorrendo através da desvalorização do dólar. Segundo André
Gunder Frank, no artigo citado anteriormente, a desvalorização do dólar em
40% (de 80 centavos por euro para 133 centavos) implicou em igual
desvalorização, em moeda estrangeira, da dívida externa dos EUA. Apesar
disso, a crise bateu à porta. Isso mostra que a situação é tão grave que
exigiria uma pulverização maior de todas as dívidas. A recessão
estadunidense veio, portanto, para ficar. O que estão em discussão é a
profundidade e a duração dela. Isso depende, em grande medida, de quão a
administração daquele país ainda possa avançar nas políticas monetária e
fiscal.
*Economista, professor e membro do Secretariado Nacional do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro – MR8
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