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O mercado cinematográfico na
contra-mão do desenvolvimento
“A burocracia da Ancine e os
testas-de-ferro dos cartéis da indústria cultural apressam-se em arranjar
culpados: os estudantes, os cineastas, o público, os piratas, o pipoqueiro.
Qualquer um, menos eles, com suas políticas e práticas deletérias para o setor”
VALÉRIO BEMFICA
Os brasileiros foram menos ao
cinema em 2007: os espectadores diminuíram em 2,9%, chegando ao menor
patamar desde 2002. E o cinema nacional, coitado, continua amargando uma
vergonhosa proporção de público: 11,1%, menos do que em 2005 e pouco superior a
2006, quando atingiu 10,9%. Mas o aumento é apenas relativo: foram 9,9 milhões
de espectadores de filmes nacionais em 2006, contra 9,8 milhões em 2007, ou
seja, cem mil pessoas a menos.
A burocracia da Agência Nacional
de Cinema e os testas-de-ferro dos cartéis da indústria cultural apressam-se em
arranjar culpados: os estudantes, os cineastas, o público, os piratas, o
pipoqueiro. Qualquer um, menos eles, com suas políticas e práticas deletérias
para o setor. Pura embromação. A produção nacional foi maior e a economia vive
um momento de expansão. Por que isso não se reflete na ampliação do número de
espectadores? As sumidades do mercado e de sua agência reguladora não conseguem
uma resposta convincente.
Nós do HP, que não temos nenhuma
pretensão de sermos sumidade, mas que também não somos nem bobos nem
mal-intencionados, precisamos apenas de uma frase para explicar a situação. O
preço do ingresso é extorsivo, os locais de exibição são concentrados e pouco
acessíveis à maioria da população e os filmes que chegam, de fato, às telas do
circuito exibidor são, em sua maioria, ocos e desinteressantes.
Para nossos leitores, mais não
precisaríamos dizer. Já abordamos várias vezes o tema e esta é uma realidade
evidente. Mas talvez reste, dentre os responsáveis no Minc e na Ancine pela
formulação de políticas para o setor, alguma boa alma, ainda não cooptada pelos
interesses das majors da produção, distribuição e exibição. Expliquemos, então,
cada um destes três fatores.
A MONOPOLIZAÇÃO
Para esclarecer a situação, vamos
relembrar o ano de 1975. O país contava com cerca de 100 milhões de habitantes.
Foram vendidos, naquele ano, 275 milhões de ingressos. Havia 3.276 salas de
cinema e pagava-se, em média, U$ 0,39 para assistir a um filme. Em 2007, com uma
população de quase 190 milhões de pessoas, foram vendidos 88,6 milhões de
ingressos, em 2.300 salas, a um preço médio de U$ 4,70. O número de ingressos
per capita caiu 83%, as salas diminuíram 30%, mas a renda aumentou 290% em
dólares! E o valor médio do ingresso subiu incríveis 1.105%!
“A culpa é da meia-entrada”, que
seria o “câncer do entretenimento no Brasil”, cacareja nos jornais um
funcionário de terceiro escalão das multinacionais da exibição. Mentira
deslavada, leitor. Empresas como a Cinemark é que são o câncer da cultura
mundial! A conquista histórica dos estudantes nunca foi um problema para os
cinemas - na realidade sempre foi um importante instrumento de formação de
público -, até a emissão da Medida Provisória 2208/01, exarada pelo então
Ministro da deseducação tucano, Paulo Renato de Souza. Sua verdadeira intenção
era acabar com o direito dos estudantes e com as entidades estudantis, tentando
equiparar qualquer papel velho às carteirinhas emitidas pelas organizações
representativas dos estudantes. Se os cartéis do entretenimento estivessem se
importando com o assunto, juntariam forças com os estudantes na luta pela
revogação da absurda medida. Mas nada fazem. Além do mais, o argumento é um
atentado à matemática. Em 2001 - antes da MP, portanto - o preço médio do
ingresso era de U$ 2,45, isto é, 528% maior do que o de 1975, quando a
meia-entrada já existia. O preço quintuplicou, sem que houvesse aumento nas
vendas para estudantes. E, em 2007 ele é 92% maior, em dólares, do que em 2001.
Ou seja, praticamente dobrou. Se houvesse 100% de meias-entradas - o que nem
sequer o fanfarrão supracitado tem coragem de alegar - ainda assim eles estariam
ganhando a mesma coisa.
Uma comparação por década permite
vislumbrar melhor a política dos cartéis do setor. Durante os anos 70 a
meia-entrada para estudantes era respeitada. O preço médio do ingresso foi de U$
0,44 e a média de ingressos vendidos por ano era de 214,1 milhões. Entre 1980 e
1989 o direito dos estudantes foi cassado, nos estertores do regime ditatorial.
O resultado é que o preço médio saltou para U$ 2,62 e o público caiu 45%, para
118,2 milhões. Os anos 90, que marcam a invasão das empresas estrangeiras no
setor, viram a meia-entrada ressurgir. Mas, apesar dela (e não por conta dela),
os preços continuaram subindo e o público sumindo. O ingresso custou, em média,
U$ 3,09 e o público ficou abaixo dos 75 milhões. A tendência continua igual na
década atual. A relação que se pode estabelecer é óbvia: quanto mais caro o
ingresso, menor o público. E foi justamente isso que eles quiseram fazer.
Os verdadeiros motivos para
aumentos tão absurdos devem ser procurados no processo de monopolização que o
setor sofreu. Uma das características do capitalismo monopolista é que o custo,
a qualidade do produto ofertado e a demanda real do mercado deixam de ser
determinantes. Ao monopolizar a distribuição, determina-se a produção e o
consumo e, é claro, o preço. Ou seja, só consegue produzir quem é monopolista e
possui um canal próprio de distribuição ou que mantém um contrato de
distribuição com o monopolista - que só distribui o que quer. E o consumidor, se
quiser o produto, precisa pagar aquilo que quem controla o mercado determinar.
Rockfeller não se tornou magnata do petróleo porque tinha um faro melhor do que
os outros para a perfuração. Simplesmente monopolizou o transporte do produto,
inicialmente através das ferrovias e depois dos pipelines. Só conseguia escoar a
sua produção aquele que se submetesse aos seus interesses. E o consumidor só
conseguia comprar dele, ao preço que ele queria.
Não foi muito diferente no mercado
cinematográfico brasileiro. O fechamento da Embrafilme, distribuidora estatal,
por Fernando Collor, em 1990, criou condições para que as grandes multinacionais
tomassem conta do mercado. Hoje cinco delas (Columbia Tristar, Fox, UIP, Warner
Bros. e Sony) dominam sozinhas 86% da distribuição de filmes no território
nacional. Para quem acredita em besteiras do tipo “o importante é garantir o
conteúdo nacional, não importa quem distribua”, vamos analisar mais alguns
números. Selecionamos as 100 maiores bilheterias do cinema no Brasil, desde 1974
até 2005. Destas, 48 são do período em que existia a Embrafilme (até 1989). As
distribuidoras nacionais (incluindo as independentes) foram responsáveis por 26
lançamentos (25 filmes brasileiros e um estrangeiro) e as multinacionais por 22
(3 brasileiros e 19 estrangeiros). Em termos de público, havia um equilíbrio.
Tanto os filmes nacionais quanto as distribuidoras nacionais ficaram com cerca
de 50% do mercado. Quando computamos o período a partir de 1990, a situação é
tétrica. De 52 filmes, apenas um foi distribuído por uma empresa nacional:
justamente o último da Embrafilme. E 42 deles são filmes estrangeiros, que
abocanharam 84% do público. Estes números, apesar de se referirem apenas às
maiores bilheterias, não deixam margem para dúvidas. Foi só eliminar a presença
estatal que as múltis trataram logo de sufocar as distribuidoras independentes e
privilegiar o produto de suas matrizes em detrimento do filme nacional. A
concentração e a desnacionalização são evidentes. No ano de 1975, encontramos
três filmes nacionais, distribuídos por empresas também nacionais, entre as
cinco maiores bilheterias. E estes cinco filmes corresponderam a 12,68% dos
ingressos vendidos. Em 2007 as cinco maiores bilheterias são estrangeiras -
tanto os filmes quanto as distribuidoras - e abocanharam 24,77% dos ingressos.
PREÇO INTERNACIONALIZADO
Um pouco mais tarde, em 1997, as
distribuidoras estrangeiras ganharam um aliado providencial: a Cinemark,
capitaneando a desnacionalização e a monopolização no setor de exibição, começou
a abrir seus pulgueiros por aqui. Depois veio a UCI. A lógica do monopólio é
ganhar mais fazendo menos. Muitas salas, várias empresas, em muitas cidades é
uma coisa trabalhosa para administrar. O cinema, que sempre fora uma diversão
popular, com forte presença das chamadas classes C e D, precisava ser elitizado.
Os cinemas de rua, os cinemas de bairro, administrados por empresas
independentes e freqüentados pelo povo tinham que desaparecer. Arrecadar U$ 0,39
de quase 300 milhões de pessoas dá muito trabalho. Melhor morder U$ 4,70 de 88
milhões. Rende mais e é mais fácil. Além disso, chamando só as classes A e B
para o cinema, dá para vender pipoca dez vezes mais cara, baldes de
refrigerantes, cachorros-quentes e mais um monte de quinquilharias. Os preços
praticados pelas distribuidoras inviabilizaram os exibidores independentes. Os
cinemas se mudaram para os shoppings e o povão ficou de fora. E, como a matriz
quer “globalizar” seus rendimentos, o preço precisa ser equiparado de lá. Nos
EUA um ingresso de cinema custa, em média, U$ 6,03. É a meta de empresas como
Cinemark e UCI.
A verdade é que os únicos
responsáveis pelo astronômico preço dos ingressos no Brasil são os integrantes
do cartel da indústria cultural: grandes estúdios, distribuidoras estrangeiras,
exibidores multinacionais. Eles optaram claramente por expulsar o público de
menor renda do cinema, boicotar a produção nacional, reduzir o número de títulos
em cartaz, privilegiar a cinematografia de Hollywood. É o que eles chamam de
“modelo de negócio”. Seu único compromisso é com o lucro fácil: que se danem a
cultura, a diversidade e o interesse do público.
O chorado declínio do cinema
nacional tem relação direta com este processo. O cartel estrangeiro da
distribuição e da exibição só abre espaço para o filme nacional se for obrigado.
É muito mais simples, para eles, trabalhar o produto da matriz do que perder
tempo com a cinematografia nacional. O filme já chega aqui pago, com as peças
publicitárias prontas, com os prazos e contratos para exibição em cinema, TV
paga, TV aberta e lançamento em DVD definidos. O cinema nacional é, para eles,
um estorvo, um entrave para atingir as metas e cumprir os cronogramas definidos
em Hollywood.
Além disso, o preço praticado hoje
inviabiliza justamente o público mais fiel do cinema brasileiro, as classes C e
D. Toda uma geração de cineastas dedicou-se a criar uma linguagem, uma estética,
que fosse capaz de comunicar-se com a maioria do povo. E conseguiu. Foi por isso
que os filmes brasileiros chegaram a ocupar a metade do mercado e a ultrapassar
a barreira dos 60 milhões de espectadores em um ano. Mas para isso era
fundamental que o acesso às salas fosse possível, ou seja, que os ingressos
fossem baratos. A decisão das majors de multiplicar os seus lucros, após terem
cartelizado o setor, expulsou o povo do cinema e, com ele, o filme nacional.
Obviamente foram produzidos
excelentes filmes, no Brasil, em 2007. Mas a verdade é que eles não chegam às
telas ou, quando chegam, atingem só meia-dúzia de salas. Menos de dez empresas,
entre distribuidoras e exibidores multinacionais - determinam o que chegará às
telas e dizem que este é o “gosto do público”.
ENLATADOS
Quando um cineasta ou sua
produtora termina um filme, é preciso fazê-lo chegar aos cinemas. Para isso são
necessárias três coisas: cópias do filme, espaço no cinema e um pouco de
publicidade para que o público saiba que o filme está em cartaz. São justamente
estes passos que estão na mão de empresas estrangeiras. São as distribuidoras
que fazem as cópias e as entregam aos cinemas, além de investirem em
publicidade. E onde o leitor acha que empresas como Columbia Tristar, Fox, UIP,
Paramount Pictures, Warner Bros. e Sony preferem investir seu dinheiro, na
produção nacional, nos bons filmes do mundo inteiro ou nos enlatados que eles
mesmo produzem nos EUA? A resposta é óbvia. A voracidade destes predadores da
cultura nacional é tanta que, em maio deste ano chegamos ao descalabro de ter
80% das salas de cinema do Brasil ocupados por apenas três filmes: O Homem
Aranha 3, Piratas do Caribe 3 e Shrek 3, todos eles norte-americanos. Quem
quisesse ver um dos quase 100 filmes brasileiros lançados no ano passado, algum
outro filme feito fora dos EUA ou ainda um filme americano que não tivesse sido
produzido por alguma major, teria dificuldade. Das cerca de 2.300 salas de
cinema do país, mais ou menos 1.840 estavam projetando uma destas três
“obras-primas”.
Algum desavisado poderá perguntar:
mas por que o produtor nacional não investe em cópias também e coloca o seu
produto em tantos cinemas quanto os estrangeiros? Em primeiro lugar, porque não
teria poder econômico para enfrentar os cartéis multinacionais. O campeão de
bilheteria do ano, Homem Aranha 3, gastou em cópias cerca de R$ 3 milhões de
reais. É mais do que custou a produção da maioria dos filmes nacionais. Isso sem
contar os custos de publicidade, que são mais do que o triplo disso. E, em
segundo lugar, porque ficaria com suas cópias encalhadas: entre distribuidores
americanas e as redes de exibição existe uma relação para lá de promíscua.
Um outro, inocente, poderia
perguntar então: tudo bem, os americanos dominam o mercado, mas isso significa
que os filmes são ruins? Significa sim. No campo da cultura, a mesmice, a
repetição, a falta de diversidade - ou seja, as ações típicas dos monopólios -
resultam em mediocridade. Eles não procuram tomar conta do mercado fazendo
muitas produções, de ótima qualidade, que agradem a todos os tipos de público.
Querem é produzir o mínimo possível, apostar nas mesmas fórmulas, embotadoras de
consciências e liquefatoras de cérebros. Não é à toa que os três filmes que
citamos são seqüências, histórias requentadas. Tampouco é coincidência que eles
ocupem, na lista dos mais vistos, a mesma posição, tanto nos EUA quanto no
Brasil (Homem Aranha 3 em 1º, Shrek 3 em 2º e Piratas do Caribe 3 em 4º). Quer
dizer, transformam, sem nenhum pudor, o nosso mercado em extensão do deles: os
mesmos lançamentos, a mesma ordem de prioridade, as mesmas “ações de marketing”.
Mas o Brasil não é os EUA e tem gente que, entre ver uma porcaria enlatada no
cinema e ficar em casa, prefere a segunda opção. Quanto mais eles tomam conta do
pedaço, menor é o público.
Um terceiro, ingênuo, faria uma
última pergunta: por que, então, o público não prefere o cinema nacional?
Primeiro porque, como dissemos antes, o bom cinema nacional - assim como o de
outras partes do mundo - praticamente não chega às telas. Fica no gueto,
restrito a poucas salas, sem publicidade. Não é apenas ignorado pelo cartel das
distribuidoras e exibidores: é sabotado por ele. Dos 93 filmes brasileiros
exibidos em 2007, 68 foram lançados com menos de 20 cópias. O campeão de
bilheteria, o já citado “Homem Aranha 3”, foi lançado com 869 cópias. Não é
concorrência desleal, é concorrência impossível. E o filme nacional que chega
aos cinemas (sob as bênçãos do cartel) é, salvo honrosas exceções, uma tentativa
de imitar ou a televisão, ou a produção norte-americana. No primeiro caso, ficar
em casa é mais barato e mais cômodo. No segundo, melhor ver o original. Em
qualquer um dos dois, o resultado é incapaz de alavancar o cinema brasileiro a
um patamar acima do atual.
POLÍTICA DE SUBMISSÃO
Mesmo os desavisados, inocentes e
ingênuos já devem ter entendido a questão. Se quisermos ter uma indústria
cinematográfica forte - na produção, distribuição e exibição - é preciso conter
a sanha monopolista no setor. Precisamos garantir não apenas que os filmes sejam
rodados, mas que possam chegar ao público por um preço acessível. E, se depender
da turma de Hollywood, isso nunca vai acontecer. E o que estão fazendo o
Ministério da Cultura e a Agência Nacional do Cinema com relação a isso? Por
incrível que pareça, leitor, reforçando a política dos cartéis. Aliviam a
reclamação dos realizadores distribuindo alguns caraminguás através de editais.
Mas não aumentam a cota de tela fingindo acreditar que um mercado monopolizado
possa ter condições de regular o setor - a obrigatoriedade de exibição de filmes
nacionais que já foi de 50% vai hoje de 8,7%, para as salas dos maiores
complexos, a 7,6%, para os cinemas de apenas uma sala. Criam uma linha de
financiamento no BNDES para expandir a rede de exibição, mas a principal
beneficiada é justamente a Cinemark. Ao invés de garantir a existência de
distribuidoras nacionais, permitem que as múltis usem incentivos fiscais para
determinar quem irá ocupar os minguados 10% de mercado do cinema nacional. E
ainda fazem eco com o cartel, reclamando das carteiras de estudante e dos
direitos autorais pagos pelos exibidores. Ou seja, fazem de tudo para aumentar o
poderio e o lucro daqueles que destroem não apenas a nossa cinematografia como o
próprio mercado cinematográfico brasileiro.
Desde Humberto Mauro até Walter
Salles, passando por Anselmo Duarte, Glauber Rocha, Roberto Santos, Nelson
Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Denoy de Oliveira, Carlos
Reichenbach, Ruy Guerra, entre tantos outros, o cinema brasileiro já deu mostras
de sobra que pode ser criativo, popular, inteligente, revolucionário. Mas não é
imortal. Não é páreo para um dos maiores e mais bem organizados cartéis gerados
pelo imperialismo. Para continuar existindo, precisaria do apoio decisivo do
Estado brasileiro, de leis que efetivamente o protegessem, de autoridades
verdadeiramente dispostas a defendê-lo. Infelizmente, o que temos hoje
encastelados no Minc e na Ancine são cúmplices - alguns mais conscientes do que
os outros de sua cumplicidade - da turma de Hollywood.

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