“Compra”
da Xstrata maquia desnacionalização da Vale
HSBC e
Santander colocaram à disposição US$ 50 bilhões para ambevizar a Vale, avaliada
em US$ 120 bilhões. Outros US$ 30 bilhões seriam pagos em ações, com direito a
voto, aos controladores da mineradora anglo-suíça
O governo federal poderá vetar a aquisição da mineradora anglo-suíça Xstrata
pela Vale do Rio Doce. Pela proposta que está sendo gestada pela direção da
Vale, conforme divulgada pela imprensa, a empresa corre o risco de ser
desnacionalizada e ficar pendurada em bancos e especuladores estrangeiros. O
governo considera o negócio prejudicial aos interesses do país.
Para concretizar a compra, a Vale, avaliada em US$ 120 bilhões, precisaria entre
US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões. De acordo com o jornal londrino “Financial
Times”, já está acertado que US$ 50 bilhões seriam financiados por bancos
estrangeiros tais como o HSBC, Santander, Credit Suisse, Citigroup, BNP Paribas,
Barclays e RBS. O restante, cerca de US$ 30 bilhões, seria obtido através da
transferência de ações preferenciais da Vale aos controladores da Xstrata.
O principal acionista da Xstrata, a trading Glencore, seria beneficiado com as
ações da Vale, além dos demais acionistas da mineradora anglo-suíça, em sua
maioria especuladores como a Axa Investments, Alliance Bernstein, Black Rock.
Caso a negociação seja concretizada, significaria a transferência para os
estrangeiros de grande parte do capital da empresa.
Segunda maior mineradora do mundo e a primeira na produção de minério de ferro,
a Vale é estratégica para o desenvolvimento do país. Atualmente, as ações
ordinárias representam 60% do capital total da Vale do Rio Doce, e as
preferenciais (PN), 40%. O detalhe é que as ações preferenciais da Vale são da
classe A, que dão direito a voto.
Para preservar a empresa da desnacionalização e entrega do subsolo nacional aos
estrangeiros, basta os representantes do BNDESPar e da Previ (fundo de pensão
dos funcionários do Banco do Brasil) vetar a negociação no Conselho de
Administração da Vale. O governo conta com uma “golden share” (ação especial)
que garante poder de veto em algumas situações, entre elas em relação ao aumento
de capital estrangeiro na companhia.
Na segunda-feira, o Conselho de Administração começou a analisar a operação. O
presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, disse que “é só um estudo pra ver
realmente se fecha nas condições, se é factível, se tem geração de caixa, esses
detalhes todos. Depois, na decisão, [os representantes do] governo tem poder
[pra resolver]”, disse ele. O Bradesco é acionista da Vale e participa do
conselho através da Bradespar.
O negócio da Vale com a Xstrata está sendo comparado com o da AmBev, que
resultou na desnacionalização da principal indústria cervejeira brasileira. Em
1999, Brahma e Antarctica anunciaram fusão e criação da AmBev, sendo aprovada
pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) no ano seguinte. Mais
tarde, o processo de desnacionalização surgiu maquiado por uma campanha que dava
conta de que as cervejas brasileiras ganhariam o mundo através de uma associação
com a empresa belga InterBrew. Mais ainda, de que a AmBev seria a dona da
InterBrew. O que ocorreu foi o contrário. Com a dita “fusão”, foi criada a belga
InBev, que passou a controlar a AmBev e monopolizar o mercado nacional de
cerveja.
LUIZ ROCHA
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