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Agente diz que Goulart foi assassinado: “A CIA foi responsável por muita coisa”
O ex-agente do serviço de inteligência do
governo uruguaio, Mario Neira Barreiro, preso desde 2003 no Rio Grande do Sul,
afirmou em entrevista no fim de semana que o ex-presidente João Goulart não
morreu de ataque cardíaco, mas teria sido assassinado a mando de Sérgio Paranhos
Fleury, numa ação batizada de “Operação Escorpião”, financiada pela CIA. Jango
morreu em 6 de dezembro de 1976, em sua fazenda na Argentina.
“Fleury foi quem deu a palavra final”, afirmou
Barreiro. “A CIA pagou fortunas para saber o que Jango falava e foi responsável
por muita coisa”, prosseguiu o agente uruguaio. “O plano consistia em pôr
comprimidos envenenados nos frascos dos medicamentos que Jango tomava para o
coração: o efeito seria semelhante a um ataque cardíaco. As cápsulas envenenadas
eram misturadas aos remédios no Hotel Liberty, em Buenos Aires, onde morava a
família de Jango, na fazenda de Maldonado e no porta-luvas de seu carro”,
informou.
“Ele tomava Isordil, Adelfan e Nifodin, que eram
para o coração. Havia um médico-legista que se chamava Carlos Milles. Ele era
médico e capitão do serviço secreto. O primeiro ingrediente químico veio da CIA
e foi testado com cachorros e doentes terminais. O doutor deu os remédios e eles
morreram. Ele desidratava os compostos, tinha cloreto de potássio. Não posso
dizer a fórmula, porque não sei. Ele colocava dentro de um comprimido”, explicou
o agente.
Segundo Barreiro, a fazenda de Jango foi
espionada durante anos. “Estive na fazenda de Maldonado para colocar uma estação
repetidora que captava sinais dos microfones de dentro da casa e retransmitia
para nós. Esta estação repetidora foi colocada numa caixa de força que havia na
fazenda. Aproveitamos essa fonte de energia para alimentar os aparelhos
eletrônicos e para ampliar as escutas. Isso possibilitava que ouvíssemos as
conversas a 10, 12 km de distância. Ficávamos no hipódromo de Maldonado ouvindo
o que Jango falava”, revelou.
O ex-agente afirmou possuir as gravações das
escutas feitas na fazenda de Jango, mas ainda não apresentou as provas que diz
possuir. Argumentou que precisava de dinheiro para entregar as fitas. Mesmo não
tendo comprovado suas informações, e, inclusive, parecendo querer “valorizar”
sua história, e as fitas, o fato é que o possível assassinato de Jango, revelado
agora por ele, ocorreu no mesmo ano em que vários outros crimes contra
lideranças sul-americanas foram cometidos. Todos com participação da CIA.
Em setembro de 1976 foi assassinado em
Washington o ex-ministro das Relações Exteriores do governo Allende, Orlando
Letelier. O crime foi assumido pelo agente da CIA, Michael Townley, que também
já havia eliminado com uma bomba o general chileno, Carlos Prats. Neste mesmo
ano de 1976 ocorreu, em junho, o assassinato do General Juan José Torres,
ex-presidente da Bolívia, morto com um tiro na nuca. O ex-presidente da Câmara
dos Deputados do Uruguai, o Héctor Gutiérrez Ruiz, o ex-senador Zelmar Michelini,
também foram mortos em Buenos Aires, em 1976. Morreu também neste ano, em
circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, o ex-presidente Juscelino
Kubitschek.
A CIA, balançada pelas revelações de parte de
seus crimes pela Comissão do senador Frank Church, instalada após o escândalo de
Watergate, pareceu ter intensificado as suas ações na América Latina no ano de
1976. A evidência de que a CIA já vinha “correndo contra o tempo” ficou evidente
no diálogo entre Henri Kissinger, então conselheiro para política externa de
Gerald Ford e o contra-almirante Cesar Augusto Guzzetti, ministro de Relações
Exteriores da Argentina, ocorrido em outubro de 1976, na suíte de Waldorf
Astoria Hotel, em New York. Kissinger disse a Guzzetti que a situação política
no Estados Unidos estava “crazy” (louca). Que estava claro que Jimmy Carter
seria o candidato do Partido Democrata à sucessão de Ford no final do ano e que
havia fortes pressões domésticas para que se fizesse alguma coisa sobre os
direitos humanos. Kissinger recomendou que o governo argentino se apressasse
para terminar a “dirty war” (guerra suja) antes das eleições e disse que quando
o Congresso se reunisse haveria cortes na “ajuda” militar.
SÉRGIO CRUZ
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