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Entrevista: “Queremos um acordo que
mantenha os direitos dos roteiristas nos futuros canais de distribuição”
Em entrevista exclusiva para o HP, Timothy Tankosic, que é
membro da Associação dos Roteiristas da América (Writers Guild of America - WGA),
fala sobre os motivos da greve que já dura quase três meses, suspendeu uma das
principais premiações de Hollywood, o Globo de Ouro e ameaça o Oscar. Neste
ínterim a WGA conquistou o apoio de diversas categorias nos Estados Unidos, com
menção especial à Associação dos Atores de Cinema (SAG), e pressiona os grandes
estúdios, representados pela Aliança dos Produtores de Cinema e Televisão (Alliance
of Motion Picture and Television Producers - AMPTP), a discutir o pagamento de
direitos autorais sobre a veiculação dos trabalhos nas novas mídias: DVD,
internet, celulares e iPods.
Timothy fez questão de frisar que as declarações “refletem
minhas opiniões pessoais e não é uma declaração oficial da WGA”. Isso porque,
desde a semana passada, as duas organizações (WGA e a AMPTP) estão em
“discussões informais” e acordaram não dar declarações públicas.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
HP – Sobre o quê é a greve?
T.Tankosic - A WGA, que representa os roteiristas para
cinema e televisão de Hollywood, está em greve enfrentando a Aliança dos
Produtores de Cinema e Televisão (AMPTP) desde o início de novembro. A WGA
tentou durante meses antes da greve chegar a um entendimento sobre as questões
referentes à nova mídia com a AMPTP, mas eles não se dispuseram a tratar de
nossas preocupações até quando entramos em greve.
HP – E quais são essas questões?
T.Tankosic - Não é possível saber quanto as corporações
vão faturar com a distribuição pela Internet. Ainda que não tenham faturado
muito até agora, a preocupação da WGA é que a distribuição esteja se movendo
nesta direção e, se não fizermos uma boa negociação agora, ficaremos ao relento
no momento em que a distribuição se deslocar para a Internet. Não podemos
acreditar que, só após o crescimento substancial das entradas, as companhias
estariam então dispostas a rever a questão e dar aos membros da WGA uma
participação maior. Nós estamos defendendo uma percentagem justa. Caso as
entradas se mantenham baixas e as companhias não recebam muito, nós também não
receberemos. Caso haja crescimento de faturamento, as companhias e a WGA terão
participação neste crescimento. A questão é: chegarmos a um acordo que mantenha
os direitos dos roteiristas nos futuros canais de distribuição.
HP – De que forma isso pode ser feito?
T.Tankosic - A reivindicação principal é prover os mesmos
direitos de distribuição, pelos canais de distribuição da “nova mídia”, com os
quais os roteiristas já contam nas redes de televisão, nas TVs a cabo e no
cinema. Estes incluem pagamentos mínimos baseados em formatos (quer dizer, por
meia hora para esquetes de comédias, uma hora para dramas e por roteiros de
longa metragem) sempre que apresentações de TV ou filmes são reproduzidos mais
de uma vez ou vendidos como DVDs.
HP – Como foram as propostas da AMPTP?
T.Tankosic - As propostas iniciais da AMPTP eram que não
houvesse jurisdição estabelecida para a maior parte do que fosse escrito e
divulgado pela nova mídia; nenhuma proposta econômica para os roteiros na nova
mídia que eles se propusessem a cobrir; downloads à mesma porcentagem
estabelecida para DVD (o que a WGA rejeita porque nós não chegamos a uma
negociação justa sobre DVDs quando foi fechado um acordo alguns anos atrás);
nenhum pagamento pela reprodução em vídeo de produtos teatrais; uma proposta
“promocional” que lhes permite o reúso até de filmes completos ou shows de TV em
qualquer plataforma sem nenhum direito a pagamento - esta proposta por si, uma
vez acatada, já destrói todo tipo de pagamento por reproduções na nova mídia;
uma “janela” de reúso livre na internet que ridiculariza a reivindicação de
pagamentos por estas reproduções. Isso significa que as companhias vinculadas à
AMPTP querem o direito de reutilizar produtos pela internet sem pagar nada
durante os primeiros 17 dias. Depois disso, a reprodução ficaria valendo muito
menos.
HP – E qual a resposta da associação?
T.Tankosic - As negociações estão sendo retomadas agora.
Há um otimismo cuidadoso de que um acordo será alcançado em breve. Muitos
esperam que um acordo seja alcançado antes da festa do Oscar (Academy Awards),
em meados de fevereiro. A WGA abriu mão da reivindicação de que a cobertura seja
estendida para alguns grupos que não são atualmente cobertos pelos contratos em
vigência entre a AMPTP e a WGA. Isso inclui roteiristas de “reality shows” [os
roteiristas deste tipo de programação são contratados como produtores] e
seriados de desenhos animados - embora alguns deles como os Simpsons tenham
cobertura em contratos.
O acordo entre a
AMPTP e a Associação dos Diretores (DGA – sigla em inglês) pode ajudar ao
agregar um formato para os contratos com a WGA. Acontece que a DGA sempre chega
a entendimentos rapidamente. Assim, não é surpresa o fato de o terem feito desta
vez. Não sei com certeza o motivo pelo qual isso acontece. Alguns dizem que é
porque a DGA é composta principalmente por assistentes de diretores que não têm
participação nos direitos obtidos pelos autores e diretores, o que pode reduzir
sua vontade de entrar em greve. Além disso, os diretores em geral, recebem
pagamentos elevados o que também pode reduzir sua disposição para a greve. É
importante notar que, ainda que o acordo DGA-AMPTP garanta um pagamento pela
nova mídia, a planilha de pagamentos é muito baixa e muito provavelmente
inaceitável - em todos os seus aspectos - pela WGA.
HP – Mas a greve tem angariado apoios…
T.Tankosic - A solidariedade da Associação dos Atores de
Cinema (Screen Actors Guild - SAG) com a WGA tem sido forte. A WGA e a SAG têm
tradicionalmente apoiado uma à outra. O cancelamento do Globo de Ouro, porque os
atores não participariam, foi uma demonstração forte de apoio. Nossa expectativa
é que este tipo de apoio não tenha que ser utilizado novamente quando da entrega
do Oscar (esperamos que todas ou ao menos quase todas as questões estejam
resolvidas e que o show possa continuar). No entanto, planos já estão em
andamento para o caso da alternativa de pressão ser necessária e um show do
Oscar contido pode ocorrer caso as partes se mantenham distantes.
O sindicato dos
trabalhadores de equipes também ofereceu seu apoio. Os integrantes da WGA deram
apoio a outros movimentos sindicais em Los Angeles, e estes sindicatos, por sua
vez, se juntaram a nós apoiando nossos piquetes.
Há uma certa
divisão no público. Muitos nos apóiam, mas há trabalhadores diretos
(figurinistas, diretores de arte, produtores de locação) ou indiretos
(trabalhadores em restaurantes e de limpeza) que almejam o fim da greve.
Alguns também
pensam que os roteiristas são bastante bem pagos e não deveriam brigar tanto por
estes direitos suplementares. Pagamentos como estes, no entanto, são
criticamente importantes para os roteiristas em uma indústria onde os empregos
não são garantidos e os trabalhadores estão, com freqüência, desempregados.
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