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Construtoras pagam especialista
inglês para isentá-las de responsabilidade na tragédia
Concessionárias não viram
pedra com mais de 15.000 toneladas
Responsáveis pela morte
de 7 pessoas na Linha 4 do Metrô culpam a natureza e dizem que o laudo do inglês
contratado para defender tese de que a tragédia era “inevitável”, é
“independente”. Alegam que não compram “pessoa”, mas “conhecimento”
O geólogo e ex-diretor de Planejamento e Gestão do IPT
(Instituto de Pesquisas Tecnológicas), Álvaro Rodrigues dos Santos, desmontou o
laudo divulgado pelo engenheiro britânico Nicholas Barton, contratado pelo
Consórcio Via Amarela, para justificar a tragédia ocorrida no dia 12 de janeiro
de 2007 na linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo.
O laudo de defesa da empresa, assinado por Barton,
divulgado quinta-feira (27), isenta de responsabilidade as construtoras
responsáveis pelo empreendimento - Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Camargo
Corrêa e Andrade Gutierrez - e diz que o acidente teria sido “inevitável”. Para
o “especialista” inglês, a ruptura do túnel em construção, com a cratera que
tirou a vida de sete pessoas na estação Pinheiros, teria sido causada pela
sobrecarga de um bloco de rocha com mais de 15 mil toneladas e 14 metros de
altura que não foram identificados durante a sondagem do terreno. O motivo? As
características geológicas da região seriam “complicadas”...
EXPERIÊNCIA
O ex-diretor do IPT, com extensa e comprovada experiência
acumulada no conhecimento geológico-geotécnico proporcionado pela implantação de
seguidos empreendimentos, no Brasil e no mundo, e especialmente em regiões
geotecnicamente bastante conhecidas - como é o caso da região metropolitana de
São Paulo - declarou que “essa possibilidade tende exatamente a zero”.
Já o diretor de contratos do Consórcio responsáveis pela
morte, Márcio Pellegrini, elogiou a objetividade do laudo “técnico” e atribuiu o
acidente a uma “fatalidade, um fato singular na história da escavação de
túneis”.
“Mas, afinal, para que servem então engenheiros, geólogos e
arquitetos, se uma obra é assim tão vulnerável a esses tais imprevistos
geológicos ou pluviométricos? Onde raios eles estavam que não perceberam isso?”,
questionou Álvaro, destacando que é preciso pôr fim ao cacoete de se lançar a
responsabilidade a imprevistos geológicos ou pluviométricos.
INFORMAÇÕES
De acordo com o geólogo, “na engenharia, há uma regra
inexorável: se houve acidente, houve uma falha. E essa falha pode ser de
diversas ordens, erros nas investigações e informações técnicas (dados de
entrada) para o projeto, erros de projeto, erros de plano de obra, falhas nos
processos construtivos, deficiência em materiais empregados... A redução da
margem de ocorrência de erros é uma meta que a boa engenharia persegue com
obstinação dentro de uma verdadeira cautela e procedimentos de segurança”.
Segundo Álvaro, “em defesa dos profissionais brasileiros em
hidrologia, hidrogeologia, geologia e geotécnica, que colocaram o país em nível
internacional de competência nestas áreas, e em defesa dos interesses maiores da
sociedade brasileira, apelamos às autoridades públicas e privadas, que
investiguem criteriosamente o plano de gestão dos empreendimentos afetados”.
Para o geólogo, “os que buscam compulsivamente a aceleração de prazos de entrega
e a redução de custos, promovem temerariamente a possibilidade de ocorrência de
falhas ou descuidos”.
Na avaliação do ex-diretor do IPT, “é interessante
investigar também as conseqüências técnicas de um eventual excesso de
terceirizações dos mais variados tipos de serviços de engenharia. A partir de um
determinado ponto, um excesso de terceirizações não comprometeria a gestão da
qualidade global do empreendimento? É muito provável que aí estejam as deixas
para entender melhor os acidentes que vêm ocorrendo com alguma freqüência em
obras brasileiras de engenharia e, por dedução, para se evitar novos acidentes”. |