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Zimba e a
revolução cultural dos anos 40
CARLOS PINTO*
Quando chegou ao Brasil fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial, o
polonês Zbigniew Ziem- binski não poderia nunca adivinhar ou sequer prever
que seria o grande responsável por uma revolução nas artes brasileiras, mais
especialmente no teatro. Começou trabalhando como iluminador do Cassino da
Urca e rapidamente se transformou no primeiro diretor teatral brasileiro.
Sua entrada na
cena brasileira nos obrigou a deixar de lado as formas tradicionais de
Portugal e França, com as quais a ribalta nacional operava nos moldes do
século XIX. A partir de Zimba, apelido carinhoso pelo qual era tratado por
todos nós, passou a introduzir novos conceitos de iluminação, interpretação,
cenografia e direção. Introduziu as artes cênicas do país no século XX.
Antes dele não
havia a menor preocupação com a direção de elenco, de atores e atrizes, no
tocante à interpretação e criação de personagens. Introduziu os refletores e
“afastou” as lâmpadas de iluminação, e a cenografia passou a ter relação
direta com o texto a ser encenado, assim como a iluminação teatral. Com isso
criou uma visão geral de conjunto, uma concepção cênica global.
Sua montagem de
“Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, em 1943, é o marco principal dessa
revolução. Enquanto até então a preocupação maior era a de encenar textos
europeus, Zimba mostra ao país uma obra de um autor brasileiro, até então
desconhecido e isolado, através do grupo Os Comediantes, cujo maior
incentivador era o santista Miroel Silveira.
Ao introduzir o
estudo de texto, de criação de personagens, e a direção de atores, estava
difundindo entre nós o método Stanislavski, até então conhecido apenas na
Europa, método posteriormente aperfeiçoado por Brecht e sua teoria do
distanciamento.
Conheci Ziembinski
através do amigo comum Paschoal Carlos Magno. Zimba era um assíduo
freqüentador e participante dos primeiros Festivais Nacionais de Teatro de
Estudantes, onde garimpava novos talentos para a cena brasileira.
Posteriormente, mantivemos grandes conversas em São Paulo, em função das
ligações com Cacilda Becker e Walmor Chagas, após a inauguração do teatro
que ambos criaram na Av. Brigadeiro Luiz Antonio.
É necessário
acrescentar a este cadinho de responsáveis por esta revolução na cultura
brasileira, os diretores italianos Adolfo Celi, Luciano Salce e Ruggero
Jacobi, além do francês Maurice Vaneau, todos chegados ao Brasil nessa mesma
época, fugindo do nazismo, e que em associação com Franco Zampari, nos
legaram o Teatro Brasileiro de Comédia e a Companhia Cinematográfica Vera
Cruz.
Se vivo estivesse,
Ziem- binski teria completado no último dia 7, cem anos de vida. Por sua
importância para a cultura nacional, é de se lamentar que apenas o jornal O
Globo tenha se lembrado do seu legado e do seu centenário de nascimento. Sem
ele, talvez ainda estivéssemos fazendo o teatro do século XIX, e nunca
teriam surgido os grupos Oficina, Arena e tantos outros que seguindo seus
passos reafirmaram a criação de um teatro verdadeiramente brasileiro.
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