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Dilma, Simon e um conhecido
blog
GILSON CARONI FILHO*
Denunciar irregularidades na esfera pública, com o amparo
de sólido trabalho investigativo, é tarefa irrenunciável do jornalismo. Deixar
de fazê-lo, sob qualquer pretexto, é recusar os princípios que fundamentam a
liberdade de imprensa, assegurada em qualquer regime democrático. Sobre isso não
cabe qualquer discussão. É ponto pacífico para os que desejam a solidez das
instituições políticas.
Mas, como já frisamos inúmeras vezes,
quando a informação deixa de se submeter a outro imperativo que não seja o do
aprofundamento democrático, a liberdade desejada se apresenta como sua própria
contrafação. É servida, como subproduto de uma vulgata do utilitarismo, para
satisfazer os interesses de seus leitores e sócios maiores.
Um jornalismo que se presta à instrumentalização
partidária, distorcendo a realidade, infamando quem considera adversário
político, usurpa uma franquia do Estado de Direito para funcionar como panfleto
de ocasião. Deixa de ser instância fiscalizadora dos Poderes para tentar
substitui-los como única instância legitimadora, subtraindo-lhes direitos e
deveres. Quando a imprensa vira partido, seja de oposição ou de apoio a qualquer
governo, renuncia ao seu caráter republicano, passando a ser ferramenta de
interesses escusos. Há dúvidas se merece ainda ser mesmo chamada de imprensa.
É o que parece estar ocorrendo agora com o vazamento de um
suposto dossiê contendo gastos feitos com cartão corporativo na época do governo
Fernando Henrique. Antes de verificar se foi montado pela revista Veja, useira e
vezeira em construir castelos de cartas, parcela expressiva da grande mídia não
hesita em atribui-lo ao Palácio do Planalto.
Há quase três anos, Luciano Martins escreveu um artigo para
o Observatório da Imprensa (“Quando faltam a razão e o direito”) que se tornou
definitivo pela dinâmica do jornalismo brasileiro. Analisando o que se
delineava como tendência no surgimento do “blog do Noblat”, o articulista foi
preciso:
“A estréia do jornalista Ricardo Noblat, com seu blog
político, no Estado de S. Paulo, traz uma lição inestimável para a compreensão
do momento que vive nossa imprensa. Traz também uma mensagem claríssima aos
jovens profissionais que sonham um dia escrever no outrora vetusto diário
paulista.”
A constatação é clara: engajada na luta partidária, a
tradicional imprensa brasileira, bem representada pelo Estadão, perdeu os
últimos pruridos e não se acanha em abrigar um panfleto em suas páginas, desde
que venha a reforçar seus propósitos com relação ao atual governo. A mensagem
aos jovens também não poderia ser mais explícita: se quiserem ser bem-sucedidos
num grande jornal, aprendam a nadar de acordo com a corrente. Se possível, sejam
radicalmente a favor de tudo que pensa o patrão. Substituam a ética pela moral
do dia, e boa carreira”
Mudou o veículo (hoje o blog se encontra na sombra da
família Marinho) mas a toada permaneceu a mesma. O jornalismo (?) praticado ali
comporta não só pleno endosso ao discurso da oposição como, em circunstâncias
especiais, busca orientá-la visando à maior eficácia política. Não faltam, é
claro, advertências públicas aos que não se comportam de acordo com a
orientação da grande imprensa. Afinal, quem, senão ela, pode ser a única
instância de intermediação possível? Quem, de fato, é a atora relevante do jogo
político? Quem melhor conhece os atalhos que levam à desestabilização de
governos eleitos através de coberturas tendenciosas?
Nesse sentido, nada mais pedagógico que duas postagens de
Noblat, na sexta-feira, 28 de março. Em ambas, o jornalismo-torcida evidencia
quem é quem na esfera pública midiática. Demonstra como se produz o esvaziamento
de instituições clássicas de representação para que a imprensa reitere sua
centralidade política.
Irritado com um discurso do senador Pedro Simon que,
inadvertidamente, sobe à tribuna sem a pauta atualizada, o blogueiro não mede a
intensidade da carraspana naquele que tem se notabilizado por um posicionamento
incondicional às demandas tucanas. O texto foi ao ar às 9h53m:
“O que faz Pedro Simon (PMDB-RS) que discursa na tribuna do
Senado sobre a harmonia das relações entre os três poderes (Executivo,
Legislativo e Judiciário) e não diz uma palavra, uma palavrinha só sobre o
escândalo do dossiê produzido pela secretária-executiva da Casa Civil da
presidência da República contra o casal Fernando Henrique Cardoso e o governo
anterior? Será que Simon não leu a reportagem publicada hoje pela Folha de São
Paulo? Será que nenhum assessor dele o alertou a respeito? Ou será que ele
considera a história mais uma invenção da mídia dita golpista? Ô Simon, atentai
bem: não dá para bancar o senador combativo e na hora agá afinar a voz. Não dá
para enganar os trouxas o tempo todo”
A irritação obedece à lógica midiática. De onde o senador
gaúcho imagina que há espaços para autonomia relativa? Às 11h20m, menos de duas
horas após a advertência, Simon passa recibo e expõe o servilismo solicitado.
Noblat registra com satisfação:
“Há pouco, Pedro Simon (PMDB-RS) voltou a discursar no
Senado. Referiu-se à nota deste blog que cobrou sua omissão diante do fato
denunciado hoje pela Folha de S. Paulo - o de que a Secretária-Executiva da Casa
Civil encomendou o dossiê (ou “levantamento de dados”) contra o governo FHC no
caso do uso de cartão corporativo. Simon alegou que o discurso que fizera pouco
antes estava preparado há muito tempo. E que ele não lera a reportagem da Folha.
Pediu desculpas ao blog. Tudo bem, Simon. Não há de ser nada. Foi erro de sua
assessoria, que não o alertou há tempo. É muito raro um político pedir
desculpas. Não caberia pedir desculpas ao blog, mas aos brasileiros que
assistiam à sessão do Senado transmitida pela televisão. A adesão à humilde
ordem dos franciscanos fez bem a Simon.”
O que temos aqui não é apenas a tutela da política pela
imprensa. Mais que isso, fica evidente como se estrutura a hierarquia no campo
conservador. Quem fugir da organização discursiva das oficinas de consenso deve
ser advertido e, dependendo da relutância, silenciado.
O velho senador deve fazer sua contrição sem
constrangimento. Ou será que ele não se deu conta de que o alvo do denuncismo
vai além de Dilma Roussef? O que está em foco é a possibilidade de esvaziar a
representação parlamentar do PT a partir de 2010. Para tanto, é preciso minar
uma candidatura viável, seja ela qual for, desde já. Veleidades pessoais nessa
hora soam absurdas. O jogo é sujo demais para melindres. Simon sabe o seu exato
lugar.
(*) É
professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio
de Janeiro, e colaborador do HP, Agência Carta Maior, Jornal do Brasil e
Observatório da Imprensa.
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