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Revelação de compra esotérica derruba dossiê para canonizar FH
“Venham ver o
que eu fiz com o dinheiro. Abre, mostra, é melhor”, diz FHC, sem esclarecer o
gasto feito por seu gabinete com exótico artefato
Há algumas semanas, o velho sacripanta Fernando
Henrique Cardoso fez uma de suas costumeiras encenações: aproveitou a imprensa
reunida numa solenidade para dizer que o presidente Lula tinha que “esclarecer”
gastos da Presidência - como se esses gastos, por serem sigilosos, tivessem algo
de obscuro. “Se eu fosse o presidente Lula, eu diria o que eu disse: ‘olha
venham ver o que eu fiz com o dinheiro, como é que foi gasto esse dinheiro’. Não
tem problema nenhum. Abre, mostra, é melhor”, falou o elemento.
Como, segundo ele, “não tem problema nenhum”, as
vozes da opinião pública (a verdadeira, não a opinião publicada pela mídia)
pedem, no momento, que ele esclareça os motivos pelos quais, entre os secos e
molhados que sua Presidência adquiriu, havia um pênis de borracha, e qual a
participação de tal adereço no excelente desempenho de sua gestão.
Diga-se de passagem, a informação de que esse
algo restrito utilitário estava entre os gastos do período em que Fernando
Henrique ocupou o Planalto não foi divulgada pelo atual governo ou por qualquer
governista. Pelo contrário. A notícia apareceu no site do vetusto “Estadão”, no
último dia 19 de fevereiro, em matéria assinada pelo jornalista João Domingos –
e não foi desmentida, apesar do frenesi que causou em certos meios
oposicionistas.
A matéria do “Estadão” já vinha com uma
explicação: o citado objeto havia sido comprado “para uma aula de educação
sexual numa escola pública”. Não se sabia que entre as funções da Presidência da
República estava a de comprar um pênis de borracha (um único, não uma grosa, uma
carrada ou lá que nome tenha o coletivo dessa commodity) para aulas de educação
sexual em escolas públicas.
Não somos a favor de escarafunchar certas
questões, mas, já que, segundo Fernando Henrique, seu princípio é o do “olha
venham ver o que eu fiz com o dinheiro, como é que foi gasto esse dinheiro".
Não tem problema nenhum. Abre, mostra, é melhor”, seria bom que ele esclarecesse
em que escola pública foi proferida essa aula de educação sexual – e por quem.
Além disso, também seria bom esclarecer porque a Presidência da República ficou
tão mobilizada para atender a esse pleito – se é que a contribuição não foi
espontânea. Em caso de problemas de memória, é só consultar o Eduardo Jorge, seu
secretário e infalível arquivista, que certamente saberá.
Mas, disse Fernando Henrique que “não existe
conta sigilosa ou secreta da Presidência da República, e tampouco são pessoais.
Se houver dinheiro público para gasto pessoal, não pode, está errado”.
Como já vimos, o pênis de borracha foi um gasto
público. Não tinha nada de pessoal. Se fosse um pênis particular, aí estaria
errado. Porém, será que Fernando Henrique considera que o gasto com aquilo que
come não é um gasto pessoal? Ou será que pagou do seu bolso tudo o que consumiu
por via oral durante seus oito anos no Alvorada? Se não foi o dinheiro público,
quem pagou seus gastos pessoais quando era presidente? Porém, talvez não fosse a
sua pessoa que comia à tripa forra no Palácio, mas um farsante. Nisso, ele não
deixa de ter uma certa razão.
SIGILO
Entretanto, o ridículo jamais foi a pior coisa
em Fernando Henrique. Há piores... Por exemplo, ele sabe perfeitamente que seus
gastos como presidente não podem ser abertos e mostrados, pois, por lei, são
sigilosos. Portanto, essa história de “abre, mostra” é palhaçada. Mais
precisamente, é canalhice: ele sabe que é ilegal abri-los e mostrá-los, e por
isso mesmo é que fica nesse “abre, mostra” e outras besteiras.
Evidentemente, não existe Estado sem que alguma
coisa seja segredo de Estado - o que está, inclusive, consagrado na Constituição
(Art. 5º, inciso XXXIII), regulamentado (Lei 11.111) e decretado (decreto-lei nº
200). A única possibilidade de não haver segredo de Estado seria se o país não
tivesse inimigos, externos e internos. Mas, quando isso acontecer, o próprio
Estado é que será dispensável – e por isso não se poderá falar em segredo de
Estado. No entanto, ainda estamos longe disso – e Fernando Henrique jamais foi a
favor da extinção do Estado. Ao contrário, sempre foi um adepto de se aproveitar
do Estado.
PRESEPADA
Um fenômeno estranho passou a acontecer na
última fornada de chicanas e presepadas da oposição e da mídia golpista: além de
inventarem dossiês, passaram a divulgar o seu suposto conteúdo e, inclusive,
episódios picarescos contra si mesmos. Na quarta-feira, o senador tucano Álvaro
Dias (ver matéria nesta página) foi dedurado por um cortesão da mídia golpista
como a fonte do dossiê da “Veja” sobre gastos da Presidência de Fernando
Henrique. Pelo jeito, como não encontraram nada para usar contra o governo Lula,
não lhes restou mais do que vazar dossiês contra si mesmos, ainda que
atribuindo-os ao governo. Agora, conseguiram quase a perfeição: vazar o vazador.
Álvaro Dias ainda não disse quem lhe forneceu o
dossiê. Como afirmaram alguns parlamentares, o senador tornou-se cúmplice de um
crime, ao ser intermediário de um vazamento de dados que são sigilosos por lei.
Porém, é significativo que o conteúdo divulgado seja tão inócuo que o material
parece ter sido confeccionado para consagrar Fernando Henrique como um santo na
Presidência. Certamente, não foi um adversário de Fernando Henrique quem o
organizou. Não por acaso, o pênis de borracha não aparece no rol do senador
Álvaro Dias. Mas, com receio de que esse exótico gasto estragasse a canonização
de FH, alguém considerou que era melhor fornecer logo uma explicação pronta para
ele. Daí o seu vazamento, por fora do anódino “dossiê”.
CARLOS LOPES
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