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CBC e ABPI defendem cota de 10%
à produção nacional independente na TV paga
O CBC (Congresso Brasileiro de Cinema), a
Associação dos Produtores Independentes de TV (ABPI-TV), o Intervozes, e outras
entidades do setor, realizaram na quarta-feira (2) um corpo-a-corpo com os
deputados que integram a Comissão de Ciência e Tecnologia a fim de solicitar o
apoio à instituição de cotas para a produção nacional independente nos canais de
TV por assinatura.
A manifestação das entidades foi intensificada
após o deputado Jorge Bittar (PT-RJ) anunciar, em 19 de março, que pretendia
“simplificar”, ou melhor, diminuir as cotas para a produção nacional e nacional
independente que estavam previstas na primeira versão do seu relatório do PL 29,
projeto que fixa regras para o setor audiovisual e TV paga.
Concretamente, a “simplificação” do relatório
significaria reduzir o espaço destinado à produção independente de 14,5% (como
previa a versão inicial) para cerca de 2% no conjunto do espaço qualificado da
TV por assinatura.
Na oportunidade, os representantes da CBC e
ABPITV divulgaram um novo manifesto em que reafirmam a importância das cotas
para a produção nacional independente e propõem que ela seja de “10% de conteúdo
nacional independente nos canais internacionais da TV por Assinatura e uma hora
e meia diária, e inédita, de conteúdo nacional independente nos canais
nacionais”.
Ao contrário do primeiro manifesto divulgado por
36 entidades – subscrito pelas duas entidades citadas – não há menção de apoio
ao relatório de Bittar, mas apenas o enfoque na importância das cotas. Esse é um
sintoma do mal-estar gerado pela postura do deputado que anunciou as mudanças
minutos depois de uma reunião com as entidades, que foram a Brasília apoiá-lo
contra a pressão das empresas que dominam a programação e distribuição e são
contra as cotas.
Ainda no documento, as entidades lembram que a
implantação das cotas não é nenhuma novidade se observadas as legislações de
diversos países que as aplicam em patamares muito superiores às propostas
inicialmente no relatório, tais como o Canadá, França, Alemanha, Inglaterra,
Austrália e por toda a Comunidade Européia.
PROTEÇÃO E FINANCIAMENTO
O exemplo mais citado - e que já serviu de
exemplo para diversos países - vem da França, que possui uma das mais avançadas
legislações e mecanismos de incentivo, proteção e financiamento à produção
nacional e nacional independente.
Segundo o site “FilmeB”, a França possui o mais
forte mercado cinematográfico da Europa e um dos poucos que gera uma renda anual
próxima a US$ 1 bilhão. São produzidos cerca de 200 longas-metragens e lançados
500 títulos por ano.
Isso foi conquistado através de mecanismos de
financiamento baseados na taxação dos meios de distribuição de conteúdo e das
cotas. De acordo com o “CineB”, “do número total de filmes exibidos anualmente
por cada canal de televisão (da TV aberta ou fechada), 60% devem ser obras
européias, e desses, 40% precisam ser filmes falados em francês”. A Comunidade
Européia estabelece a cota de 50% de produção do bloco nos canais de TV de todos
os países que a integram.
Além disso, os canais de televisão abertos só
podem exibir anualmente 192 obras de longa-metragem e não é permitido exibí-los
nas noites de quartas, quintas, e aos sábado durante todo o dia.
A explicação está no fato da quarta-feira ser o
dia destinado para o lançamento de filmes nos cinemas, que aliado ao
financiamento e a outras restrições como o prazo de três anos para um filme
poder ser exibido na TV aberta e um ano na paga, colocaram o país no topo do
ranking da produção audiovisual mundial.
Tudo é coordenado e monitorado pelo Centre
National de la Cinematographie (CNC), órgão público ligado ao Ministério da
Cultura e da Comunicação. O CNC administra um grande orçamento (que em 2005
chegou a 521 milhões de euros), advindo de três fontes principais: taxação sobre
o faturamento das TVs (responsável por quase 80% da arrecadação), taxação sobre
o homevideo e sobre os ingressos de cinema.
Os canais de TV por assinatura ainda são
obrigados a investir parte de seu faturamento na contratação de produções
nacionais, como é o caso do Canal Plus, que deve investir anualmente 20% de seu
faturamento em pré-compras de produções cinematográficas, dos quais 12% devem
ser destinados à filmes europeus (9% de filmes franceses, e 3% de outros países
da Europa). Os outros 8% podem ser usados na pré-compra de filmes de outras
nacionalidades, até mesmo norte-americanos.
Mesmo contrariando alguns interesses, o debate
sobre a regulamentação do setor de TV por assinatura está só começando na Câmara
e deverá ser coletivizado para o plenário da Casa - como já requisitaram alguns
parlamentares da Comissão de Ciência e Tecnologia nesta semana -, podendo ser
aprimorado e aprofundado na medida em que exemplos como o francês nos mostram
que até a primeira versão do PL 29 esta aquém nas necessidades e inibida perante
o que se pratica em outros países.
ALESSANDRO RODRIGUES |