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Engenheiros apontam terceirização na raiz dos
acidentes em S. Paulo
Em apenas um ano e três meses, dois acidentes
graves aconteceram em obras públicas na capital.
No primeiro, morreram sete, e no outro só não
houve vítimas porque Deus deu uma forcinha aos
paulistanos. Especialistas condenam
terceirização
Nunca
pensei que podia cair, mas agora que caiu uma
vez pode cair outras. Estava tudo bem lá e, de
repente, caiu, o que garante que não vai
acontecer de novo?”. A pergunta do motorista
Leonardo Alves, que sempre passa pelo local
onde, na noite de segunda-feira, parte da obra
do Expresso Tiradentes (antigo Fura-Fila) cedeu
e tombou sobre o viaduto Grande São Paulo, na
região da Vila Prudente, expressa bem a
insegurança do paulistano em relação a como vem
sendo tratado pela administração municipal e
estadual o transporte público e as obras de
infra-estrutura em São Paulo. Afinal, não é
admissível que numa grande metrópole como São
Paulo acidentes da gravidade da cratera que se
abriu na obra da Linha 4 do Metrô, matando sete
pessoas, e agora a queda de uma estrutura de 64
metros sobre um viaduto onde circulam
diariamente 8 mil veículos em horário de pico,
tenham acontecido num período de um ano e três
meses.
Sem contar que o desabamento na Linha 4 foi
apenas o mais grave, pois, antes dele, inúmeros
acidentes ocorreram na obra, inclusive com
mortes de operários, sinalizando problemas sem
que, no caso o governo do Estado, tomasse
nenhuma providência. Nas últimas semanas, as
constantes panes nos trens de metrô, com
paralisações de até 45 minutos, portas que não
abrem ou não fecham, têm aumentado a insegurança
e infernizado a vida dos usuários que já têm que
enfrentar o caos no trânsito, que também vem
atingindo recordes de congestionamentos.
No acidente do Expresso Tiradentes, digamos que
foi a mão de Deus que ajudou, pois o concreto
ficou apoiado no viaduto e, no momento da queda,
23h30 de uma segunda-feira, nenhum veículo
passava no local.
Segundo o Consórcio Ramal Vila Prudente,
responsável pela obra do trecho 3 do Expresso
Tiradentes, o laudo com as causas do acidente só
deve sair em 30 dias. Por seu lado, a
Prefeitura, em última instância a principal
responsável pela obra, até agora não se
manifestou quanto a sua investigação do
acidente, deixando o próprio o consórcio se
auto-investigar. Como se obras desse tipo, que
serão utilizadas diariamente por milhões de
pessoas, feitas com recursos públicos, fosse
responsabilidade apenas de empreiteiras
privadas, e não existisse Prefeitura e
Secretaria de Obras. Há que se perguntar o que
fazem essas pessoas no poder.
A incidência desses desastres em São Paulo está
levando especialistas a questionarem a forma
como essas obras vêm sendo administradas. Como
afirma Murilo Campos Pinheiro, presidente da
Federação Nacional dos Engenheiros, “os
problemas de gerenciamento vêm ocorrendo por
causa da terceirização quase completa da obra”.
O engenheiro Natan Levental, coordenador do
setor de estruturas do Instituto de Engenharia
de São Paulo, também critica o que ele chama de
“fragmentação” do trabalho em obras desse porte.
“Uma empresa faz o projeto, mas outra é
contratada para fazer a fundação, uma outra para
a estrutura intermediária e assim
sucessivamente. Parece não haver ninguém que
funcione como o ‘papai da criança’”, diz.
Segundo a opinião de diversos engenheiros, a
partir dos dados apresentados até agora, foi
“uma falha fácil de ser evitada e, justamente
por isso, incomum em grandes obras”.
Para Natan, “uma fiscalização mais atenta, que
tenha em mente o conjunto da obra, poderia ter
evitado que se pusesse mais peso de um lado e
que o viaduto inclinasse”.
“Assim
como no acidente do metrô, a realidade se
mostrou diferente do projeto. Esses acidentes
que têm acontecido com certa freqüência, é claro
que são imprevistos, mas imprevistos que alguém
poderia, com um olho de raio-X, ter evitado.
Poderia ter sido tomado um cuidado além da
média”, afirmou.
Outra questão que deve ser levada em
consideração, em um ano pré-eleitoral, é se, ao
contrário da fiscalização acirrada que deveria
haver por parte da Prefeitura em obras dessa
magnitude, em que um acidente pode se
transformar em tragédia, não estaria havendo
“certa pressão” para acelerar o trabalho, como
admitem pessoas ligadas ao consórcio e ao
próprio Executivo. No dia 8 de março, o prefeito
Gilberto Kassab fez uma vistoria na obra.
O prefeito, que tenta viabilizar a sua
candidatura, têm a extensão do Expresso
Tiradentes como uma das principais obras a
apresentar à população, e o prazo para que
candidatos a prefeito participem de inaugurações
termina em 4 de julho. Segundo o prefeito, que
já admite que o dia 18 de maio, previsto para a
conclusão da obra, será adiado, “a obra,
inclusive, está atrasada. Até porque a
engenharia tem prazos e cronogramas técnicos que
não podem ser acelerados”, disse.
A obra do trecho 3 do Expresso Tiradentes, um
corredor de ônibus elevado que se estenderá até
a Vila Prudente, começou no final de 2007, e
recentemente teve seu ritmo acelerado.
ANA BRAIA |