|
Multidão apóia medidas de Cristina
para elevar a produção de alimentos
Ao falar para a Praça de Maio lotada, a presidente argentina destacou que
impostos sobre exportação de produtos rurais servirão para que o alimento chegue
“aos que trabalham nas fábricas, nas oficinas, nos escritórios”
Mais de 100 mil pessoas expressaram seu apoio às
medidas tomadas por Cristina Kirchner para fortalecer a produção agrícola
voltada ao abastecimento da população. Cristina esclareceu que a iniciativa de
retenção de uma parcela dos valores gerados com a exportação – particularmente
de soja e girassol - servirá para garantir uma distribuição mais equitativa dos
recursos, o que “é parte fundamental do modelo de país que temos como objetivo
desenvolver”.
A aceleração, em nível internacional, dos preços
desses produtos que a Argentina exporta estava fazendo com que a produção rural
se voltasse cada vez mais para eles e, com isso, provocava a escassez dos
alimentos no interior do país e a elevação dos seus preços. “As retenções não
são apenas medidas anti-inflacionárias para que o alimento do povo, de todos,
dos operários, dos que trabalham no comércio, os que trabalham nas oficinas, nos
serviços, nas fábricas, até dos que não têm trabalho, possa ser acessível para
todos”, declarou a presidente, “mas, também têm um forte impacto distributivo”.
LUCROS
Cristina enfatizou que os lucros acima da média
que os exportadores rurais obtém é porque “para eles tudo é custo argentino”.
Ocorre que o conjunto da atividade agropecuária se beneficia das retenções sobre
exportações de petróleo que fazem que o preço interno fique em US$ 42 o barril
(depois de privati-zada a estatal YPF, que auto-abastecia o país de
combustíveis, a multinacional Repsol, para conseguir maior lucro, priorizou a
exportação, tanto do petróleo como do gás. Em 2003, Néstor Kirchner aplicou as
retenções no setor, impedindo um maior desabastecimento interno).
Além disso, há a intervenção do governo no
denominado Mercado de Câmbio (com cerca de 4 bilhões de dólares ao ano) para
sustentar o câmbio em 3, 1 pesos por dólar, que aumenta a rentabilidade do
campo. Como destacou a presidente argentina, uma parte desses lucros, portanto,
“é do país, é do povo argentino”. Ela denunciou ainda que “os salários que eles
pagam aos trabalhadores do campo são os mais baixos da escala salarial do país,
são salários de fome em muitos casos, apesar da marcação cerrada que nosso
ministério do Trabalho realiza”.
Na quarta-feira, dia 2, foi levantado o locaute
perpetrado sob o comando dos latifundiários que dominam o setor de exportação,
que bloqueava as principais estradas de acesso à Buenos Aires e às principais
cidades do país e que já começava a criar o desabas-tecimento de alguns produtos
alimentícios.
POVO
“Se este não é o povo, o povo onde está?”,
“Dá-lhes duro, Cristina”, e o tradicional “O povo unido jamais será vencido”,
foram as consignas mais cantadas pelas enormes colunas de manifestantes que,
desde cedo, ocuparam a Praça de Maio, na frente da Casa Rosada, e as principais
avenidas do centro da capital argentina. As mais numerosas foram as dos
trabalhadores convocados pela Confederação Geral do Trabalho, CGTA. Muitos
sindicatos da base da Central dos Trabalhadores da Argentina, CTA, entidades
juvenis, comunitárias, femininas, artistas, parlamentares e representantes de
partidos políticos, mesmo de alguns que não fazem parte da base de apoio do
governo como o Radical, se somaram na defesa de uma política agrícola que
priorize o mercado interno e os interesses da população.
“Dos trinta milhões de hectares cultivados, 45%
hoje é de soja e 95% dessa produção é exportada. Os preços internos não podem
ser acoplados aos enormes aumentos dos preços internacionais. Nos últimos 12
meses, a soja subiu 73%, e o girassol 111%”, esclareceu a presidente, mostrando
que as medidas não são dirigidas contra os agricultores, nem contra a produção
agrícola. “O governo tomou a decisão de aumentar o tributo à exportação de soja
e de girassol [a chamada retenção], por que os argentinos necessitamos que não
se ‘sojise’ todo nosso campo, necessitamos mais trigo, mais milho, necessitamos
mais produtores de gado, de leite, de carne. Nossos alimentos não podem ser
cobrados à preços internacionais”, afirmou.
SUSANA SANTOS |