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Seminário discute malefícios da terceirização
do trabalho
A terceirização nos setores público e privado
vem causando cada vez mais a precarização das
condições de trabalho e maus serviços à
população, apontam sindicalistas reunidos em São
Paulo
Taxada pelos empresários como a “forma moderna
de relação entre capital e trabalho”, a
terceirização significa, na prática, segundo os
sindicalistas, um retrocesso para os
trabalhadores, que estão sendo submetidos a
empregos com salários mais baixos, com os
direitos trabalhistas aviltados, além do aumento
das doenças profissionais e dos acidentes de
trabalho. Para as centrais, a forma “moderna de
relações de trabalho” já existiu no século XIX,
antes da abolição da escravatura.
PRIVATIZAÇÃO DISFARÇADA
Durante o seminário “Terceirização no Brasil –
Avanços e Acordos Possíveis”, realizado na
sexta-feira (4) na sede da Federação do Comércio
de São Paulo (Fecomercio), as centrais
sindicais, em especial CUT e CGTB, defenderam
ainda o fim da terceirização no setor público,
pois este mecanismo tem debilitado os serviços
do Estado, que abre mão de investir na
contratação, na formação e no aperfeiçoamento do
servidor público, substituindo-o por
funcionários rotativos. Segundo os
sindicalistas, a substituição do Estado na
prestação dos serviços essenciais e de sua
responsabilidade está se transformando num
processo de privatização disfarçada.
Além das centrais citadas, o evento contou com a
participação de dirigentes da Força Sindical,
UGT, Nova Central e CTB que debateram com
representantes do setor patronal. O Ministro da
Previdência, Luiz Marinho, o presidente do IPEA,
Márcio Pochmann, os deputados federais
Vicentinho (PT-SP) e Pedro Fernandes Ribeiro (PTB-MA),
e a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo,
também participaram como painelistas.
DESMONTE DO ESTADO
O processo de terceirização no Brasil começou a
se destacar na década de 90, quando os governos
neoliberais tentaram transportar o sistema já
utilizado em empresas privadas para promover o
desmonte do Estado e das estatais, substituindo
os funcionários por empresas prestadoras de
serviços. Segundo estudos do Sindeprestem
(sindicato das empresas prestadoras de serviço
de São Paulo), existem no país 28,9 mil empresas
de trabalho temporário e de serviços
terceirizáveis, a maior parte concentrada no
Sudeste. As empresas faturam aproximadamente R$
40 bilhões ano.
Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann,
atualmente nós não estamos vivendo um processo
só de terceirização, mas principalmente um
processo de internacionalização da
terceirização, em que as grandes empresas estão
enviando os serviços para serem feitos em outros
países, como ocorre com a Índia. Segundo o
economista, esse processo de terceirização
também é reflexo de uma nova configuração da
propriedade que esta ocorrendo mundialmente,
onde se caminha para que não mais que 500
grandes corporações assumam o comando de todas
as atividades econômicas. O presidente do Ipea
destacou que o setor de serviços tem adquirido
um peso muito grande nas economias mundiais.
DIREITOS
“Onde
a gente viu a aplicação da terceirização,
percebemos a precarização das condições de
trabalho, com honrosas exceções. Para nós, a
terceirização no setor privado deve ser sinônimo
de especialização e não de precarização dos
direitos trabalhistas”, afirmou o presidente da
CGTB, Antonio Neto.
Além dos maus serviços prestados à população, a
representante da CUT, Denise Motta Dau, destacou
que os trabalhadores contratados por empresas
terceirizadas enfrentam, tanto no setor público
quanto no privado, os mesmos problemas
relacionados com a precarização dos direitos. “O
Dr. Jan (Wiegerinck, presidente do Sindeprestem)
disse aqui que é importante que a terceirização
não faça com que as relações de trabalho voltem
ao Século XIX, mas sim que tragam boas condições
de trabalho. Mas nós sindicalistas temos
testemunhado e acompanhado que, infelizmente, a
terceirização tem sido sinônimo de precarização”,
disse.
Como exemplo dos malefícios da terceirização no
serviço público, Antonio Neto, citou a Lei nº
8.666, que rege as licitações para serviços e
coloca o menor preço como quesito principal.
Segundo Neto, o valor dos contratos é jogado
para baixo, facilitando a atuação de empresas
inidôneas que pagam salários reduzidos e, como
já ocorreu, desaparecem no final do contrato sem
pagar os trabalhadores. “Ocorreu um caso na
Caixa Econômica Federal. A empresa sumiu e os
trabalhadores só não ficaram desamparados porque
a CEF efetuou o pagamento”, disse Neto.
CÂMARA
O deputado Vicentinho citou exemplos que ocorrem
até na Câmara dos Deputados, de empresas
terceirizadas que não pagam os salários dos
funcionários da limpeza, da segurança e dos
assessoristas de elevadores, que sem receber
cobram providências dos parlamentares.
Um dos problemas estruturais apontados pelos
dirigentes sindicais no setor privado está o
aprofundamento do processo de terceirização,
também denominado de “superterceirização”, que
superou as atividades-meio (limpeza, segurança,
transporte, alimentação, manutenção) e passou a
ocupar espaço das atividades centrais das
empresas, como supervisão, gerência e a própria
produção. Esse mecanismo tem intensificado a
precarização dos salários e a contratação dos
chamados PJs (Pessoa Jurídica), obrigando o
trabalhador a constituir firma para eximir os
empresários de pagarem direitos como férias, 13º
salário e licença maternidade.
De acordo com o Ministro da Previdência, Luiz
Marinho, o país precisa urgentemente
regulamentar o setor porque do jeito que as
empresas vêm atuando tem se constituído uma
“desgraceira”. “Temos empresas que atuam
corretamente, mas temos empresas que atuam de
forma irresponsável e deixam muitos
trabalhadores na rua da amargura”, afirmou
Marinho.
Os representantes das centrais sindicais também
condenaram a postura adotada pelo setor patronal
no Grupo de Trabalho tripartite constituído pelo
governo para debater a questão. As confederações
patronais – que representam apenas as empresas
tomadoras de serviço e excluem até as
prestadoras de serviço - emitiram uma nota
defendendo a regulamentação, mas sem que ela
imponha qualquer limitação para a contratação de
empresas prestadoras de serviços.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA
Os trabalhadores querem limitar a terceirização
ao fator especialização, proibindo a contratação
de empresas para executar as atividades-fim -
como reza o Enunciado 331 do Tribunal Superior
do Trabalho. Querem também que seja instituída a
responsabilidade solidária das empresas
contratantes com as obrigações trabalhistas,
igualdade de direitos e de condições de trabalho
e a penalização das empresas infratoras.
Para o presidente da UGT, Ricardo Patah, os
problemas da terceirização foram gerados pela
flexibilização “nefasta” que ocorreu no governo
de Fernando Henrique Cardoso.
No momento, existem quatro projetos tramitando
na Câmara para regulamentar o setor com
propostas muito antagônicas. O que mais se
aproxima à proposta das centrais é o PL nº
1621/07, de autoria do deputado Vicentinho.
ALESSANDRO RODRIGUES |