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AMA desmonta Saúde da Família e desestrutura o
atendimento básico
DR. ANTÔNIO A. DALL’AGNOL MODESTO*
Na
quinta-feira 6 de março, funcionários da Secretaria Municipal de Saúde chegaram
à Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim São Jorge, periferia de São Paulo, e
fizeram medidas e observações a pretexto de “reformar a unidade”. No fim da
manhã, os funcionários da UBS foram reunidos e receberam o comunicado de que a
área ocupada pelo Programa de Saúde da Família (PSF) no posto seria reduzida à
metade, para que ali fosse instalada uma unidade do AMA (Atendimento Médico
Ambulatorial), que se propõe a realizar atendimentos médicos de urgência.
A UBS
do Jardim São Jorge contava, antes dessa alteração, com 10 salas para
atendimento, usadas pelas seis equipes do PSF. Cada equipe cuida de cerca de 4
mil pessoas da região, oferecendo acompanhamento de problemas de saúde e para
indivíduos saudáveis, além de vacinação, curativos, grupos de pacientes
hipertensos e diabéticos, grupos direcionados à reeducação alimentar e
exercícios físicos, etc. Atendia também algumas urgências médicas e pacientes
não-agendados à tarde. Com a entrada do AMA, o número de consultórios diminuiu,
e as equipes têm que se revezar constantemente para usar as salas – também
divididas com médicos não-pertencentes ao PSF. Restou apenas uma sala para
atividades de grupos de pacientes (que vem servindo de depósito do material
deslocado); foi perdida a sala de discussão dos médicos; e os pacientes, que
esperavam em dois corredores, agora ficam apinhados no que restou. Com menos de
uma sala por equipe, não é possível que a enfermeira e o médico de cada equipe
atendam simultaneamente, o que também fará cair o número de consultas. Além
disso, a diminuição desavisada do espaço da unidade prejudicou as atividades de
ensino realizadas pela USP na Unidade, como a Graduação de Medicina e a
Residência em Medicina de Família e Comunidade.
De
acordo com o website da Prefeitura, “a AMA tem como função o atendimento não
agendado de pacientes portadores de patologias de baixa e média complexidade nas
áreas de clínica médica, pediatria e cirurgia geral ou ginecologia”. É a
proposta de atendimento de urgência, supostamente sem fila, de problemas de
saúde agudos como amigdalites, diarréia, febre, etc., e mais perto de casa que
um hospital de emergência de grande porte.
Se
fossem criados em adição às outras unidades de saúde existentes (PSF, postos,
hospitais, etc.), os AMA poderiam até ser uma forma complementar de atendimento,
desafogando o Programa de Saúde da Família em algumas das demandas da população.
Entretanto, o desmonte do PSF em função da assistência exclusivamente de
urgência cria um sistema de saúde perverso: o paciente é atendido com rapidez,
tem suas queixas imediatas resolvidas (a febre diminuída, a dor melhorada), mas
não pode dar continuidade ao tratamento nem fazer promoção de saúde ou prevenção
de doenças, como propõe a Estratégia de Saúde da Família. Resolve-se o problema
daquele momento, mas o cidadão terá que voltar sempre – porque no AMA não se
investiga uma doença, apenas se trata o sintoma. O AMA não se propõe a cuidar da
pessoa como um todo, nem resolver as causas básicas por trás dos sintomas.
Investindo preferencialmente no AMA, a prefeitura se utiliza do sofrimento agudo
como cabo eleitoral.
Funcionários da Secretaria Municipal de Saúde informaram que a meta da
prefeitura é construir 100 AMA’s até julho, e o 80º foi recentemente inaugurado.
Antes desse, foi inaugurado o do Jardim Paulo VI, próximo à UBS São Jorge. Ele
daria conta da demanda de urgência da população atendida pela UBS São Jorge, mas
mesmo assim a Secretaria decidiu instalar o AMA na unidade sem discutir com seus
funcionários, e a desocupação foi feita às pressas, com prejuízo para o
atendimento.
E não
são poucos os pacientes que, encaminhados ao AMA, diariamente retornam à UBS
queixando-se de que não havia clínico ou pediatra de plantão. Não puderam ser
atendidos em nenhum lugar: devido à falta de espaço e a existência do AMA Paulo
VI, a UBS suspendeu seus atendimentos de urgência. Na tentativa de colocar
médicos rapidamente nos AMA’s, a prefeitura vem oferecendo salários quase duas
vezes maiores que os de um médico de PSF – novamente priorizando o atendimento
pontual em detrimento do continuado.
Depois
de várias reuniões e da pressão de funcionários da UBS e da USP, a Prefeitura se
comprometeu a realizar reformas para recuperar a capacidade da UBS para o
atendimento no PSF. As reformas foram prometidas para abril e maio, incluindo a
construção de um prédio anexo ao posto.
Os
centros de atendimento de urgência são necessários em qualquer sistema de saúde
- mas perdem seu sentido quando sobrepujam a Atenção Primária e o acompanhamento
continuado da pessoa. Está na hora da prefeitura decidir que tipo de assistência
quer oferecer à população de São Paulo.
(*)
Residente de Medicina de Família e Comunidade - da Faculdade de Medicina da USP
- na UBS Jardim São Jorge |