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Charles, só jeito de astro
ARIOVALDO IZAC *
O
futebol está recheado de exemplos de boleiros que “pintam” como craques e de
repente sucumbem. Em meados dos anos 70, o Guarani de Campinas (SP) revelou o
ponta-de-lança Washington, projetado como possível sucessor de Pelé, e os
precipitados se calaram posteriormente porque o jogador não passou de
“promessa”. O Santos foi pródigo em revelar jogadores com jeito de astros, mas
ficaram no jeito, casos dos atacantes Rubens Feijão, Eusébio e Luís Carlos
Feijão.
EXEMPLOS
Como
se vê, exemplos estão aí aos montes. E um deles, que rompeu fronteira do
território nacional, foi o centroavante Charles Fabian Figueiredo Santos, baiano
de Itapetininga, 39 anos. Apesar da estatura mediana, apareceu bem no Catuense
(BA) em 1984, despertou interesse do Bahia e fez sucesso naquele time campeão
brasileiro de 1988, que tinha, entre outros, os meio-campistas Paulo Rodrigues,
Bobô e Marquinhos, e o atacante Zé Carlos. Charles já estava no time em 1987,
quando foi registrado recorde de público no Estádio da Fonte Nova, contra o
Fluminense, com 110.438 pagantes.
O
atacante sabia proteger bem a bola e enfrentava goleiros com a frieza dos
goleadores. Logo, era unanimidade nacional para convocação ao selecionado
brasileiro à Copa América de 1989, com os três primeiros jogos programados para
a cidade de Salvador, na Bahia. E não é que o técnico da época, Sebastião
Lazaroni, o preteriu na primeira lista e chamou o vascaíno Bismark. A resposta
do irado povo baiano foi congelar a compra de ingressos para a estréia do Brasil
contra a Venezuela. Aí, a diretoria da CBF mandou convocar o baiano e a retomada
da compra de ingressos foi sintomática.
Acreditem: um dia depois, inexplicavelmente, Charles foi cortado e o torcedor
baiano, traído, boicotou as bilheterias, e só 13 mil pessoas foram ao Estádio da
Fonte Nova. E mais: uma bandeira brasileira foi queimada, houve vaia até durante
a execução do hino nacional, e alguns ingressos foram rasgados com imagem da TV.
Naquele
clima tenso, o atacante Bebeto fez gesto obsceno à torcida e o então
ponteiro-direito Renato Gaúcho chamou a Bahia de terra de índio. Nesse fogo
cruzado, o fanático baiano respondeu às provocações comparecendo maciçamente no
jogo subseqüente de sua equipe no campeonato estadual, contra o Alagoinha,
também na Fonte Nova, com 16 mil pagantes.
ASTRO
No
frigir dos ovos, o Brasil sagrou-se campeão daquela competição, e o Bahia
desfez-se de seus principais astros. Bobô, o maior ídolo da equipe, foi
negociado com o São Paulo, e Charles foi jogar no Cruzeiro, onde sagrou-se
campeão da Supercopa Libertadores em 1991 no time mineiro.
Charles foi um jogador de compleição física semelhante ao argentino Diego
Maradona. E não é que o ex-meia comprou o passe do jogador e o repassou ao Boca
Juniors, da Argentina, em 1992! Pena que Charles não correspondeu à expectativa
criada em torno dele, como também não ratificou o futebol dos tempos de Bahia
nas duas temporadas seguintes no Grêmio e Flamengo. Em 1994 começou a trilhar a
tenebrosa estrada da volta no futebol passando por Matonense (SP), Desportiva
capixaba e Camaçari (BA).
Como
treinador, a passagem recomendável nas categorias de base do Bahia o credenciou
a assumir o time principal em 2006, mas derrapou na fase final do Brasileiro da
Série C e foi demitido. Teve outra chance no Votoraty (SP), sem contudo
aproveitá-la.
* É
jornalista em Campinas e colaborador do HP |