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Fed admite
recessão e perdas com subprime chegam a US$ 1 trilhão
O Federal
Reserve dos EUA registrou em ata a iminência de “prolongada e severa
retração econômica”. Simultaneamente, o FMI divulgou a avaliação sobre o
colossal montante das perdas com a pirâmide financeira que ruiu nos Estados
Unidos
Depois de fugir como o diabo foge da cruz da
palavra “recessão” há meses, o Federal Reserve dos EUA registrou, afinal, em
ata, a iminência de “prolongada e severa retração econômica”. Foi na última
reunião de março – não aquela do domingo sangrento da Bear Stearns – mas a
regulamentar do dia 18, em que, não por acaso, estabeleceu juros básicos
reais negativos (menos 1,75%). A divulgação dos termos da ata do Fed
coincidiu com o anúncio, pelo Fundo Monetário Internacional, de que as
perdas com a pirâmide financeira que desabou nos EUA já chegam a US$ 1
trilhão. Prossegue o “credit crunch” – o aperto de crédito -, o problema da
negativa de bancos concederem empréstimos, inclusive a outros bancos, por
temor da montanha de papéis podres em andamento.
PITONISA
Com o tamanho do rombo que abalroa todo o
sistema financeiro dos EUA, dos maiores bancos e corretoras, às seguradoras
e fundos de agiotagem, chega a ser curioso o esforço da pitonisa de plantão
no Fed para nublar a singela palavra “recessão”. Afinal, desde a
constituição do capital monopolista financeiro, é em torno dos bancos que
gira toda a economia, e como poderia esse quadro de generalizada
quebradeira, e aperto de crédito, não se estender, e levar a crise, ao
conjunto da produção? Ainda assim, em depoimento ao Congresso dos EUA no
dia 3 de abril o presidente do Fed Ben Bernanke tentou atenuar o que ficara
registrado nas atas do dia 18 de março, declarando-se “ainda não pronto”
para dizer se a economia dos EUA “iria ou não enfrentar tal situação” – a
recessão, que admitiu “possível”. Para mais de dois - terços dos americanos,
de acordo com pesquisa da NBC/WSJ, os EUA já estão em recessão. No quarto
trimestre de 2007, o crescimento da economia caíra, oficialmente, para 0,6%
- quando fora de mais de 4% um trimestre antes.
MORADIAS
Em alguns setores, já não há o que discutir. O
Índice Case/Schiller das 20 maiores cidades dos EUA, mostrou que o preço das
casas encolheu 10,7% no ano passado, enquanto as vendas de moradias
desabaram 23% em relação ao ano anterior. O que significa que o valor das
casas encolheu em US$ 2 trilhões. O Índice de Confiança dos Consumidores da
Universidade de Michigan caiu para 69,6 em fevereiro – o mais baixo desde
fevereiro de 1992. Em janeiro, havia sido de 78,4. A atividade fabril no
estado de Nova Iorque caiu para o índice mais baixo em cinco anos, e a
indústria automobilística sofreu forte retrocesso em janeiro no país
inteiro. A queda aguda nos lucros ou receitas – já verificada entre os
bancos -, agora alcança outros setores. Como a gigante do alumínio Alcoa,
que teve um redução nos lucros de 54% no primeiro trimestre do ano, e a
fabricante de chips de computador AMD, cujas vendas despencaram 15% no
período. Isso não significa que todos os setores já estão em contração, mas
assinala como ela se expande. Na aviação, recomeçou a crise; três empresas
estão falindo (ATA Airlines, Skybus e Aloha Air) e as de maior porte estão
reduzindo o número de vôos. Quanto aos empregos, segundo o Escritório de
Estatística do Departamento de Trabalho, foram cortados 98 mil postos de
trabalho no país em março, a metade na indústria. Em fevereiro, o setor
privado cortou 101 mil empregos.
Nos últimos anos, foi à hipoteca de suas casas
que muitas famílias recorreram, diante da situação de virtual congelamento,
ou queda, do poder aquisitivo sob Bush, para resolver problemas como a
insolvência no cartão de crédito, uma urgência médica ou a faculdade para os
filhos. Para garantirem lucros extraordinários, comissões extras e bônus,
bancos, corretoras, seguradoras e agências de classificação de risco
manipularam essas necessidades, até a pirâmide hipotecária explodir, quando
as pessoas não tiveram mais como arcar com os pagamentos. Famílias tiveram
de entregar suas casas aos bancos, mas as casas já valiam menos que o
empréstimo concedido, que estava calçado em títulos de classificação AAA sem
fundos. Começou a quebradeira que, quando atingiu o Bear Stearns, não houve
mais como abafar. Na seqüência, bancos do porte do Citibank e Bank of
América, e do UBS e HSBC, mais corretoras como a Merril Lynch, Goldman Sachs,
Lehman Brothers e outros, tiveram de declarar grandes rombos e correr atrás
de novos aportes de capital.
BEAR
STEARNS
Muito já foi escrito sobre a quebra da Bear
Stearns, mas possivelmente é uma notícia do jornal inglês “Telegraph” que
melhor dá conta da orgia especulativa. “Bear Stearns tinha posições totais
(derivativos) de US$ 13,4 trilhões. Isso é maior do que o Produto Nacional
Bruto dos EUA, ou igual a um quarto do Produto Nacional Bruto do mundo –
pelo menos em termos ‘nocionais’”. O jornal acrescenta que esse “impensado
edifício” de papéis estava erguido “sobre uma base de ativos de US$ 80
bilhões no máximo”. No final do quarto trimestre, o Fed avaliou que os já
então US$ 32 bilhões do Bear em ativos e capacidade de empréstimo eram
suficientes para operar por 20 meses. Como se sabe, não resistiu a três
dias. O analista de mercado Mark Gongloff assinalou a “alavan-cagem” das
mais conhecidas pirâmides no final do ano passado: Morgan Stanley, de 32,6
para 1; Bear, de 32,8 para 1; Carlyle, de 32 para 1; Lehman Brothers, de
30,7 para 1; Merril Lynch, de 27, 8 para 1; e Goldman Sachs, com 26,2 para
1. Um castelo de cartas. Além disso, as corretoras e bancos entrelaçavam
suas “garantias”, “opções”, fundos e contrapartidas.
No depoimento de Bernanke, um deputado
republicano do Texas, Kevin Brady, perguntou a ele “quantas balas o Federal
Reserve ainda tem”. O encanador do dinheiroduto de US$ 30 bilhões para o
Bear/JP Morgan Chase respondeu que “temos sido muito criativos até agora”.
Aliás, é o tipo de criatividade que os Morgan e os Rockefeller adoram.
Quanto às balas na agulha, a conta pode não ser bem assim. Segundo a “Bloomberg”,
dos US$ 709 bilhões que o Tesouro dispunha para prover liquidez para o
sistema bancário, 60% já foram torrados. Mas, como aconteceu no Japão
pós-bolha imobiliária dos anos 90, não é muito provável que os bancos usem
toda essa “liquidez” proporcionada gentilmente pelo Fed, para evitar que o
país afunde na recessão. Informa o “Wall Street Journal”, que os americanos
“estão investindo muito do seu dinheiro no exterior”. Como analisou Michal
Hudson no site “Counter-punch”, os bancos estão pegando o dinheiro
emprestado do Fed a juro baixo e comprando títulos estrangeiros em euros, de
juro maior – e no processo, realizando um ganho em divisas conforme o euro
sobe em relação aos ativos em dólar”.
ANTONIO PIMENTA
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